sábado, 29 de agosto de 2009
Poemas com a letra D
DE VIAGEM
Há pouco findou-se o dia;
Desce a noite e se apresenta
Calma, pesada e sombria,
Hirta, brutal, macilenta.
Um manto de sombras densas,
– Frio capuz de tristeza,
Cobre toda a Natureza
Com suas dobras imensas.
Nos ermos mansos, tristonhos,
Nas amplas várzeas desertas,
Como fantasmas de sonhos,
Vagueiam Sombras incertas.
Tênues, ignotos aromas
Vêm das florestas dormentes,
E os arvoredos gementes
Agitam de leve as comas.
A lua, alva flor de prata,
Fria camélia ao relento
Deixa cair em cascata
Seus raios do firmamento.
A fria, trêmula aragem
Vai deitando em rodopio
As folhas secas da margem
Sobre a corrente do rio.
E a estrada, a caracolar,
Se mostra, e desaparece,
E ao caminheiro parece
Branca serpente ao luar.
Gritos e pios das aves
Noturnas juntar-se vêm
Às notas sentidas, graves,
Que o seio da noite tem.
Uma tristíssima cruz
Ereta ao lado da estrada,
Modesto emblema, traduz
Uma desgraça ignorada.
E um mocho naquele emblema,
– Oliveira daquele horto, –
Nobre piedade suprema!
Vela sobre o infeliz morto.
Mas a noite vai passando,
Não tarda que cante o galo...
No entanto sobre o cavalo
Eu vou cismando, cismando...
Cismando em eras passadas,
Arrojando a fantasia,
Louca, furiosa, erradia,
Através destas estradas.
Em meus revoltos cabelos
O frio sopro do vento
Deixa a umidez do relento
E leva-me os pesadelos.
A longos haustos sensuais,
Cheio de um íntimo gozo,
Sorvo este ar generoso
Que a madrugada me traz.
E esta frescura amaviosa
Que o peito em brasa me invade,
Leva-me e a dor tenebrosa
Toda diluída em saudade!
Ouve-se o canto do galo
E a aurora vem despontando...
E triste, sobre o cavalo
Eu vou cismando, cismando...
* * *
DESLUMBRAMENTO
Por sobre nós o azul silenciosamente
Se arqueia, ébrio de luz, de paz, de sons, de amor,
E apenas da águia errante a asa viril e ardente
Põe naquela cor casta a nódoa de outra cor.
Vê-se ao longe esverdear melancolicamente
Das montanhas senis os flancos onde o ardor
Do sol retine e bate irresistivelmente,
Penetrando-lhe a entranha e haurindo-lhe o frescor.
No entanto a águia possante, as asas espalmadas,
Sobe, até que sentindo as penas abrasadas
Volta e procura a serra, exausta de vigor...
Também minh'alma um dia ao azul puro e radioso
Abriu o cálix branco ébrio de amor e gozo,
Para depois fechá-lo ermo de gozo e amor!
* * *
DOENTE
Dores, angústia, insônia, ansiedade, frio!...
E é meio-dia, ó sol! ó mocidade exausta!
Tal como o vento arranca ao lago um arrepio
Arranca o ocaso o pranto à tua estrela infausta!
Luar dos mortos, morto e frio como o gelo,
Ó lágrima do sol suspensa da amplidão!
Eu te abomino, luar! Meu Deus, custa-me vê-la
Como um círio a pingar cera sobre um caixão!
Noite. Silêncio atroz, angustioso. A calma
Agoirenta da febre. O letargo das cousas...
No frio Campo-Santo às tempestades d'alma
Não é mais imponente a fria paz das lousas.
Fecho os olhos e escuto. O silêncio retalha
O vento que entra e sai pelas frinchas da porta,
Com o som de uma tesoira a cortar a mortalha
Para o meu corpo e range, e corta, e corta, e corta!
Na penumbra indecisa a febre põe visões
De velhas a rezar ladainhas de mortos,
Loas para encurtar os lúgubres serões,
Não deixando-as fechar os olhos seus absortos.
Sobre um pano de luto um Cristo, a fronte curva,
Contempla os pés na cruz pregados brutalmente,
E da fronte sangrenta, enlivicida e turva
Caem gotas da cor vermelha de um poente.
Corta o ambiente o som de vozes misteriosas:
Comentários da morte: a doença, a agonia...
Como na paz claustral da cela as religiosas
Falam baixo porque a Tentação espia...
Ó fantasmas! visões horror das horas mestas,
Tenho-vos ódio, ó vis quimeras dos doentes!
Eu não vos quero ao pé de mim, sombras funestas,
Quero lábios a rir risos bons, estridentes!
E a febre, a angústia aumenta! e eu a tremer de frio!
Frio d'alma que esmaia aos repelões da Dor!
Ó névoas, entreabri vosso capuz sombrio,
Deixai que eu goze ainda a mocidade e o amor!
* * *
DOLENTES
No azul puríssimo, arqueado
Do céu longínquo, a lua vai,
– Bloco de mármore atirado –
No azul declívio... e rola e cai
Por sobre a treva opaca e muda,
Bem como um líquido tesoiro,
Já transformado em chuva de oiro
Que em luz, caindo, se transmuda.
