<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4078143963300151569</id><updated>2011-07-08T03:54:10.223-03:00</updated><title type='text'>BLOG DO LÍVIO BARRETO</title><subtitle type='html'>O maior poeta do Simbolismo no Ceará</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Pedro Magalhães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07006829704200621386</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_DbQXEgQpD3s/SXz-0dQJo1I/AAAAAAAAAFY/v4YJyPKhH0o/S220/Fotos+28-06-08+(1)_carv%C3%A3o.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>5</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4078143963300151569.post-1368825281849835131</id><published>2009-08-30T10:42:00.003-03:00</published><updated>2009-09-02T20:22:42.118-03:00</updated><title type='text'>RETRATO DE LÍVIO BARRETO</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#ffffcc;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_DbQXEgQpD3s/Sp79ZBehe0I/AAAAAAAAAJ8/jK50HEBmsr4/s1600-h/livio-barreto-1870-1895.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5377013611461966658" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 285px; CURSOR: hand; HEIGHT: 432px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_DbQXEgQpD3s/Sp79ZBehe0I/AAAAAAAAAJ8/jK50HEBmsr4/s320/livio-barreto-1870-1895.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;(LÁPIS DE OTACÍLIO AZEVEDO) &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4078143963300151569-1368825281849835131?l=deliviobarreto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/feeds/1368825281849835131/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/2009/08/foto-de-livio-barreto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default/1368825281849835131'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default/1368825281849835131'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/2009/08/foto-de-livio-barreto.html' title='RETRATO DE LÍVIO BARRETO'/><author><name>Pedro Magalhães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07006829704200621386</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_DbQXEgQpD3s/SXz-0dQJo1I/AAAAAAAAAFY/v4YJyPKhH0o/S220/Fotos+28-06-08+(1)_carv%C3%A3o.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_DbQXEgQpD3s/Sp79ZBehe0I/AAAAAAAAAJ8/jK50HEBmsr4/s72-c/livio-barreto-1870-1895.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4078143963300151569.post-3345556554271928796</id><published>2009-08-29T21:34:00.001-03:00</published><updated>2009-08-31T21:13:16.150-03:00</updated><title type='text'>LÍVIO BARRETO E O SIMBOLISMO NO CEARÁ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;em&gt;“Aislar a un autor de su época es el&lt;br /&gt;método más seguro para no entenderlo.”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;MENÉNDEZ Y PELAYO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEM SIDO inúmeras vezes ressaltado o fato de as correntes literárias vigentes na Metrópole no século passado e do início deste gastarem uma ou mais décadas para se espraiar pelas províncias. Por isso não é de estranhar que fosse ainda romântica a poesia cearense por volta de 1885 (ano dos Poemas e Versos, de Cipriano de Miranda), quando no Rio de Janeiro já triunfara o chamado Parnasianismo, tendo Alberto de Oliveira publicado, no ano anterior, as Meridionais e, nesse mesmo ano de 85, os Sonetos e Poemas.&lt;br /&gt;Castro Alves morrera em 1871, e com seu desaparecimento declinara o prestígio da escola de que fora o último porta-voz nacional. E doze anos depois, ao tempo em que, na Corte, os derradeiros românticos eram furiosamente atacados pelos propagandistas da Idéia Nova, morria tuberculoso, num leito da Santa Casa de Misericórdia, em Fortaleza, o poeta Barbosa de Freitas, deixando ecoar, por largo tempo ainda, na memória do povo cearense, as notas ora tristonhas ora altissonantes de sua lira castro-alvesca. Já nem falamos de Juvenal Galeno, que este, além de vir da segunda geração romântica, é uma individualidade ímpar, com seus versos de sabor genuinamente popular.&lt;br /&gt;Antônio Sales, em seu livro de estréia, de 1890, mostra apenas momentos parnasianos; e alguns sonetos descritivos que, à primeira vista, podem parecer da corrente de Raimundo Correia, traem na verdade influência da Escola Mineira, como observou Otacílio Colares, que também lhe assinalou os toques de Gonçalves Crespo. O mesmo ocorre com o segundo livro de Sales, este de 1895.&lt;br /&gt;De forma que no Ceará, somente depois de 1903, com o soneto "A Aranha", de Álvaro Martins, tivemos a1go de herediano. Antônio de Castro publicaria, a partir de 1905, sonetos de notas parnasianas, como observa Dolor Barreira. Alf. Castro, que em 1906 lançara um livro de sabor romântico, seria, de 1907 em diante, o mais perfeito parnasiano de seu tempo, burilando o verso com a serenidade e a perícia de Francisca Júlia nos Mármores. De 1909 são talvez os mais trabalhados sonetos de Fiúza de Pontes, que nesse mesmo ano faleceria. Não devemos, pois, falar em Parnasianismo cearense no século XIX, porque essa corrente teve aqui seus impulsos dignos de nota nos primeiros anos do século que atravessamos, e seu apogeu pode ser situado, grosso modo, por volta de 1920, com os citados Antônio de Castro e Alf. Castro, Cruz Filho, Antônio Sales (já de volta do Rio), Irineu Filho, Mário Linhares, Júlio Maciel (de notas também simbolistas), Carlos Gondim, Otacílio de Azevedo. Antônio Furtado e outros.&lt;br /&gt;Com o Simbolismo, porém, não houve esse retardamento de que temos falado; é que, embora tenha esse movimento raízes no chamado Decadentismo, cujos prógonos se confundem com os precursores do próprio Parnasianismo, é tida como data oficial da fundação do Simbolismo brasileiro o ano de 1893, data da publicação dos Broquéis, de Cruze Sousa, e precisamente nesse ano surgiu o livro Phantos, do cearense Lopes Filho, unanimemente considerado como fruto do Decadismo, como também se dizia.&lt;br /&gt;Em "Nota Editorial" à obra completa de Cruz e Sousa (edição do centenário), escreveu Afrânio Coutinho: "No Brasil os ideais 'decadistas' já desde 1887 se haviam feito sentir. Mas foi em 1891, no jornal Fôlha Popular, que um grupo, constituído de B. Lopes, Oscar Rosas, Cruz e Sousa, Emiliano Perneta, lançou o primeiro manifesto renovador. Em 1892, no Ceará, uma sociedade literária, a 'Padaria Espiritual', era fundada sob a mesma inspiração, e, em 1893, Cruz e Sousa inaugurava a nova escola com os livros Missal e Broquéis."&lt;br /&gt;A Padaria Espiritual, como se sabe, foi uma das mais notáveis agremiações provincianas de que temos notícia, chegando seu nome a se espalhar por todo o País, repercutindo triunfantemente no Rio a originalidade de seu programa e o fruto de seus trabalhos. "Padeiros" denominavam-se todos os sócios, sendo "Padeiro-Mor" o Presidente, "Forneiros", os Secretários, "Gaveta", o Tesoureiro, "Guarda-Livros" (na acepção intrínseca da palavra, – diziam), o Bibliotecário; os demais eram "Amassadores". Às sessões chamavam de "fornadas", e eram realizadas no "Forno", e seu jornal intitulava-se, é claro, O Pão. No seu "Programa de Instalação", advertia-se, entre muitas outras coisas, que todos teriam um nome de guerra único. Era proibido o uso de palavras estranhas ao vernáculo, "sendo, porém, permitido o emprego dos neologismos do Dr. Castro Lopes"; também era proibido fazer qualquer referência à rosa de Malherbe, assim como "escrever nas folhas mais ou menos perfumadas dos álbuns". Igualmente era vedado aos "padeiros" o tom oratório, "sob pena de vaia", assim como, ainda a declamação ao piano. "Medonho" era a alcunha que se deveria dar a "todo sujeito que atentar publicamente contra o bom senso e o bom gosto artísticos", julgando-se indigna de publicidade "qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhas à Fauna e à Flora brasileiras, como: cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho etc. etc."&lt;br /&gt;Há muito de galhofa nessa agremiação de moços, principalmente em sua primeira fase (houve duas, sendo a segunda mais compenetrada), mas é digno de nota o espírito de originalidade que os movia; não deixa de ser admirável que alguns rapazes, em plena Província, no século passado, já houvessem aborrecido certos clichês literários, como a rosa de Malherbe, e se insurgissem, trinta anos antes da Semana de Arte Moderna, contra a presença de plantas e animais exóticos em nossa literatura!