E assiste inerte e penetrada
De um misticismo religioso,
Essa ampla queda, áurea e sagrada
Da luz, minh'alma erma de gozo.
Porque de há muito retraída
Num tédio espesso, aterrador,
Sente-se fraca para a vida,
E duvidosa para o amor.
A alma das coisas insensíveis
Talvez que tenha nestas lutas
Fibras mais fortes e inflexíveis,
Mais virginais, mais impolutas.
Meus ideais, meus sonhos, meus
Castelos alvos, de escumilha,
Caíram todos... e onde Deus
Um mundo pôs, acho uma ilha.
E na atra e pérfida agonia
Que os nervos todos me constringe,
Como uma vela, a fantasia
Foge num mar que a luz não tinge.
Às vezes flácidos, batidos
Da luta, o corpo e a alma repousam,
Mas no meu crânio comburido
Nem mesmo os sonhos alvos pousam.
Somente como o choro vago
Remoto e triste do alto mar,
Como a candura de um afago,
Quase a sorrir, quase a chorar;
Como uma queixa misteriosa
Dita num som casto e magoado,
De flor ou ave, inseto ou rosa,
Ao som, ao vento, ao sol doirado;
Chega-me branda e triste a voz
Longínqua e triste da Poesia,
Como uma pomba, à noite, a sós,
Cortando a treva erma e sombria.
Mas, mais que essa dolorosa
Insubmissa voz santíssima,
Em minha noite angustiosa
Outra eu quisera ouvir puríssima.
Era essa voz pura e sonante,
E melancólica e serena,
Que me faz d'alma um diamante,
Do coração uma açucena.
Mas dessa voz o som magoado,
Minha alegria e meu tormento,
Ouço-o gemer neste momento
Sob as ruínas do passado,
Onde eu lançando o olhar paciente,
Sem comoções, sem ansiedade,
Só vejo a flor roxa e tremente,
Tranqüila e fria da saudade!
* * *
DOLOROSA
Tu perpassaste dentro do meu sonho
Branca e sentida como o luar de Agosto;
Tinhas na voz um cântico tristonho
E uma tristeza de Ângelus no rosto.
Por que essa sombra eterna de desgosto
Te agasalhando o amor que, alto e risonho,
Devera voar, bem longe do medonho
Cairel da dor, ó rosa do sol-posto?
Em teus olhos dolentes e magoados
Havia a dor dos sonhos lacerados
E um ar profundo de desolação.
É que teu coração ia morrendo
Como uma margarida emurchecendo
Num crepúsculo triste de verão.
* * *
Poemas com a letra E
ELEGIA
Dorme feliz à sombra do teu nada
.........................................................
Cabeça heróica, ó alma desgraçada!
JOÃO DE DEUS DO REGO
Depois de tantas, de tão cruas lutas,
E quando as asas da felicidade
Sobre tua alma abriam-se impolutas;
Quando, já gasta a tua mocidade,
Ias, enfim, gozar dessa tranqüila
Vida de amores, de suavidade;
Mal entreabriste a cândida pupila
Para esse céu! mal viste a áurea coroa
Que te esperava ao fim dessa intranqüila
Existência de dores onde, à toa
Tua alma ansiosa no cairel sorria
Mártir, serena, intransigente e boa.
Mal aspiraste a rosa da alegria!
Viste tombar a última esperança
Quando a barreira última caía!
Tua alma triste, carinhosa e mansa,
Cheia do fel das lágrimas supremas,
Tinha o fulgor que a desventura alcança.
Coroavam-te a fronte dois diademas:
A desgraça e o amor! e deles dois
Fez a noite, ferindo-te, dois poemas.
Ao luar da saudade dormes pois:
Ama-te o luar que em vida tanto amaste...
Ó lua! Ó poeta! tão amigos sois!
Tuas canções ao vento derramaste
E agora o vento entoa-t’as, passando
Sobre a morada eterna a que baixaste.
Alguém por ti o coração sangrando
Sente! Descansa, desgraçado amigo,
Que eternamente sobre o teu jazigo
Vão esse coração e o luar chorando.
* * *
ESCRAVO
Canta, escravo! murmure a tua guzla escrava
Em plangências sutis, risos, consolações;
Canta qual no espinheiro à tarde a rola brava;
Unja o teu lábio o mel de ignotas canções.
E o Homem se ajoelhou; nas cordas de oiro os dedos
Roça de manso, a medo e a harmonia golfou,
Golpeada de martírio e cheia de segredos:
Dúlia estranha de amor a que o escravo tocou!
Teu canto faz-me mal. Pára, escravo, começa
Outro canto de glória à minha formosura;
Como espirais de incenso ao éter arremessa
Os frêmitos do Gozo e o êxtase da Ternura,
Ele cantou então um canto desvairado
Com gemidos cruéis de lascívia selvagem!
Era o beijo profano, o soluço angustiado
Da Carne, num estertor profundo de voragem!
Basta! Canta o amor inefável, sublime,
Puro... Não cantarei! volve-lhe o escravo austero,
E, para resguardar minha lira do crime...
Quebrou-a num supremo e heróico desespero!
Colérica, num gesto ameaçador e bravo,
Com o olhar incendido, ela o Homem devora:
Covarde! deste amor nem sabes ser escravo!...
E deste escravo vós não sabeis ser senhora!
* * *
ESPERA E CRÊ
Meu amor, meu amor! A nossa estrada
Como é cruenta! Como é dolorosa!
Só nossa crença guia-nos, e nada,
E nada mais, ó minha pobre rosa!
Do horizonte na bruma silenciosa
Não aparece a estância alva e sagrada
Que há de guardar tua alma carinhosa
Como um ninho uma pomba fatigada.
Pálida e triste, angélica e franzina –
Fitas o olhar na solidão imensa
E o desalento enubla-te a retina.
Espera e crê! Por entre a treva densa
Há de brilhar a estrela peregrina
Que há de guiar-nos pelo azul suspensa...
* * *
ESPINHOS
Se vendo a minha placidez severa
A minha fria e grave indiferença,
Que não há olhar teu que turbe e vença,
Nem a mágoa que finges, grave e austera;
Se, vendo morta a cândida quimera
Que tanto tempo foi-me altar e crença,
Vês-me suster a lágrima suspensa
Por quem debalde o teu despeito espera;
Se tu, vendo-me pálido e tranqüilo,
Sempre evitando o luminoso asilo
Do teu olhar fatídico e sereno,
Tremes de raiva e tremes de surpresa...
Rasga-te, flor, no espinho da incerteza
Envenenada pelo teu veneno!
* * *
ESTER
Pela janela aberta a aragem fria
Entra trazendo o aroma dos rosais,
E o Sol, abrindo as pálpebras reais,
Setas e setas de oiro fosco envia.
Dormindo, Ester, a pálida judia,
Sob as brancas cortinas virginais,
Sonha com as puras noites orientais
Cheias de luz e de melancolia.
Úmido o lábio trêmulo, rosado,
Suplica um beijo; o seio delicado
Arfa de leve entre os albentes folhos...
Sonha e sorri os olhos apertando
– Negras franjas de seda resguardando
As duas negras pérolas dos olhos.
* * *
ESTÓICO
Amo-te mais que a própria vida; escuta:
Para possuir-te, para desfrutar-te
Ó amor, teu corpo – esse delírio d'arte,
Minh'alma ansiosa, intemerata, luta.
O mar, o inferno, as atrações do abismo,
A loucura do crime afrontarei!
Mesmo o teu ódio, mesmo
o teu mutismo...
E se
eu fosse perdida?!...
Eu matarei!
A quem? - A ti!
E é este o teu amor!
Quero-te
pura, poluída nunca!
Pois
bem! fiz em pedaços o pudor
Para
salvar da fome à garra adunca
Minha
mãe, minha irmã!...
- Bem, nesse caso
Eu sou o infame; insulto teu martírio!
Morta estrela entre as nébulas do ocaso,
Ó roxo, triste, envenenado lírio!
E o
que vais tu fazer, meu pobre amigo,
Quando
o meu crime mata a tua esperança!
Ele sorriu...
– Misérrima criança!
Meu
grande amor se extinguirá comigo!
Perdoas-me?
Perdôo-te!
A moça,
em pranto,
Estende a boca súplice, sequiosa...
Último beijo! E, lívida de espanto,
Vê-lhe nas mãos a arma
criminosa.
Volve-lhe o moço: (a voz maviosa e doce
Não
lhe traía o imenso desespero)
– Amei-te pura! é pura que eu te quero!
Pura não és!
adeus!...
E apunhalou-se!
ESTRELA DO
MAR
À minha Mãe
I
Sobre
o abismo sem luz de minha vida atroz
Fulges tu, silenciosa Estrela vigilante;
E me falas na doce e gemedora voz
Do vento, e à noite vejo o teu olhar amante.
Do alto, o teu olhar, firme ao náufrago errante
Sobre a onda da vida enraivada e feroz,
Mandas corno um perdão vindo de alma distante
Para outra que jaz numa masmorra a sós.
Ó
pálio azul das minhas crenças, dos meus sonhos!
Ó
diamante a fulgir no lacrimal das noites
Minhas de viuvez e temporais medonhos!
Quando
sofro e o silêncio escuta-me os pesares
Eu
rezo a ti e a dor abranda os seus açoites,
Ó
Estrela do mar a fulgir sobre os mares!
II
Farol das noites más dos que vogam perdidos
Sobre o cairel traiçoeiro, inclemente e brutal
Da vida; a soluçar com os corações partidos,
–Velas rotas à noite, às rajadas do mal.
A sorrir e a cantar na abóbada; claustral
Dos
corações suspensa, às pragas e aos gemidos,
Faz
dia a tua luz muita treva fatal,
Ó
virgem de perdão! Estrela dos vencidos!
És tu quem desce e faz na charneca do crime
Nascer a flor do Bem inefável sublime,
Entre os cardos da Dor hostis
como punhais!