&lt;br /&gt;Admitamos que a Padaria Espiritual não tenha nascido sob a mesma inspiração do grupo a que pertencia Cruz e Sousa, como disse Afrânio Coutinho e transcrevemos linhas atrás. Na verdade, Antônio Sales foi o idealizador da sociedade, e ele próprio (embora não o fosse ainda genuinamente) se considerava parnasiano. Prefaciando o citado livro de Lopes Filho, disse-o claramente: "Eu já te disse que sou um Parnasiano, Parnasiano fanático pela música impecável do verso, pela precisão extrema da imagem, pelo amanho meticuloso da frase. Tu és, ao contrário, um insubmisso, um revolucionário, deixando que a idéia te caia da pena na sua conformação inicial, estenografando maquinalmente a linguagem de tua alma." Nas fileiras da agremiação, porém, não houve um parnasiano puro (a Padaria Espiritual viveu de 1892 a 1898), e simbolistas foram, sem dúvida, Tibúrcio de Freitas, Lopes Filho, Cabral de Alencar e Lívio Barreto, como observa Braga Montenegro, que acrescenta: "Deste último os 'padeiros' publicariam, em 1897, o livro póstumo, Dolentes, quiçá o único a merecer destaque."&lt;br /&gt;O livro de Lívio Barreto é, efetivamente, um dos mais importantes de quantos publicou a Biblioteca da Padaria Espiritual, e sem dúvida o livro máximo do Simbolismo cearense. A Toa deveria intitular-se, e assim está anunciado, entre outros, na 4ª capa dos Flocos, de Sabino Batista. O próprio autor mudou-lhe o título, que não agradara aos "padeiros", na sessão de 19 de outubro de 1894, ano aliás do livro de Sabino.&lt;br /&gt;Apesar de sua importância e mesmo do seu valor como obra literária, não vamos afirmar que se trate da obra definitiva de um autor absolutamente senhor de sua técnica, pois é, na verdade, o livro único de um jovem de grande talento e de extraordinária sensibilidade, mas livro que não deixa de pecar, até certo ponto, pela falta de unidade, encontrando-se, ao lado de produções tipicamente simbolistas (as melhores e mais importantes), outras tantas de sabor romântico e ainda outras borrifadas de notas parnasianas. Cremos ser isto, porém, irrelevante em face da grandeza de suas melhores páginas. Mais tivesse vivido o Poeta, e teria provavelmente reunido apenas os poemas onde houvesse predomínio das notas simbolistas, pois revelam estas sua feição mais característica.&lt;br /&gt;No poema "O Náufrago", de 1892, é visível a presença do Romantismo, quer nestes versos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis-me náufrago e só, na vastidão&lt;br /&gt;Da praia desolada,&lt;br /&gt;Aonde o mar – indômito leão –&lt;br /&gt;Esmaga a onda fria e angustiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer nestes outros:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis-me náufrago e só! Oh! minha irmã,&lt;br /&gt;Meu derradeiro altar imaculado!&lt;br /&gt;Choro por ti à luz desta manhã;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Romântico é também o poema "Estóico" (não obstante trazer o data de 1894), onde se encontram versos assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça, em pranto,&lt;br /&gt;Estende a boca súplice, sequiosa...&lt;br /&gt;O último beijo! E lívida de espanto&lt;br /&gt;Vê-lhe nas mãos a arma criminosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volve-lhe o moço: (a voz maviosa e doce&lt;br /&gt;Não lhe traía o imenso desespero)&lt;br /&gt;– Amei-te pura! é pura que eu te quero!&lt;br /&gt;Pura não és! Adeus!... E apunhalou-se!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o poema "No Campo" apresenta notas daquele parnasianismo descritivo que nos veio da influência de Gonçalves Crespo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doiram-se ao longe os cimos dos oiteiros&lt;br /&gt;Aos moribundos raios do sol-poente;&lt;br /&gt;Recolhe o gado ao canto dos vaqueiros,&lt;br /&gt;E os bezerrinhos berram longamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite desce religiosamente,&lt;br /&gt;Recebem-na as boninas nos canteiros.&lt;br /&gt;E as corujas nas cercas, nos aceiros,&lt;br /&gt;Soltam seus pios, lúgubres, plangentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também estes alexandrinos lembram algo da escola que ainda, não se firmara no Nordeste (note-se a epanalepse no 1º verso):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorava o mar embaixo e o céu no alto chorava.&lt;br /&gt;Frio, o vento gemia entre as cordagens; fria&lt;br /&gt;A noite sobre o oceano, entre trevas, descia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;("No Mar")&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do Romantismo herdara o Poeta algumas características formais: a colocação do clítico (que valha-me); a síncope, assinalada (esp'rança), ou não, como nos casos em que: se deve ler vertij'nosa, duv'da, etc., embora esteja grafado vertiginosa, dúvida, etc.; o suarabácti ou anaptixe, constante em sua poesia, e que faz com que imaginemos uma vogal de apoio na contagem métrica (insubimissa, subiterrâneo, etc); as rimas toantes em poemas de rimas consoantes (virgem/vertigem, bravas/ palavras), e ainda umas tantas irregularidades, que não chegavam a ser irregularidades nas mãos dos românticos.&lt;br /&gt;Quanto à colocação do pronome átono, são incontáveis os versos de grandes poetas daquela corrente em que se encontra a ênclise posteriormente condenada, como naquele de Castro Alves em "Horas de Saudade": Que levaste-me a vida entrelaçada.&lt;br /&gt;Não esqueçamos, porém, que Cruz e Sousa, precisamente no livro em que inaugurou a poesia simbolista no Brasil, tem versos como este, do soneto "Incensos": Que elevam-se aos espaços, ondulantes; ou ainda este, de "Lubricidade": Que dá-te medo e dá-te pesadelos.&lt;br /&gt;Por sua vez, a síncope, presente em todos os nossos românticos, seja expressa, como em Gonçalves Dias, em "Tabira" (Raso outeiro ali perto se of'rece), seja não expressa, como em Álvares de Azevedo, em "O Conde Lopo" (O perfume das trovas vertiginava), não foi usada somente pelos românticos. Embora condenada pelos tratadistas do Parnasianismo, vamos encontrá-la em Raimundo Correia (Ora, túrgido, a c'roa vitoriosa) e Alberto de Oliveira, que usou também outros tipos de metaplasmo.&lt;br /&gt;Mas voltemos aos Broquéis, e transcrevamos este verso de "Satã": Vai c'roado de pâmpanos venustos. Aí está a síncope, no maior de nossos simbolistas.&lt;br /&gt;Quanto à vogal de apoio, a que aludimos, e que aparece com tanta insistência na poesia de Lívio Barreto, figurou tantas vezes em versos de Gonçalves Dias que Manuel Bandeira chegou a afirmar: "o brasileiro de fala mole se está traindo a cada passo no suarabácti", pois o poeta maranhense escreveu de modo que se pronunciasse, "brasileirissimamente", como ainda observa Bandeira, subimarinha ("Os Suspiros"), obijeto ("Solidão"), crípita ("A Morte é Vária"), iguinóbil ("I-Juca-Pirama"), etc.&lt;br /&gt;De Fagundes Varela muitos exemplos poderíamos citar; baste-nos, porém, este, de "Eu Amo a Noite"; As águas torvas de ignotos rios. De Castro Alves, temos no citado poema "Horas de Saudade" este: Há ritmo e cadência no teu passo!&lt;br /&gt;E justamente essa palavra ritmo, também com suarabácti (rí-ti-mo), é que vamos encontrar no soneto "Pomo do Mal", de um decadentista, Fontoura Xavier: Como um canto de morte ao ritmo dum sonho. Acrescente-se ainda que o simbolista Maranhão Sobrinho, que publicaria seu primeiro livro em 1908, escreveu este alexandrino no soneto "Interlunar": Tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio, em que temos de ler o-quis-si-gê-nio.&lt;br /&gt;Assinale-se, de passagem, que os poetas modernos têm recorrido ao suarabácti, em poemas de metro regular; é que aspiram à brasilidade máxima, e nosso povo comumente apela para a vogal de apoio, ao pronunciar palavras como subimarino, abissoluto, peneu, adevogado, etc.&lt;br /&gt;Não foram poucas as rimas toantes de que se valeu o poeta granjense ao longo de seu livro: paragens/margens, tempos/templos, leite/corpete, virgem/vertigem, etc. Nem será necessária a transcrição de versos assinados por Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Machado de Assis e outros para demonstrar que rimas desse tipo faziam parte do arsenal romântico, sendo mesmo indefectíveis os duetos virgem/vertigem e festa/orquestra.&lt;br /&gt;É perfeitamente natural, portanto, que um jovem poeta, embora tentando a originalidade através de novas formas, ainda recebesse influência dos antigos mestres, o que aliás ocorreu com todos os escritores de sua época: Antônio Sales, em seu segundo livro, publicado no ano da morte de Lívio, usou, num poema de rimas consoantes, "Lendo Versos Escritos Outrora", a rima mármore/ árvore.&lt;br /&gt;Os mais apegados aos cânones rígidos da versificação parnasiana devem ter estranhado que Lívio Barreto usasse rimas como vácuos/fracos, lousas/rosas, suspirava/cara ou de singular com plural, como religiosamente/plangentes, embora lhes agradassem as rimas compostas como pântanos/canta-nos, tão do agrado de Emílio de Meneses...&lt;br /&gt;Com relação às primeiras, além de Lívio ser um tanto rebelde às regras dos tratados (como seu companheiro Lopes Filho), podemos lembrar que um poeta da estatura de Luís Delfino se deu o luxo de rimar celeuma/emblema, Danaide/divindade, auréola/pérola, etc., tudo isso em Algas e Musgos, o mais parnasiano de seus livros.&lt;br /&gt;Com respeito às segundas, há precedentes ilustres, pois o Poeta máximo de nossa língua escrevera:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No seu regaço os cantos que banhados&lt;br /&gt;Vêm do naufrágio triste e miserando,&lt;br /&gt;Dos procelosos baixos escapados,&lt;br /&gt;Das fomes, dos perigos grandes, quando&lt;br /&gt;Será o injusto mando executado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Castro Alves é famosa a estrofe final de "O Navio Negreiro", onde esmaga e plaga vão rimar&lt;br /&gt;com vagas.&lt;br /&gt;Diversas vezes escreveu Lívio Barreto fráguas (fornalha ou, em sentido figurado, amarguras), quando deveria ter escrito fraga (rochedo, escolho), como neste passo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também, mergulhador, desci ousado,&lt;br /&gt;Rasgando as ondas, contornando as fráguas&lt;br /&gt;Da vida, mar indômito, assanhado,&lt;br /&gt;Com o peito cheio de canções e mágoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Errou o Poeta, seduzido pela rima. Ocorre, entretanto que, como ele, figuras de prestígio nacional fizeram o mesmo. Olavo Bilac, em "O Caçador de Esmeraldas", depois de falar nas águas das lagoas, referiu-se aos rios, que iam, "em quedas e bramidos", mordendo os alcantis, roncando pelas fráguas. O mesmo fizeram Alberto de Oliveira ("A Torrente"), Francisca Júlia ("A Um Poeta"), Fontoura Xavier ("Um Prólogo"), e vários, vários outros.&lt;br /&gt;São horas de advertir que, atrás de todo esse arrazoado, não nos move, de maneira alguma, a intenção de pretender provar que o poeta cearense era perfeito, e que todas as suas irregularidades formais foram absolutamente conscientes. Lívio Barreto morreu muito jovem para que se diga que sua obra estava já cristalizada em sua feição definitiva. Já lhe notamos certa falta de unidade no livro. Apenas queremos deixar claro que a grande maioria de suas excentricidades artesanais se encontra, embora menos ostensivamente, em grandes vultos de nossa literatura poética. Por outro lado, não se deve esquecer que o Simbolismo rompeu com uma série de imposições da versificação castilhiana, e o poeta cearense, bem antes de Emiliano Perneta, já desarticulava o ritmo de seus versos penumbristas. O que parece fora de dúvida é que o Simbolismo de Lívio Barreto não foi bebido em Cruz e Sousa, como o de muitos epígonos, mas em versos dalém-mar; dir-se-ia que mesmo sem o famoso grupo da Folha Popular, do Rio de Janeiro, ele seria simbolista, e por isso disse Mário Linhares que "ele teve a intuição do Simbolismo, antes mesmo de conhecer coisa alguma dessa escola". Após lembrar que a característica essencial dos decadentistas é a obscuridade, afirma ainda o poeta e ensaísta que "os versos de Lívio Barreto não chegaram, pois, a sofrer influência da escola de que foi Cruz e Sousa o nosso gonfaloneiro glorioso". Não chegou a receber influência da escola brasileira, esclareçamos para evitar quaisquer dúvidas, mas impregnou-se da roxa melancolia de Anto. Em suas Cartas Literárias relembrando os tempos da "Padaria", Adolfo Caminha escreveu: "O único volume do Só, que aparecera misteriosamente na Província, andava de mão em mão, era lido e relido, e entrava-nos pela alma como um jorro de luz setentrional, como uma onda quente de vida nova. O Só era a nossa bíblia, o nosso encanto, o nosso livro amado." Artur Teófilo conta, no artigo em que traça o perfil biográfico do Poeta, que recebera de Lívio, após uma noite em que os dois estiveram relendo o livro de Antônio Nobre, um soneto de concepção estranha – segundo diz –, parecidíssimo com os do poeta português, tal era sua capacidade de assimilação. Poemas assim, porém, ele os fazia por brincadeira, visto não querer escravizar-se a nenhum modelo. Realmente, uma coisa é imitar e outra, bem diversa, receber influência, coisa de que nem os mais velhos se livram muitas vezes.&lt;br /&gt;Pelo menos quanto à versificação Lívio Barreto parece haver seguido bem de perto, em algumas irregularidades, o grande simbolista luso. Na 2ª estrofe de "Ao Canto do Lume", do Só, datado de 1891, temos, além da musicalidade do trímetro, de que tiraria notável efeito o poeta cearense, em "Os Cravos Brancos", o suarabácti no 2º verso (Josephe) e ainda o hiato no verso 3º (na/áurea):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz tanto frio. (Só de a ver, me gela, a cama...)&lt;br /&gt;Que frio! Olá, Joseph! Deita mais carvão!&lt;br /&gt;E quando todo se extinguir na áurea chama,&lt;br /&gt;Eu deitarei (para que serve? já não ama)&lt;br /&gt;Às cinzas brancas, o meu pobre coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liberato Nogueira, em artigo publicado em 1909, afirmava: "Se por vezes [Lívio] chegava ao delírio num áspero movimento de tresloucado, outras dedilha monodias ao sabor das trovas singelas. Ressaltam pelos seus descuidos alguns defeitos de metrificação, irregularidade da cesura e deslocação do hemistíquio." É que Liberato Nogueira estava apegado às regras do tratado de Castilho, seguido por Bilac e Guimarães Passos, e desconhecia talvez que Antônio Nobre, cujo livro surgiu em 1892, trazia inúmeros versos irregularíssimos, trímetros e alexandrinos sem cesura. Nele certamente encontrou justificativa o jovem cearense, para tornar-se um dos precursores da. desarticulação rítmica no Brasil. Sim, porque as irregularidades métricas existentes em vários de seus versos, como nos de "Os Cravos Brancos", por exemplo, não são, de maneira alguma, fruto do desconhecimento das técnicas versificatórias; como dissemos, talvez ele se libertasse mais tarde de alguns tiques românticos, mas essa variação de ritmos o acompanharia certamente, pois a elas o autorizavam as excentricidades do livro amado dos padeiros", e com elas sintonizava perfeitamente a sua vocação de rebelado. Se assim não fosse, teria o Poeta modificado os versos do citado poema, composto em 1893. Desse mesmo ano é por sinal o soneto "Lágrimas" e quem poderá dizer que o autor de tão bela produção desconhecia as leis do verso?&lt;br /&gt;Como em Antônio Nobre, a Lua exercia extraordinário fascínio sobre Lívio Barreto e assim é que a "monja da noite" aparece, ungida dum halo místico, em vários de seus poemas, como "Dolentes", "Sombra e Luar", "Pelo País do Sonho", "Lágrimas", "Poemas Noturnos", "Ao Luar" e outros mais, inclusive "O Sono do Coração", que inexplicàvelmente não foi incluído no seu livro, mas que fomos encontrar em O Pão nº 30, de 15-12-1895. É datado de 1893, sendo de junho ou julho, uma vez que no jornal está grafado Juho, faltando exatamente a letra que distingue a grafia entre os dois meses. Ei-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio na rua. Que longa tristeza&lt;br /&gt;Paira no ar frio e pesado:&lt;br /&gt;Oh, lua de Junho, que incutes tristeza&lt;br /&gt;Como um castelo abandonado;&lt;br /&gt;Como a visão de um mau passado,&lt;br /&gt;Como uma vela ao dia acesa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas telhas das casas distantes, cintilas&lt;br /&gt;Pólen de prata do infinito!&lt;br /&gt;Oh, lua de Junho, das tuas pupilas,&lt;br /&gt;Silenciosa, sem um grito&lt;br /&gt;Deixas rolar o pranto aflito&lt;br /&gt;Em ondas claras e tranqüilas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento tardio da noite murmura&lt;br /&gt;No campanário abandonado.&lt;br /&gt;Oh, lua de Junho, tão triste, tão pura&lt;br /&gt;No teu roupão aurilavrado,&lt;br /&gt;És como um cravo desbrochado&lt;br /&gt;No azul monótono da altura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As aves noturnas, piando, na Igreja&lt;br /&gt;Roçam co'as asas nos altares.&lt;br /&gt;Oh, lua de Junho, no alto sobeja&lt;br /&gt;A luz que deixas, pelos ares,&lt;br /&gt;Em flocos, ir cair nos mares&lt;br /&gt;Onde as espumas têm inveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela janela sonhando ao relento&lt;br /&gt;Deixei ficar meu coração,&lt;br /&gt;Oh, lua de Junho, zombando do vento&lt;br /&gt;Cantando a mística canção&lt;br /&gt;Do seu amor, cheia de unção&lt;br /&gt;E de pesar, como um lamento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tarde, que ainda não era o sol posto,&lt;br /&gt;O fui deixar n'essa janela;&lt;br /&gt;Oh, lua de junho, vieste, e no posto&lt;br /&gt;Como uma boa sentinela&lt;br /&gt;Achaste-o ainda, que hora aquela!&lt;br /&gt;Inda a velar ao frio exposto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz frio. Que importa que gele a neblina&lt;br /&gt;Quando se dorme e sonha e esquece?&lt;br /&gt;Oh, lua de Junho, se a morte fulmina,&lt;br /&gt;O sono as dores adormece!&lt;br /&gt;Oh, coração, dorme...&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffcc;"&gt;............................................&lt;/span&gt;Parece&lt;br /&gt;Que uma mulher o afaga e nina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este poema desconhecido, com sua atmosfera mística, sua impressionante musicalidade, em que se associam versos hendecassílabos iâmbico-anapésticos e octossílabos, poderia figurar em qualquer antologia do Simbolismo brasileiro; e não só de seu ritmo, como também da repetição do início do 3º verso, em que surge o fascínio da Lua, provém grande parte de sua magia encantatória.