Mãe
dos tristes! Ó Mãe dos humildes, dos fracos!
Ó
luar do perdão a alumiar os vácuos;
Alvorada
do Bem! Eco piedoso de ais!
* * *
EXTRAVIADO
I
Vens pálido, vens triste, vens cansado,
Podes entrar, assenta-te, descansa!
Que
noite! Tanto frio! Vens molhado?
Aquece-te ao meu lar, pobre criança!
Por
onde andaste? – Longe. – Extraviado
Vim
de um país remoto na esperança
De
encontrar da ventura (desgraçado!)
A ilha
loira, transparente e mansa.
Vi da desgraça o
lúgubre cairel;
Fui náufrago no oceano das paixões
E o que existe sofri de mais
cruel.
Fui pó na asa veloz dos
turbilhões...
E...? Trago o coração cheio de
fel
E a cabeça vazia de ilusões.
II
Pois eu jamais saí do meu país;
Foi remansosa a minha mocidade,
Inda hoje o mundo diz que sou feliz,
Que outro não há como eu na minha idade.
Tive
pendências, inimigos vis,
Gostei
do céu, da luz, da liberdade,
Tive
auroras de sonhos juvenis,
E
crepúsculos tristes de saudade.
Nunca
choraste? Quando amei. - E agora?
Choro
porque a perdi!... – E és venturoso,
Quando
o pesar e a raiva te devora!?
Mais
do que tu, misérrimo inditoso,
Pois
molha o pranto que minh'alma
chora
As
cinzas quentes dó passado gozo!
* * *
Poemas com a letra F
FASES
I
Quando o crepúsculo invade,
Triste e grave, os horizontes,
Como uma mesma saudade
Que faz vergar muitas frontes,
Também, triste e grave, o horror
Sondando do meu martírio,
Sinto que o amor – este lírio –
Traz este pólen – a Dor!
II
Quando a lua desgarrada.
– Errante floco de neve,
Pela abóbada azulada
Rola de leve, de leve...
Eu, lembrando o nosso idílio,
Tão cedo morto, querida,
Sinto rolar minha vida
Como a lágrima de um cílio!
III
Rompe a manhã: é alvorada.
A aragem beija os rosais
E pelo ar a revoada
Vai das aves matinais,
Assim minh'alma se enflora
E, louca, canta e sorri
Quando os meus olhos em ti
Se fitam, meiga senhora!
* * *
FEZES
Rindo e gozando amarrotaram, vis!
A virgem flor da tua mocidade;
E de tua alma as ilusões gentis
Voaram para o outono da saudade.
Cruel, trágica e fria ansiedade!
Quando nas tascas fumarentas, ris,
Te insulta o bocejar da saciedade
Das tuas graças gastas e senis.
Tragas, serena, o fel heroicamente,
Sentindo embora o murmurar latente
De íntima voz que o teu futuro aponta...
Arrependidos cospem-te os bordéis...
E alucinada, furiosa, tonta,
Cospes na lama que te cobre os pés!
Poemas com a letra I
IDEAL
Menina e moça, a primavera em flor,
Um jardim de esperanças e de sonhos:
Dois olhos como o céu puros: dois sonhos
Polvilhados de risos e de amor.
Tem a meiguice da ave mansa; doce
É sua fala: o olhar uma açucena;
Alma de flor: de lírio, de açucena
Qual se de lírio ou de açucena fosse...
Menina e moça, o riso perfumado
Casto e lirial da primavera em flor,
Riso de anjo; olhar de anjo, alma de flor...
E, um sonho em riso entreaberto, iriado.
Brotam-lhe os seios, cria formas, nasce,
Vai para a vida, tão mimosa e meiga.
Franzina e airosa, é tão mimosa e meiga
Inda com as cores virginais na face!
Amo-a! Sonho de artista, eu a procuro
Extasiado em muda adoração!
Em minha muda e longa adoração
Adoro-a como o ideal de meu futuro!
* * *
INQUISIÇAO MATERNA
Não sai jamais de ao pé da mãe.
A passear não sai também,
Não pode rir!
Pobre criança, pobre menina!
Seu coração, como a bonina,
Procura a noite para se abrir.
Seus grandes olhos tristes e vagos,
Como dois sóis sobre dois lagos,
Cheios de pranto...
Triste, serena e resignada,
Ó pobre freira enclausurada
Por que razão padeces tanto?
Amas e sofres silenciosa
A dor ingrata e tenebrosa
Que te lancina.
Ó desventura inda não vista!
–De uma alma a flor pisada a vista!
Pobre menina, pobre menina!
Como de um ramo tombam as flores
Despetaladas pelos ardores
Do sol vibrante,
Essa grinalda de fantasias,
Feita de sonhos e de utopias,
Vês-la murchar de instante a instante!
Do teu amor espezinhado,
Sonho sereno e malfadado,
A chama existe
Sob teu peito puro e leal
Unida às rosas do ideal,
Ideal de amor profundo e triste!