&lt;br /&gt;Lívio Barreto nasceu na fazenda dos Angicos, distrito de Iboaçu, comarca de Granja, no dia 18 de fevereiro de 1870, há cem anos, portanto, e faleceu, vítima de congestão cerebral, em Camucim, no dia 29 de setembro de 1895, não com 24 anos de idade, como registram Waldemiro Cavalcânti, no prefácio do livro póstumo, Antônio Sales, na "História da Literatura Cearense", Mário Linhares, em Poetas Esquecidos e na História Literária do Ceará e Dolor Barreira, na História da Literatura Cearense, nem ainda, com 26, como escreveu Rodrigues de Carvalho, em conhecido trabalho sobre as letras do Ceará, mas com 25 anos, 7 meses e 11 dias.&lt;br /&gt;Editando-lhe piedosamente o livro de poemas, a Padaria Espiritual fez justiça à memória do notável e desventurado Poeta, e salvou do esquecimento o mais robusto e genuíno fruto do Simbolismo em nosso Estado.&lt;br /&gt;E de tal modo avultou, no cenário de sua época, a poesia dos Dolentes, que Rodrigues de Carvalho, pertencente ao Centro Literário, rival da Padaria Espiritual (e que por isso não via com bons olhos os rapazes do "forno"), não conteve esta expressão magnificante, ao falar de Lívio Barreto, quatro anos depois de sua morte: "Foi um gênio como poeta!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÂNZIO DE AZEVEDO&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4078143963300151569-3345556554271928796?l=deliviobarreto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/feeds/3345556554271928796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/2009/08/livio-barreto-e-o-simbolismo-no-ceara.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default/3345556554271928796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default/3345556554271928796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/2009/08/livio-barreto-e-o-simbolismo-no-ceara.html' title='LÍVIO BARRETO E O SIMBOLISMO NO CEARÁ'/><author><name>Pedro Magalhães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07006829704200621386</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_DbQXEgQpD3s/SXz-0dQJo1I/AAAAAAAAAFY/v4YJyPKhH0o/S220/Fotos+28-06-08+(1)_carv%C3%A3o.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4078143963300151569.post-8015362780483689600</id><published>2009-08-29T16:13:00.004-03:00</published><updated>2009-09-04T19:46:01.744-03:00</updated><title type='text'>DOLENTES (POEMAS)</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffcc;"&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;CREDENCIAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arte! suprema, incomparável Arte!&lt;br /&gt;Tu, Cornélia, que os filhos avigoras&lt;br /&gt;Pra desfraldar às noites e às auroras&lt;br /&gt;Teu glorioso, harmônico estandarte;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arte do Verso, prenhe de luares,&lt;br /&gt;De sóis fecundos, de pujantes messes,&lt;br /&gt;Amplo seio de prantos e de preces,&lt;br /&gt;De amarguras, de risos, de pesares;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arte do Verso, Arte das harmonias&lt;br /&gt;Vibrantes, doudas cálidas, inquietas;&lt;br /&gt;Elétrica centelha dos Poetas,&lt;br /&gt;Que esfolhas rosas sobre as agonias;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arte nevada de dolências meigas,&lt;br /&gt;Pulcra santa de beijos dolorosos,&lt;br /&gt;Que tens os seios de rosais cheirosos&lt;br /&gt;E a virgindade de cheirosas veigas;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arte, monja de idílica piedade,&lt;br /&gt;Que tens, eterna, angélica visão,&lt;br /&gt;No olhar o Angelus nobre do Perdão&lt;br /&gt;E a paz augusta da maternidade;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arte! ideal, oh sacrossanto viático!&lt;br /&gt;Ó Arte – Mater de consolações!&lt;br /&gt;Com os meus sonhos e amores e ilusões&lt;br /&gt;Fiz-te um missal de Dor! – sou teu fanático!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * *&lt;br /&gt;DOLENTES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No azul puríssimo, arqueado&lt;br /&gt;Do céu longínquo, a lua vai,&lt;br /&gt;– Bloco de mármore atirado –&lt;br /&gt;No azul declívio... e rola e cai&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por sobre a treva opaca e muda,&lt;br /&gt;Bem como um líquido tesoiro,&lt;br /&gt;Já transformado em chuva de oiro&lt;br /&gt;Que em luz, caindo, se transmuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assiste inerte e penetrada&lt;br /&gt;De um misticismo religioso,&lt;br /&gt;Essa ampla queda, áurea e sagrada&lt;br /&gt;Da luz, minh'alma erma de gozo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque de há muito retraída&lt;br /&gt;Num tédio espesso, aterrador,&lt;br /&gt;Sente-se fraca para a vida,&lt;br /&gt;E duvidosa para o amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alma das coisas insensíveis&lt;br /&gt;Talvez que tenha nestas lutas&lt;br /&gt;Fibras mais fortes e inflexíveis,&lt;br /&gt;Mais virginais, mais impolutas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus ideais, meus sonhos, meus&lt;br /&gt;Castelos alvos, de escumilha,&lt;br /&gt;Caíram todos... e onde Deus&lt;br /&gt;Um mundo pôs, acho uma ilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na atra e pérfida agonia&lt;br /&gt;Que os nervos todos me constringe,&lt;br /&gt;Como uma vela, a fantasia&lt;br /&gt;Foge num mar que a luz não tinge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes flácidos, batidos&lt;br /&gt;Da luta, o corpo e a alma repousam,&lt;br /&gt;Mas no meu crânio comburido&lt;br /&gt;Nem mesmo os sonhos alvos pousam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente como o choro vago&lt;br /&gt;Remoto e triste do alto mar,&lt;br /&gt;Como a candura de um afago,&lt;br /&gt;Quase a sorrir, quase a chorar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como uma queixa misteriosa&lt;br /&gt;Dita num som casto e magoado,&lt;br /&gt;De flor ou ave, inseto ou rosa,&lt;br /&gt;Ao som, ao vento, ao sol doirado;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega-me branda e triste a voz&lt;br /&gt;Longínqua e triste da Poesia,&lt;br /&gt;Como uma pomba, à noite, a sós,&lt;br /&gt;Cortando a treva erma e sombria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, mais que essa dolorosa&lt;br /&gt;Insubmissa voz santíssima,&lt;br /&gt;Em minha noite angustiosa&lt;br /&gt;Outra eu quisera ouvir puríssima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era essa voz pura e sonante,&lt;br /&gt;E melancólica e serena,&lt;br /&gt;Que me faz d'alma um diamante,&lt;br /&gt;Do coração uma açucena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas dessa voz o som magoado,&lt;br /&gt;Minha alegria e meu tormento,&lt;br /&gt;Ouço-o gemer neste momento&lt;br /&gt;Sob as ruínas do passado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde eu lançando o olhar paciente,&lt;br /&gt;Sem comoções, sem ansiedade,&lt;br /&gt;Só vejo a flor roxa e tremente,&lt;br /&gt;Tranqüila e fria da saudade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROMARIA DOS SONHOS&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Romaria dos sonhos, onde vais&lt;br /&gt;Por estas noites calmas e piedosas?&lt;br /&gt;De quem houveste as asas virginais&lt;br /&gt;Que te elevam às coisas luminosas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Debalde a Dor reclama-te, não cais!&lt;br /&gt;E vais subindo às plagas gloriosas,&lt;br /&gt;Te vestindo de coisas ideais:&lt;br /&gt;Lírios, jasmins, angélicas e rosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Romaria dos sonhos do passado&lt;br /&gt;Por que buscas as névoas do presente?&lt;br /&gt;Por que deixaste o tálamo sagrado&lt;br /&gt;Onde dormias pálida e doente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta ao teu leito, doida impenitente,&lt;br /&gt;De saudade e tristeza perfumado.&lt;br /&gt;Deixa a luz do luar brando e clemente&lt;br /&gt;Mais branco que uma alcova de noivado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;Bates as asas trêmulas, inquietas,&lt;br /&gt;Doce inocente, doce peregrina,&lt;br /&gt;Como brancas e leves borboletas&lt;br /&gt;Em derredor de um cálix que se inclina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segues na correnteza cristalina&lt;br /&gt;Das tuas vãs aspirações secretas,&lt;br /&gt;E a luz que te incendeia a azul retina&lt;br /&gt;É a que incendeia o cérebro dos Poetas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;Por que sobes vaidosa e confiada&lt;br /&gt;Pra onde não há pouso e lenitivo,&lt;br /&gt;Se tens de regressar dessa jornada&lt;br /&gt;Cheia de tédio ao leito primitivo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes repouses pálida e cansada&lt;br /&gt;Buscando no passado um paliativo...&lt;br /&gt;Romaria dos sonhos, malfadada,&lt;br /&gt;O teu destino é o de um balão cativo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A VOLTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltaste! Olha-me terna e longamente!...&lt;br /&gt;Da derradeira lágrima chorada&lt;br /&gt;Em minha face pálida e sulcada&lt;br /&gt;Inda o sinal verás fundo e eloqüente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À mágoa entregue de te ter ausente,&lt;br /&gt;Minh’alma, há tanto tempo separada&lt;br /&gt;Da tua, foi-se enferma e contristada&lt;br /&gt;Se contraindo dolorosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, tu voltaste, ó pálida senhora,&lt;br /&gt;E eu vi, levada na asa da alegria,&lt;br /&gt;Minha tristeza funda e aterradora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há dia que valha-me este dia,&lt;br /&gt;Todo cheio das pompas e da aurora&lt;br /&gt;Que o teu olhar angélico irradia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A GARÇA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garça triste, garça branca,&lt;br /&gt;Solitária e desolada&lt;br /&gt;Sobre a praia, olha a nortada&lt;br /&gt;Que as tuas penas arranca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longe, no cocuruto&lt;br /&gt;Do morro, a neblina cai,&lt;br /&gt;Depois sobe e no ar se esvai&lt;br /&gt;Como o fumo de um charuto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao vento que ondeia os juncos,&lt;br /&gt;Vens de remotas paragens,&lt;br /&gt;Garça, e com os dedos aduncos&lt;br /&gt;Bordas a lama das margens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garça triste, garça errante&lt;br /&gt;Vagando à beira dos pântanos,&lt;br /&gt;Dize tua história – viajante,&lt;br /&gt;As tuas saudades conta-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em bandos tuas irmãs&lt;br /&gt;Buscam à tarde o poente,&lt;br /&gt;E tu, solitariamente&lt;br /&gt;Sob o frio das manhãs,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelas noites de invernia&lt;br /&gt;Quando os céus despejam água,&lt;br /&gt;Passas calada e sombria&lt;br /&gt;No côncavo de uma frágua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garça triste, garça branca,&lt;br /&gt;Solitária e desolada!&lt;br /&gt;Garça triste, olha a nortada&lt;br /&gt;Que as tuas penas arranca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESTER&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela janela aberta a aragem fria&lt;br /&gt;Entra trazendo o aroma dos rosais,&lt;br /&gt;E o Sol, abrindo as pálpebras reais,&lt;br /&gt;Setas e setas de oiro fosco envia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormindo, Ester, a pálida judia,&lt;br /&gt;Sob as brancas cortinas virginais,&lt;br /&gt;Sonha com as puras noites orientais&lt;br /&gt;Cheias de luz e de melancolia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Úmido o lábio trêmulo, rosado,&lt;br /&gt;Suplica um beijo; o seio delicado&lt;br /&gt;Arfa de leve entre os albentes folhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonha e sorri os olhos apertando&lt;br /&gt;– Negras franjas de seda resguardando&lt;br /&gt;As duas negras pérolas dos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Não te apavores tu, não te atormentes,&lt;br /&gt;Ó minha doce e virginal senhora,&lt;br /&gt;Às rajadas coléricas, frementes,&lt;br /&gt;Que me envolvem de dia e de hora em hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o mergulhador que sobe à tona&lt;br /&gt;Sacudindo a ensopada cabeleira&lt;br /&gt;E as vagas corta procurando a beira,&lt;br /&gt;E calmo, sobre as águas se abandona:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu vou sereno contemplando o vulto&lt;br /&gt;De um ideal que me sorri na mente...&lt;br /&gt;Ódios? Não vejo, e rio-me do insulto,&lt;br /&gt;Rio de todos, e amo a ti somente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que separa o vírus da calunia&lt;br /&gt;Muitas almas e muitos corações,&lt;br /&gt;Mas a inveja banal desses vilões&lt;br /&gt;O meu desprezo simplesmente pune-a.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Longe, no vasto mar, ermo, infinito,&lt;br /&gt;A vela rasga-se ao bater do vento,&lt;br /&gt;E o marinheiro audaz não solta um grito&lt;br /&gt;Sobre as ondas do líquido elemento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se o navio vaga e não deriva&lt;br /&gt;Do rumo, e aproa aonde há de chegar&lt;br /&gt;Não teme o mar, e aos ventos não se esquiva:&lt;br /&gt;Que importa os ventos e que importa o mar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem como o marinheiro, eu não descoro&lt;br /&gt;Ao rugir da calúnia, bronco e fundo:&lt;br /&gt;Que me importa esta gente, se eu te adoro?&lt;br /&gt;Se tu me amas, que me importa o mundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LUTAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto-me triste e fatigado. Ainda&lt;br /&gt;Vibra-me n'alma o seu olhar severo,&lt;br /&gt;Inflexível, frio, calmo e austero,&lt;br /&gt;Cheio das fezes de uma dor infinda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dúbia luz da lamparina treme,&lt;br /&gt;Vacila como eu, como eu descora,&lt;br /&gt;No entanto, aos poucos no Oriente a aurora&lt;br /&gt;Sacode a cabeleira de oiro e creme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O crótalo do ciúme o dente crava&lt;br /&gt;Em meu amor; e eu sinto-me covarde&lt;br /&gt;Nesta luta cruel, tenaz e brava&lt;br /&gt;Onde minh'alma se estorcendo arde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus do vencido, ó sono! me acalenta&lt;br /&gt;Esta agonia atroz que me esfacela!&lt;br /&gt;Mas não, ó Dor! o sono me afugenta&lt;br /&gt;Pois eu posso talvez sonhar com Ela...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DE VIAGEM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há pouco findou-se o dia;&lt;br /&gt;Desce a noite e se apresenta&lt;br /&gt;Calma, pesada e sombria,&lt;br /&gt;Hirta, brutal, macilenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um manto de sombras densas,&lt;br /&gt;– Frio capuz de tristeza,&lt;br /&gt;Cobre toda a Natureza&lt;br /&gt;Com suas dobras imensas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos ermos mansos, tristonhos,&lt;br /&gt;Nas amplas várzeas desertas,&lt;br /&gt;Como fantasmas de sonhos,&lt;br /&gt;Vagueiam Sombras incertas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tênues, ignotos aromas&lt;br /&gt;Vêm das florestas dormentes,&lt;br /&gt;E os arvoredos gementes&lt;br /&gt;Agitam de leve as comas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lua, alva flor de prata,&lt;br /&gt;Fria camélia ao relento&lt;br /&gt;Deixa cair em cascata&lt;br /&gt;Seus raios do firmamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fria, trêmula aragem&lt;br /&gt;Vai deitando em rodopio&lt;br /&gt;As folhas secas da margem&lt;br /&gt;Sobre a corrente do rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a estrada, a caracolar,&lt;br /&gt;Se mostra, e desaparece,&lt;br /&gt;E ao caminheiro parece&lt;br /&gt;Branca serpente ao luar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gritos e pios das aves&lt;br /&gt;Noturnas juntar-se vêm&lt;br /&gt;Às notas sentidas, graves,&lt;br /&gt;Que o seio da noite tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tristíssima cruz&lt;br /&gt;Ereta ao lado da estrada,&lt;br /&gt;Modesto emblema, traduz&lt;br /&gt;Uma desgraça ignorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E um mocho naquele emblema,&lt;br /&gt;– Oliveira daquele horto, –&lt;br /&gt;Nobre piedade suprema!&lt;br /&gt;Vela sobre o infeliz morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a noite vai passando,&lt;br /&gt;Não tarda que cante o galo...&lt;br /&gt;No entanto sobre o cavalo&lt;br /&gt;Eu vou cismando, cismando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cismando em eras passadas,&lt;br /&gt;Arrojando a fantasia,&lt;br /&gt;Louca, furiosa, erradia,&lt;br /&gt;Através destas estradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meus revoltos cabelos&lt;br /&gt;O frio sopro do vento&lt;br /&gt;Deixa a umidez do relento&lt;br /&gt;E leva-me os pesadelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A longos haustos sensuais,&lt;br /&gt;Cheio de um íntimo gozo,&lt;br /&gt;Sorvo este ar generoso&lt;br /&gt;Que a madrugada me traz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esta frescura amaviosa&lt;br /&gt;Que o peito em brasa me invade,&lt;br /&gt;Leva-me e a dor tenebrosa&lt;br /&gt;Toda diluída em saudade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouve-se o canto do galo&lt;br /&gt;E a aurora vem despontando...&lt;br /&gt;E triste, sobre o cavalo&lt;br /&gt;Eu vou cismando, cismando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESPERA E CRÊ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amor, meu amor! A nossa estrada&lt;br /&gt;Como é cruenta! Como é dolorosa!