Se à tarde chegas à janela
Pálida e triste, pálida e bela,
Meiga senhora,
Trazes-me e à idéia – cativa rola,
Presa num ramo, flor que se estiola,
Anjo doente, anjo que chora!
Se nesse olhar que o teu procura
Tua alma vais, serena e pura,
Deixa pousar,
Toda suspensa, trêmula toda,
Nessa ventura que te põe douda
Que te faz quase delirar,
Ai, como pagas essa ventura
Por longos tragos de amargura,
Noites de dor!
O olhar materno – frio e profundo,
Mostra-te a "Vida", mostra-te o "Mundo"
E amaldiçoa o teu amor!
Eu muita vez penso que Deus
A casta auréola dos anjos seus
Fez desse pranto,
Fez dessa mágoa, fez dessa Dor,
Do sofrimento pelo amor
Que é dentre todos o mais santo.
Por cada lágrima que desce
Dos olhos teus, sobe uma prece
Para Jesus,
Prece sentida, prece magoada,
Que a Virgem toma ajoelhada
Para depô-la aos pés da Cruz.
* * *
ÍNTIMA
Não sei que calma flutua
Em teu olhar,
Tão pura e tão poderosa,
Sagrada, misteriosa,
Tal como a calma da luz,
Ou como a calma do mar.
Muita vez minh'alma em pranto,
Amargurada,
Como uma corça ferida,
Procura a fonte da vida
Na harmonia do teu canto,
Na unção da tua risada.
Pareces-me um ser aéreo,
Silfo ou anjo,
Que avistando a tua imagem
Pára o vento na ramagem...
Cerca-te um fluido, um mistério.
E é sagrado quanto abranjo!
E este amor ardente e puro
Que me inspiras
Tem tal força, tal encanto.
Tem tal poder, é tão santo,
Que em seu segredo, obscuro,
Tem o clarão de mil piras.
Basta ver-te, e o meu olhar,
Morto e vago.
Brilha, lampeja, se inflama,
Tem fulgor de viva chama
Como um sol a incendiar
A quietude de um lago.
Ah! como eu te adoro! santa!
Meu clarão!
É tão profundo este amor
Como a Saudade e a Dor!
És a flor que se levanta
Das ruínas de um Coração.
* * *
INVERNO
A Lopes Filho
Chega o inverno ríspido;
O inverno chega, frio:
Já pelo ambiente gélido
A névoa fio a fio
Desce.
O rio, cavo,
Murmura, ameaça,
Cresce
Cresce, transborda e passa.
Aves com frio,
Ninhos molhados...
Do rio
As lavandeiras brados
Soltam com frio.
E o inverno: chega,
Das nuvens desce;
Ruge, estortega,
E o rio cresce,
E as aves choram...
De luto as pedras
Vestem-se, e oram.
As rolas fogem:
Quem sabe aonde
Elas irão?
Se a névoa esconde
Os horizontes
Prados e montes
Acharão?
Pelas campinas,
Pelos oiteiros,
Só nevoeiros,
Frio e neblinas.
Pela cidade
Tristeza só!
Vestem-se os muros
Pardos, escuros,
De limo e pó.
Do campanário
Na flecha esguia,
As andorinhas
À luz do dia
Não pousam mais.
E o grito terno
Delas no inverno
Não se ouve mais!
E eu? Olha, pensa,
Ó meu amor!
Sem fé, sem crença,
Na noite imensa,
Fria, que horror!
Sei que não voltas
Ao coração...
Não voltas, não!
E as ondas frias
Do bravo mar
Da minha vida,
Com o teu olhar
Só tu podias
Fazer parar!
Noites, que noites!
Estas que passo
Chorando, a orar!
Sem um afago,
Pois na minh'alma
É vago, vago
O teu lugar!
* * *
Poemas com a letra L
LÁGRIMAS
Lágrimas tristes, lágrimas doridas,
Podeis rolar desconsoladamente!
Vindes da ruína dolorosa e ardente
Das minhas torres de luar vestidas!
Órfãs trementes, órfãs desvalidas,
Não tenho um seio carinhoso e quente,
Frouxel de ninho, cálix recendente,
Onde abrigar-vos, pérolas sentidas.
Vindes da noite, vindes da amargura,
Desabrochastes sobre a dura frágua
Do coração ao sol da desventura!
Vindes de um seio, vindes de uma mágoa
E não achastes uma urna pura
Para abrigar-vos, frias gotas d’água!
* * *
LITANIAS
I
Que vida esta amarga e treda,
Que desabar! que terremoto!
Que fim brutal! que horrível queda!
Que vida esta amarga e treda!
Missal do sonho aos ventos roto.
II
Neves do inverno da agonia!
Folhas do outono da amargura!...
Em noite fria, em noite fria, –
Neves do inverno da agonia,
Caí na minha sepultura.
III
Imensas órbitas sequiosas
Do coração, ensangüentadas,
Vazios cálices de rosas,
Imensas órbitas sequiosas
Famintas sempre, insaciadas.
IV
Fauces de abismo, amplas crateras
Escancaradas a esperar
A lava rubra das quimeras...
Fauces de abismo, amplas crateras,
Não vos enchera o próprio mar.
V
Lírios magoados da saudade,
Violetas roxas da tristeza,
Crescei sem luz, sem claridade,
Lírios magoados da saudade,
Sob as lufadas da Incerteza.
VI
Ânsias de amor, adejos místicos
Ó veleidades de ideal!
Na treva um dedo traça dísticos...
Ânsias de amor, adejos místicos,
Parai, sofreai a ânsia fatal!
VII
Ó meus castelos senhoris
Ao luar do amor edificados!
Tanto vos quis! Tanto vos quis!
E os meus castelos senhoris
Ei-los por terra, ei-los tombados!
* * *
LUTAS
Sinto-me triste e fatigado. Ainda
Vibra-me n'alma o seu olhar severo,
Inflexível, frio, calmo e austero,
Cheio das fezes de uma dor infinda.
A dúbia luz da lamparina treme,
Vacila como eu, como eu descora,
No entanto, aos poucos no Oriente a aurora
Sacode a cabeleira de oiro e creme.
O crótalo do ciúme o dente crava
Em meu amor; e eu sinto-me covarde
Nesta luta cruel, tenaz e brava
Onde minh'alma se estorcendo arde.
Deus do vencido, ó sono! me acalenta
Esta agonia atroz que me esfacela!
Mas não, ó Dor! o sono me afugenta
Pois eu posso talvez sonhar com Ela...
* * *
Poemas com a letra M
MAGOADA
Corpo de anjo, coração de hiena!
PAULA NEI
Vais desdenhosa e pálida passando
No vitorioso azul da adolescência,
Como uma flor ao sol se estiolando,
Perdendo as cores e perdendo a essência.
Freme teu riso arregaçando a rosa
Do lábio ungido de ironia e dor!
E és sempre a mesma, cândida orgulhosa,
Olhar de hiena, coração de flor!
E hás de viver assim eternamente
Altiva e fria, irônica, impassível,
Alma d'anjo mimosa e recendente
Cedo crestada ao sopro do impossível!
Subiste ao céu no teu amor primeiro
D'onde caíste inopinadamente!
E viste frio, ó coração ardente!
Morrer teu sonho branco e feiticeiro!
Tem o triste gemer das casuarinas
O teu sereno olhar, deusa sombria –,
E a luz crepuscular da nostalgia,
E a majestade de um palácio em ruínas!
* * *
MÁGOAS
Eu sinto n'alma o fúnebre
vazio
Que o ninho sente quando a
pomba voa.
JOÃO DE DEUS DO RÊGO
Por
que essa flor que encerra a nossa vida,
Na
melindrosa ânfora guardada,Treme, pálida e fria, sacudida
Por tua mão angélica, de fada?
Por
que das minhas utopias santas
O vôo
cortas quando as tenho presas,À tua boca e à tua voz – se cantas,
Às tuas mãos e ao teu olhar – se rezas?
Por
que deixaste, pérola, a queixosa
Concha
cheia de amor e de martírio?Por que deixaste este luar, ó rosa?
Por que fugiste deste orvalho, ó lírio?
Pois
bem, deixa que eu gema e que sucumba
Com
teu retrato no meu coração,E vá de solidão em solidão,
A procurar o amor de tumba em tumba.
Deixa!
e nem tentes mais chamar à vida
Meu
coração desesperado e frioQue anda no mar da Dor como um navio
Na escuridão da noite indefinida!
* * *
MAL ÍNTIMO
Esta amargura funda, esta inclemência
Atra e brutal que me persegue, e mata,Como um veneno, as flores cor de prata
Da minha entristecida adolescência;
Este ambiente de corrupta essência
Onde o Tédio os seus flóculos desata;Este vento de dor que me arrebata,
Os sonhos de fulgor transparência:
Toda esta amarga e triste decepção,
Esta da vida cética ironia,Esta contínua e trágica aflição,
Este simoun do mal veio-me um dia,
Por não possuir teu peito um coração* * *
MANHÃS DE OUTUBRO
Frias
manhãs de Outubro, neblinosas,
Cheias
de aroma, cheias de tristezaPara minh'alma que se estorce presa
Nas roscas das saudades angustiosas,
Sois
para mim como esfolhadas rosas
Cobrindo
o altar onde minh'alma reza,E onde arde noite e dia sempre acesa
A lâmpada das dores tormentosas.
Frias manhãs de Outubro, eu vos adoro
Mesmo cheias do pranto das neblinasQue é como o pranto que eu de noite choro.
As vossas névoas trêmulas e finas
São como contas pálidas; e eu oroVendo-as descer, as pálidas neblinas!
* * *
MAR DE SARGAÇOS
Olha
o Mar de sargaços. Na extensão
Que o
raio visual abarca e alcança
Somente
a fria e pálida amplidão
Do
céu destaca-se, e uma cor mais viva
Mais colorida lança
Naquela
triste paz imota e hedionda!
Mar
sem o indício de uma vida ativa
Sem o rumor da onda.