&lt;br /&gt;Só nossa crença guia-nos, e nada,&lt;br /&gt;E nada mais, ó minha pobre rosa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do horizonte na bruma silenciosa&lt;br /&gt;Não aparece a estância alva e sagrada&lt;br /&gt;Que há de guardar tua alma carinhosa&lt;br /&gt;Como um ninho uma pomba fatigada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pálida e triste, angélica e franzina –&lt;br /&gt;Fitas o olhar na solidão imensa&lt;br /&gt;E o desalento enubla-te a retina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera e crê! Por entre a treva densa&lt;br /&gt;Há de brilhar a estrela peregrina&lt;br /&gt;Que há de guiar-nos pelo azul suspensa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÁUFRAGO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(Naufrágio do vapor "Alcântara")&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Eis-me náufrago e só, na vastidão&lt;br /&gt;Da praia desolada,&lt;br /&gt;Aonde o mar – indômito leão –&lt;br /&gt;Esmaga a onda fria e angustiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis-me náufrago e só! Áspero e frio&lt;br /&gt;Corta-me o vento os ombros&lt;br /&gt;E o firmamento triste, ermo e sombrio&lt;br /&gt;Tem a mudez inerte dos assombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis-me náufrago e só! Como um lamento&lt;br /&gt;Que sai da escuridão de subterrâneo,&lt;br /&gt;Vem-me nas asas trêmulas do vento&lt;br /&gt;O grito surdo, fúnebre, titâneo,&lt;br /&gt;Que o mar solta do peito truculento&lt;br /&gt;E a alma nos corta, agudo e subitâneo,&lt;br /&gt;Como uma flecha o azul do firmamento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis-me náufrago e só! A alma inda presa,&lt;br /&gt;Tonta da luta, trêmula,&lt;br /&gt;De angústia chora, se ajoelha e reza!&lt;br /&gt;E a onda – alma do mar – da nossa êmula,&lt;br /&gt;Vemo-la forte a rugitar e vemo-la&lt;br /&gt;Morrer na praia onde o silêncio pesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis-me náufrago e só! Triste, cansado,&lt;br /&gt;Meditativo, absorto!&lt;br /&gt;Meu coração no peito angustiado&lt;br /&gt;Precisa de carinho e de conforto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis-me náufrago e só! A ave que passa&lt;br /&gt;Riscando o azul puríssimo do céu&lt;br /&gt;E sente as asas súbito quebradas&lt;br /&gt;Pela bala certeira da desgraça&lt;br /&gt;Talvez não sinta tanto como eu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis-me náufrago e só! Oh! minha irmã,&lt;br /&gt;Meu derradeiro altar imaculado!&lt;br /&gt;Choro por ti à luz desta manhã;&lt;br /&gt;E o pranto quente, doloroso, brando,&lt;br /&gt;É o amor que da alma me rebenta, quando&lt;br /&gt;O coração estorce-se magoado!&lt;br /&gt;Oh! minha Mãe! que sofrimento infindo,&lt;br /&gt;Quanta angústia cruel, pesar e dó,&lt;br /&gt;Sinto ao saber que tu me esperas rindo,&lt;br /&gt;Sem pressentir que estive sucumbindo!...&lt;br /&gt;......................Eis-me náufrago e só!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Praia da Periquara, 29 de junho de 92.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOMBRA E LUAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, Santa, quantos pesares!&lt;br /&gt;Ai, anjo, quanta amargura!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(E a sombra baila nos ares,&lt;br /&gt;E a lua cisma na altura.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se te amo?! Pergunta à lua,&lt;br /&gt;Pergunta à noite que desce!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(E o luar no céu flutua,&lt;br /&gt;E a sombra desaparece.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se sofro?! Interroga o mar&lt;br /&gt;D´água, que os olhos me ensombra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(E a sombra cobre o luar,&lt;br /&gt;E o luar chora na sombra.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vês?! O vento arranca a flor,&lt;br /&gt;Desfolha-a... A mágoa é o vento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(E o luar é o resplendor&lt;br /&gt;Do Deus Menino ao relento.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crês? Eu creio. À noite sonha&lt;br /&gt;Minh’alma com o teu olhar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Já não há sombra que ponha&lt;br /&gt;Prantos na face do luar.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minh’alma abrace-se à tua...&lt;br /&gt;É a onda abraçando a espuma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Os anjos bailam na lua&lt;br /&gt;E a sombra chora na bruma.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cismas? Camélia gelada,&lt;br /&gt;Tua fronte empalidece...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(À lua – a hóstia sagrada –&lt;br /&gt;Eleva a sombra uma prece.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amas? Vê: meu coração&lt;br /&gt;Procura um seio... tem pena!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Semelha o luar na amplidão&lt;br /&gt;O cálix de uma açucena...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, tu não falas, senhora!&lt;br /&gt;Se tu amasses... talvez!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Em minh’alma brilha a aurora&lt;br /&gt;Nas chagas que a dor lhe fez!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o meu amor vive e chora&lt;br /&gt;Por ti! Que importa? Não vês!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Pelo frio azul afora&lt;br /&gt;Vai o luar, que palidez!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sombra e luar vão-se embora&lt;br /&gt;Só fica a tua mudez!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONFIDÊNCIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Há na tua alma como na minh'alma&lt;br /&gt;O fel perene da melancolia.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;GUIMARÃES PASSOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembras-te um dia quando eu te mostrava&lt;br /&gt;Dessa mulher o pálido semblante&lt;br /&gt;Que sobre o meu destino se elevava&lt;br /&gt;Como o sol que se alteia no Levante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não te disse então que na corrente&lt;br /&gt;Dessa beleza transcendente e calma&lt;br /&gt;Eu tinha preso o coração fremente&lt;br /&gt;E tinha presa a alma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que no coral daquele lábio puro,&lt;br /&gt;Quando surgia a pérola do riso&lt;br /&gt;Era como um clarão fendendo o escuro&lt;br /&gt;E fulminando a gente de improviso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto te disse então dessa criança,&lt;br /&gt;Dessa menina pálida e tranqüila,&lt;br /&gt;Que me trouxera a rosa da esperança&lt;br /&gt;Na lânguida pupila!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não viste quando, trêmulo e contrito,&lt;br /&gt;Eu te contava esse poema, irmão,&lt;br /&gt;Não viste que era de minh'alma o grito,&lt;br /&gt;E que era o grito de meu coração?&lt;br /&gt;Que eu era a borboleta da crisálida&lt;br /&gt;Desprendida, gazil, ingênua e louca&lt;br /&gt;Sonhando o mel do amor na rósea boca&lt;br /&gt;Daquela doce pálida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amigo! o inverno chega, a rosa tomba,&lt;br /&gt;Tombam os ninhos, sentem frio as aves...&lt;br /&gt;E na cerca pousada a triste pomba&lt;br /&gt;Só tem arrulos trêmulos e graves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou-me o inverno a mim, lutuoso e frio,&lt;br /&gt;E o coração tremendo se aconchega&lt;br /&gt;Ao peito, como a hera que se apega&lt;br /&gt;A um muro sombrio!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou-me o inverno da desilusão,&lt;br /&gt;Foram-se os sonhos ao cair das flores...&lt;br /&gt;Não mais o epitalâmio dos amores!&lt;br /&gt;Anda nas trevas o meu coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vai-se-nos o bando abençoado&lt;br /&gt;Dos ideais que nós acalentamos,&lt;br /&gt;O triste olhar volvemos ao passado&lt;br /&gt;E choramos, choramos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESPINHOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se vendo a minha placidez severa&lt;br /&gt;A minha fria e grave indiferença,&lt;br /&gt;Que não há olhar teu que turbe e vença,&lt;br /&gt;Nem a mágoa que finges, grave e austera;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se, vendo morta a cândida quimera&lt;br /&gt;Que tanto tempo foi-me altar e crença,&lt;br /&gt;Vês-me suster a lágrima suspensa&lt;br /&gt;Por quem debalde o teu despeito espera;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tu, vendo-me pálido e tranqüilo,&lt;br /&gt;Sempre evitando o luminoso asilo&lt;br /&gt;Do teu olhar fatídico e sereno,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tremes de raiva e tremes de surpresa...&lt;br /&gt;Rasga-te, flor, no espinho da incerteza&lt;br /&gt;Envenenada pelo teu veneno!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MÁGOAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sinto n'alma o fúnebre vazio&lt;br /&gt;Que o ninho sente quando a pomba voa.&lt;br /&gt;JOÃO DE DEUS DO RÊGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que essa flor que encerra a nossa vida,&lt;br /&gt;Na melindrosa ânfora guardada,&lt;br /&gt;Treme, pálida e fria, sacudida&lt;br /&gt;Por tua mão angélica, de fada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que das minhas utopias santas&lt;br /&gt;O vôo cortas quando as tenho presas,&lt;br /&gt;À tua boca e à tua voz – se cantas,&lt;br /&gt;Às tuas mãos e ao teu olhar - se rezas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que deixaste, pérola, a queixosa&lt;br /&gt;Concha cheia de amor e de martírio?&lt;br /&gt;Por que deixaste este luar, ó rosa?&lt;br /&gt;Por que fugiste deste orvalho, ó lírio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, deixa que eu gema e que sucumba&lt;br /&gt;Com teu retrato no meu coração,&lt;br /&gt;E vá de solidão em solidão,&lt;br /&gt;A procurar o amor de tumba em tumba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa! e nem tentes mais chamar à vida&lt;br /&gt;Meu coração desesperado e frio&lt;br /&gt;Que anda no mar da Dor como um navio&lt;br /&gt;Na escuridão da noite indefinida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RUÍNAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, solene e grave, a vigília angustiosa&lt;br /&gt;Vem despertar a Dor que dorme no meu peito,&lt;br /&gt;E vejo-te passar, pálida, silenciosa,&lt;br /&gt;Triste visão gentil de meu sonho desfeito;&lt;br /&gt;Oh meu altar de crença! Altar branco e risonho&lt;br /&gt;Do meu amor que foi e não mais voltou, não!&lt;br /&gt;Quando na insônia vens visitar-me suponho&lt;br /&gt;Que és a mesma que eu trouxe a rir, no coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NO MAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No abismo do Ocidente o sol se despenhava.&lt;br /&gt;Chorava o mar embaixo e o céu no alto chorava.&lt;br /&gt;Frio, o vento gemia entre as cordagens; fria&lt;br /&gt;A noite entre o oceano, entre trevas, descia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retalhando os cachões de espuma salitrosa&lt;br /&gt;A proa morde a vaga escura e pavorosa.&lt;br /&gt;Pouco a pouco no céu as pálidas estrelas&lt;br /&gt;Vão destilando a luz mais pálida do que elas.&lt;br /&gt;Recosto-me à amurada e escuto o choro amargo,&lt;br /&gt;Profundo, misterioso e triste do mar largo.&lt;br /&gt;Sinto abrir-se-me n'alma a flor do sentimento&lt;br /&gt;À tristonha surdina histérica do vento.&lt;br /&gt;E cismo sob o céu, sobre o mar embalado,&lt;br /&gt;Folheando o poema augusto do passado.&lt;br /&gt;Vaga saudade vem, melancolia vaga&lt;br /&gt;Que me afaga o sonhar e que minh'alma afaga,&lt;br /&gt;Entornando em meu peito a luminosidade&lt;br /&gt;Crepuscular, suave e branda da saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto o mar entoa a longa litania&lt;br /&gt;Repassada de dor e de melancolia,&lt;br /&gt;Enquanto geme a onda e se desfaz a espuma&lt;br /&gt;Na proa do navio, eu vou, uma por uma,&lt;br /&gt;As folhas percorrendo, alvas como visões,&lt;br /&gt;Do poema do amor e das recordações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAGOADA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corpo de anjo, coração de hiena!&lt;br /&gt;PAULA NEI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vais desdenhosa e pálida passando&lt;br /&gt;No vitorioso azul da adolescência,&lt;br /&gt;Como uma flor ao sol se estiolando,&lt;br /&gt;Perdendo as cores e perdendo a essência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Freme teu riso arregaçando a rosa&lt;br /&gt;Do lábio ungido de ironia e dor!&lt;br /&gt;E és sempre a mesma, cândida orgulhosa,&lt;br /&gt;Olhar de hiena, coração de flor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E hás de viver assim eternamente&lt;br /&gt;Altiva e fria, irônica, impassível,&lt;br /&gt;Alma d'anjo mimosa e recendente&lt;br /&gt;Cedo crestada ao sopro do impossível!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subiste ao céu no teu amor primeiro&lt;br /&gt;D'onde caíste inopinadamente!&lt;br /&gt;E viste frio, ó coração ardente!&lt;br /&gt;Morrer teu sonho branco e feiticeiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem o triste gemer das casuarinas&lt;br /&gt;O teu sereno olhar, deusa sombria –,&lt;br /&gt;E a luz crepuscular da nostalgia,&lt;br /&gt;E a majestade de um palácio em ruínas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DOENTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dores, angústia, insônia, ansiedade, frio!...&lt;br /&gt;E é meio-dia, ó sol! ó mocidade exausta!&lt;br /&gt;Tal como o vento arranca ao lago um arrepio&lt;br /&gt;Arranca o ocaso o pranto à tua estrela infausta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luar dos mortos, morto e frio como o gelo,&lt;br /&gt;Ó lágrima do sol suspensa da amplidão!&lt;br /&gt;Eu te abomino, luar! Meu Deus, custa-me vê-la&lt;br /&gt;Como um círio a pingar cera sobre um caixão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noite. Silêncio atroz, angustioso. A calma&lt;br /&gt;Agoirenta da febre. O letargo das cousas...&lt;br /&gt;No frio Campo-Santo às tempestades d'alma&lt;br /&gt;Não é mais imponente a fria paz das lousas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fecho os olhos e escuto. O silêncio retalha&lt;br /&gt;O vento que entra e sai pelas frinchas da porta,&lt;br /&gt;Com o som de uma tesoira a cortar a mortalha&lt;br /&gt;Para o meu corpo e range, e corta, e corta, e corta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na penumbra indecisa a febre põe visões&lt;br /&gt;De velhas a rezar ladainhas de mortos,&lt;br /&gt;Loas para encurtar os lúgubres serões,&lt;br /&gt;Não deixando-as fechar os olhos seus absortos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre um pano de luto um Cristo, a fronte curva,&lt;br /&gt;Contempla os pés na cruz pregados brutalmente,&lt;br /&gt;E da fronte sangrenta, enlivicida e turva&lt;br /&gt;Caem gotas da cor vermelha de um poente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corta o ambiente o som de vozes misteriosas:&lt;br /&gt;Comentários da morte: a doença, a agonia...&lt;br /&gt;Como na paz claustral da cela as religiosas&lt;br /&gt;Falam baixo porque a Tentação espia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó fantasmas! visões horror das horas mestas,&lt;br /&gt;Tenho-vos ódio, ó vis quimeras dos doentes!&lt;br /&gt;Eu não vos quero ao pé de mim, sombras funestas,&lt;br /&gt;Quero lábios a rir risos bons, estridentes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a febre, a angustia aumenta! e eu a tremer de frio!&lt;br /&gt;Frio d'alma que esmaia aos repelões da Dor!&lt;br /&gt;Ó névoas, entreabri vosso capuz sombrio,&lt;br /&gt;Deixai que eu goze ainda a mocidade e o amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crepúsculos! varrei vossas sombras do anil,&lt;br /&gt;Não choreis sob o céu desolações, viuvez!...&lt;br /&gt;Quando eu morrer me basta o pranto branco e angil&lt;br /&gt;Daquela que por mim há de chorar talvez!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu bom sol! Mocidade, aquece-me este peito&lt;br /&gt;Onde o pranto gelou e o coração tirita!&lt;br /&gt;Meus sonhos! abrigai nas asas o meu leito&lt;br /&gt;Onde dentro de uma alma um turbilhão se agita!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó fantasia! espanca as sombras tenebrosas,&lt;br /&gt;Mostra-me ela a sorrir, branca como o luar!&lt;br /&gt;Essa que tem no olhar o veludo das rosas&lt;br /&gt;E possui minha vida encerrada no olhar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOB AS ÁRVORES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arvores velhas, árvores amigas,&lt;br /&gt;Venho doente à vossa sombra orar,&lt;br /&gt;Longe das tramas, longe das intrigas,&lt;br /&gt;Ajoelhar-me sob o vosso altar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendes pássaros, sombras, harmonia,&lt;br /&gt;Perfume, flores, que feliz que sois!&lt;br /&gt;Hoje acolhei minha melancolia&lt;br /&gt;Que as minhas mágoas curareis depois...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizei aos vossos músicos alados&lt;br /&gt;Que venham todos; não dispenso as rolas,&lt;br /&gt;Aos malmequeres mandarei recados,&lt;br /&gt;Mandarei emissários às papoulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As trepadeiras matinais, cheirosas,&lt;br /&gt;E o lírio branco, minha flor dileta,&lt;br /&gt;Venham entre canções deliciosas&lt;br /&gt;Ouvir as canções más de um mau poeta. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;Eu não vos contarei a minha história,&lt;br /&gt;– Não quero envenenar vossa alegria!&lt;br /&gt;A vossa fica e a minha é transitória&lt;br /&gt;E soluçada como uma elegia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendes amores castos, religiosos,&lt;br /&gt;Noivados eterais à luz do luar,&lt;br /&gt;Luas nupciais de bons esposos,&lt;br /&gt;E beijai-vos de dia sem corar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao passo que em nós outros, desgraçados!