A
água embaixo das plantas não murmura,
Não mostra
a face adormecida e fria,
Coberta
toda a líquida planura
De
detritos, estende-se sombria.
É
triste o aspecto desse mar estígio:
Acres
destroços, algas, negro limo
Podre
e perpétuo sobrenada ao cimo...
Mar
sem vagas altivas, e da espuma
Nem o menor vestígio.
Apenas
sobre aquela estagnação
As
gaivotas marinhas sacudindo
As amplas
asas brancas, a soidão
Povoam
desse mar, ou construindo
Os
ninhos sobre as algas, ou fendendo
Em
longo bando os desolados ares...
Ali
não viça a flor dos nenufares
O orvalho recebendo!
A tempestade bruta,
Que
as brutas asas sobre os flancos bate
Do
Oceano e o faz arfar, rugir na luta
No tenebroso, colossal
combate;
Deste
outro mar a superfície morta
Não
agita, não faz nascer-lhe a espuma,
Que,
nesse estado comatoso absorta,
Ele
assemelha-se a um lençol de bruma.
Volta os teus olhos e olha
Querida, para mim: lê no meu rosto
E nos meus olhos lê, e folha a folha
Lerás minh'alma. A foice do desgosto
Segou
cruelmente a messe dos meus sonhos!
Lá dentro o coração
Só
tem soluços fúnebres, tristonhos!...
Nem
mais um sonho! nem uma ilusão!
Umas mortas
em flor, outras inertes,
Nostálgicas
estrelas dos espaços
Caídas!
Olha-as, mas não n'as despertes!
Paz
dorida e cruel de Campo-santo!
Lacrimoso
crepúsculo sagrado!
Nem a lava do pranto
Pode
agitar este vulcão parado!
Sonhos esparsos,
Grinaldas
murchas de esperanças: mortas,
Melancólicas,
frias, absortas
Utopias
altivas! Ah, querida!
Sem
teu amor, escuta, é minha vida
Como
um mar de sargaços!
* * *
MEU CACHIMBO
I
Companheiro das noites desoladas,
Das desoladas noites que se escoam
Lentas como aves que no azul revoam
À languidez das tardes acolchoadas;
Quando em meu peito as dores abotoam
– Larvas famintas e desesperadas
–
E as ilusões, fugindo apavoradas,
Nênias
e nênias lúgubres entoam;
Oh,
meu amigo, como eu te amo, quando
Distrais-me
a minha dor, a acalentando,
E
acalentando as minhas rudes mágoas.
Ao menos tu me sabes enganar
Na vida, o bravo e tumultuoso
mar
Onde rasguei o coração nas
fráguas.
II
Teu fumo branco, vaporoso e ondeado
Em
frias espirais subindo, passa
Como o nectáreo líquido da taça
Desenervando o espírito alquebrado.
Perfuma
o ambiente e, trêmulo, esvoaça
Como
um sonho de amor nobre e elevado
Purificando
um coração magoado
Das dolorosas fezes da
desgraça.
Quando
sombrio e triste, o desalento
Prostra-me,
inerte, pálido e doente
Da
solidão na dolorosa via,
Nesse deserto e lúgubre Sahara
Tens
o poder, tens a virtude rara
De adormecer a minha nostalgia.
* * *
Poemas com a letra N
NÁUFRAGO
Eis-me náufrago e só, na vastidão
Da praia desolada,
Aonde o mar – indômito leão –
Esmaga a onda fria e angustiada.
Eis-me náufrago e só! Áspero e frio
Corta-me o vento os ombros
E o firmamento triste, ermo e sombrio
Tem a mudez inerte dos assombros.
Eis-me náufrago e só! Como um lamento
Que sai da escuridão de subterrâneo,
Vem-me nas asas trêmulas do vento
O grito surdo, fúnebre, titâneo,
Que o mar solta do peito truculento
E a alma nos corta, agudo e subitâneo,
Como uma flecha o azul do firmamento!
Eis-me náufrago e só! A alma inda presa,
Tonta da luta, trêmula,
De angústia chora, se ajoelha e reza!
E a onda – alma do mar – da nossa êmula,
Vemo-la forte a rugitar e vemo-la
Morrer na praia onde o silêncio pesa.
Eis-me náufrago e só! Triste, cansado,
Meditativo, absorto!
Meu coração no peito angustiado
Precisa de carinho e de conforto.
Eis-me náufrago e só! A ave que passa
Riscando o azul puríssimo do céu
E sente as asas súbito quebradas
Pela bala certeira da desgraça
Talvez não sinta tanto como eu!
Eis-me náufrago e só! Oh! minha irmã,
Meu derradeiro altar imaculado!
Choro por ti à luz desta manhã;
E o pranto quente, doloroso, brando,
É o amor que da alma me rebenta, quando
O coração estorce-se magoado!
Oh! minha Mãe! que sofrimento infindo,
Quanta angústia cruel, pesar e dó,
Sinto ao saber que tu me esperas rindo,
Sem pressentir que estive sucumbindo!...
...................................Eis-me náufrago e só!
* * *
NO CAMPO
I
Cai o vento da tarde.
As folhas secas no espaço remoinhando
Lembram bandos de pombas levantando
O vôo, de assustadas...
Passam rindo e cantando
Comboieiros além pelas estradas.
Na calma do sol poente
Vem sobre os campos uma paz austera.
Balam saudosamente
Os rebanhos que descem dos oiteiros;
Correm, saltando, os trêfegos cordeiros
Ao curral que os espera.
Dois pombos num telhado,
Alvinhos como a pluma de algodão,
Num idílio sagrado
Noivam sob as cortinas da amplidão.
É quase noite. O poente
Inda apresenta um luzimento de oiro...
Urra furiosamente
No fim da várzea um corpulento toiro,
Moitas torcendo e levantando poeira...
No alpendre onde me acho
Passa um morcego e agita, voando baixo,
As duas asas moles como cera...
II
Doiram-se ao longe os cimos dos oiteiros
Aos moribundos raios do sol-poente;
Recolhe o gado ao canto dos vaqueiros,
E os bezerrinhos berram longamente.
A noite desce religiosamente,
Recebem-na as boninas nos canteiros.
E as corujas nas cercas, nos aceiros,
Soltam seus pios, lúgubres, plangentes.
Nos brejos, nos açudes, nas vazantes
Cantam sapos; e, trêmulos, errantes,
Os pirilampos surgem nas encostas...
E entre listrões de púrpura, vermelhos,
A serra é como um homem de joelhos
Tendo um globo de fogo – a lua, às costas.
* * *
NO MAR
No abismo do Ocidente o sol se despenhava.
Chorava o mar embaixo e o céu no alto chorava.
Frio, o vento gemia entre as cordagens; fria
A noite entre o oceano, entre trevas, descia.
Retalhando os cachões de espuma salitrosa
A proa morde a vaga escura e pavorosa.
Pouco a pouco no céu as pálidas estrelas
Vão destilando a luz mais pálida do que elas.
Recosto-me à amurada e escuto o choro amargo,
Profundo, misterioso e triste do mar largo.
Sinto abrir-se-me n'alma a flor do sentimento
À tristonha surdina histérica do vento.
E cismo sob o céu, sobre o mar embalado,
Folheando o poema augusto do passado.
Vaga saudade vem, melancolia vaga
Que me afaga o sonhar e que minh'alma afaga,
Entornando em meu peito a luminosidade
Crepuscular, suave e branda da saudade.
E enquanto o mar entoa a longa litania
Repassada de dor e de melancolia,
Enquanto geme a onda e se desfaz a espuma
Na proa do navio, eu vou, uma por uma,
As folhas percorrendo, alvas como visões,
Do poema do amor e das recordações.
NOITE AFORA
Há pouco na matriz deram dez horas.
Calma aparente fora; aqui, soturna,
Triste vigília; a pavidez noturna
Das longas noites lentas, sonhadoras.
Só no meu quarto, a luz da lamparina
Trêmula doira a minha solidão.
Silêncio triste. As dores em surdina
Vão dar meia-noite no meu coração.
Ventos da noite frios, ventos frios
Passam bulhando fora aos assobios,
Zunindo pelas frinchas da parede...
Dormem sorrindo as brancas inocências,
E anda o remorso pelas consciências
Como um lobo perdido, que tem sede.
* * *
NOTURNO1
Nos altos céus a lua corre douda,
Quase morta, de susto estarrecida,
Com uns ares de loba perseguida.
A treva espreita. Uiva a tristeza em roda.
Conspira o vento pelos arvoredos
Passando a senha aos tristes conjurados.
Rosna a traição. É a noite dos segredos...
Cochicham para a lua os namorados.
Pia ao longe a coruja: é a sentinela,
Alerta! Pronto! (Como a noite é bela!)
Morre, vil! Por Jesus! Perdão, perdão!
Vibram ainda os merencórios ecos...
Sobre um leito de sonhos secos, secos,
Geme alguém no meu peito: – é o coração.
* * *
NOTURNO2
Por estas horas da noite,
Lentas e misteriosas,
Quando dos ventos o açoite
Arranca um frêmito às rosas,
E pensativas, as almas
Se elevam, calmas, piedosas,
Ao sonho, piedosas, calmas,
Do crisol das fantasias
Sobem átomos risonhos:
As pombas das utopias,
As andorinhas dos sonhos.
Amor! amor! Se despertas
Doiram-se os cimos medonhos
Das penedias desertas.
Velhos amores murmuram
Dentro do meu coração;
São almas presas, procuram
Ao luar a redenção.
E vão (constância que admiro!)
Do sonho à recordação
E da saudade ao suspiro.
Deus a suprema coragem
Uniu à suprema dor:
Dá-me heroísmo a sua imagem:
Mas, mata-me o seu amor.
E a alma de luta em luta
Morre de horror em horror
E de cicuta em cicuta.
Velhos amores! Estrela
Das brumas do meu passado!
Brilha na sombra o olhar dela
Tão nobre... mas tão magoado!
Cobrem nuvens a amplidão,
Chora o mar desesperado...
Silêncio, meu coração!
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