&lt;br /&gt;Mal balbuciam nossos corações,&lt;br /&gt;Vamos morrendo aos poucos, arrastados&lt;br /&gt;No turbilhão medonho das paixões!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o mundo, vórtice medonho,&lt;br /&gt;Tudo reduz a pó no embate rude,&lt;br /&gt;Nada perturba o vosso puro sonho,&lt;br /&gt;A vossa paz, a vossa angelitude!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó flores, entornai vossa alegria,&lt;br /&gt;Sarai com ela minhas negras penas,&lt;br /&gt;Curai-me d'alma esta melancolia&lt;br /&gt;Com junquilhos suaves e açucenas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó árvores viris, cheias de vida,&lt;br /&gt;Com vossa sombra e protetora essência,&lt;br /&gt;Cobri, – ave sem pouso e sem guarida, –&lt;br /&gt;Minha pálida e triste adolescência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que para isso, ó árvores amigas,&lt;br /&gt;Venho doente à vossa sombra orar...&lt;br /&gt;Longe das tramas, longe das intrigas,&lt;br /&gt;Ajoelhar-me sob o vosso altar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;A GAZELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retine o sol nas árvores, dardeja&lt;br /&gt;Na esbraseada areia das estradas;&lt;br /&gt;Vão dos búfalos negros as manadas&lt;br /&gt;Beber a água que, trépida, roreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os juncais das margens, inquieta&lt;br /&gt;A onça espreita; os pardos elefantes&lt;br /&gt;Pacientes, vão das árvores distantes&lt;br /&gt;Buscar a sombra protetora e quieta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega a gazela tímida e ligeira,&lt;br /&gt;E as delicadas patas estendendo,&lt;br /&gt;De um salto chega à borda e vai bebendo,&lt;br /&gt;Pendido o corpo sobre a ribanceira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passa, curvando os trêmulos juncais&lt;br /&gt;Do vento a rija e cálida bafagem...&lt;br /&gt;Como o estridor de lúgubre voragem&lt;br /&gt;Ressoa um urro pelos matagais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no cristal do ambiente um corpo rola,&lt;br /&gt;Fulvo, aos raios do sol se precipita,&lt;br /&gt;E numa sede oceânica e maldita&lt;br /&gt;A tragédia do sangue desenrola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomba a gazela tendo o peito aberto&lt;br /&gt;Por duas largas e mortais facadas!&lt;br /&gt;– Do sangue o rio bebe-lhe às golfadas,&lt;br /&gt;O sequioso vampiro do deserto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela morrendo, em queixas flebilíssimas,&lt;br /&gt;Dos grandes olhos moribundos, vagos,&lt;br /&gt;Deixa cair as pérolas puríssimas&lt;br /&gt;Que o martírio arrancou desses dois lagos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a gazela, foi meu coração&lt;br /&gt;Sob o azul virginal da adolescência,&lt;br /&gt;Como uma ave em procura da amplidão&lt;br /&gt;Cheia de sol, de luz, de transparência,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em teus olhos, dois sóis sobre dois lagos,&lt;br /&gt;Cheios de languidez e de fulgor,&lt;br /&gt;Beber a explicação dos sonhos vagos&lt;br /&gt;– Pombas que chegam quando chega o amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bebendo-te esse olhar onde boiava&lt;br /&gt;Toda a tua alma virginal e mansa,&lt;br /&gt;Minh'alma à luz do amor se despertava&lt;br /&gt;Sobre o leito risonho da esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dobra-se a folha ao livro que nos fala&lt;br /&gt;Da longínqua saudade do passado,&lt;br /&gt;E abrimos d'alma o escrínio alvo e sagrado&lt;br /&gt;Para melhor sentirmo-la e sonhá-la!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não te recordo mais; somente aquela&lt;br /&gt;Lágrima triste que te vi chorar&lt;br /&gt;Destes versos no fim fez-me lembrar&lt;br /&gt;Os dolorosos prantos da gazela!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;PEREGRINANDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdoa se fui quebrar&lt;br /&gt;A tua paz, o teu sono,&lt;br /&gt;Mas custava-me esperar&lt;br /&gt;Neste sombrio abandono,&lt;br /&gt;Ó rosa do meu outono,&lt;br /&gt;Que tu quisesses voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cansado, exausto, o olhar&lt;br /&gt;Amortecido do pranto,&lt;br /&gt;Pus-me a cismar, a cismar&lt;br /&gt;Por que assim tardavas tanto...&lt;br /&gt;Tinha a tristeza, o quebranto&lt;br /&gt;Vago, profundo do mar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A andorinha volta ao lar&lt;br /&gt;Se baixa a noite sombria,&lt;br /&gt;Ó andorinha sem par,&lt;br /&gt;Por que não voltas, dizia...&lt;br /&gt;Nem me o vento respondia,&lt;br /&gt;Nem respondia o luar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, a peregrinar&lt;br /&gt;Fui-me por essas estradas;&lt;br /&gt;Tardo romeiro a cantar&lt;br /&gt;Antigas loas sagradas,&lt;br /&gt;Caminhando às alvoradas&lt;br /&gt;E repousando ao luar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao roxo crepuscular&lt;br /&gt;Solene da imensidade,&lt;br /&gt;Sentia em mim soluçar&lt;br /&gt;A juriti da saudade,&lt;br /&gt;Sentida dessa orfandade&lt;br /&gt;Que lhe deixou teu olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no meu peito a estourar&lt;br /&gt;As ondas do meu desgosto!&lt;br /&gt;Se a noite vinha a baixar&lt;br /&gt;Ou fosse treva ou sol posto,&lt;br /&gt;Sem o luar do teu rosto,&lt;br /&gt;O clarão do teu olhar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim criança, ao penar&lt;br /&gt;De dias, dias e dias&lt;br /&gt;Sucedeu o desbrochar&lt;br /&gt;Das rosas das alegrias:&lt;br /&gt;Pra longe, melancolias!&lt;br /&gt;Achei-te, meu nenufar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei. Ao longe alvejar&lt;br /&gt;Vi a Terra Prometida,&lt;br /&gt;Era tempo de estancar&lt;br /&gt;O sangue desta ferida.&lt;br /&gt;Ó rosa da minha vida,&lt;br /&gt;Ó santa do meu altar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tens belos olhos a olhar,&lt;br /&gt;Achei-os tristes, sentidos...&lt;br /&gt;Ó quem me dera chorar&lt;br /&gt;Sob esses sóis tão queridos&lt;br /&gt;Meus sonhos de oiro perdidos&lt;br /&gt;Nos desertos do pesar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó minha estrela polar!&lt;br /&gt;A tua luz esqueci&lt;br /&gt;O meu constante penar,&lt;br /&gt;Tantas dores que sofri,&lt;br /&gt;Tantas noites que perdi&lt;br /&gt;Que nem as posso contar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, pra que serve chorar?&lt;br /&gt;Eu pressenti vagamente&lt;br /&gt;Alguma coisa no ar&lt;br /&gt;A me dizer tristemente&lt;br /&gt;Que o teu amor já no poente&lt;br /&gt;Estava pra se ocultar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuta: no bravo mar&lt;br /&gt;Da vida, achei-me sozinho,&lt;br /&gt;Sem lua para aclarar&lt;br /&gt;A noite do meu caminho,&lt;br /&gt;E fui-me a rir... pobrezinho!&lt;br /&gt;A rir... para não chorar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trazia uma ave a cantar&lt;br /&gt;Idílios dentro de mim,&lt;br /&gt;Como as sereias do mar&lt;br /&gt;Por essas noites sem fim...&lt;br /&gt;Cantigas lindas assim&lt;br /&gt;Só eu as pude escutar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vi um dia brilhar&lt;br /&gt;Sobre meus olhos teus olhos,&lt;br /&gt;Pus-me a cismar, a cismar&lt;br /&gt;Que eram mau sonho os escolhos,&lt;br /&gt;Uma quimera os abrolhos&lt;br /&gt;E uma verdade esse olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vi o tempo passar&lt;br /&gt;Sereno, tranqüilamente,&lt;br /&gt;A aurora sempre a fitar,&lt;br /&gt;Sem nunca pensar no poente.&lt;br /&gt;Ah! desse sonho inocente&lt;br /&gt;Tarde quisera acordar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas hoje... não vás pensar&lt;br /&gt;Que me queixo nestes versos,&lt;br /&gt;Vendo frio o teu olhar&lt;br /&gt;Vendo meus sonhos dispersos...&lt;br /&gt;Nossos trilhos são diversos...&lt;br /&gt;Vai tu que eu fico a esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Choras? Desponta o luar&lt;br /&gt;Da saudade? É cedo... Chora!&lt;br /&gt;Sabe o tempo acalentar&lt;br /&gt;A dor que sentes agora...&lt;br /&gt;Diz-se adeus e mar em fora&lt;br /&gt;Deixa a gente de chorar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fico para guardar,&lt;br /&gt;Para que o pó não consuma,&lt;br /&gt;As per'las desse colar&lt;br /&gt;Inda mais brancas que a espuma,&lt;br /&gt;Que eu roubei uma por uma&lt;br /&gt;Ao cofre do teu olhar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É bem doce o viajar&lt;br /&gt;Atrás de um sonho, querida;&lt;br /&gt;Mas é bem triste voltar&lt;br /&gt;Com a crença desvanecida!&lt;br /&gt;.................................................&lt;br /&gt;Fui-me a buscar minha vida&lt;br /&gt;E trouxe a morte ao chegar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O MERGULHADOR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por entre as algas e os corais passando&lt;br /&gt;Desce ao fundo do mar – gigante inerme, –&lt;br /&gt;Seu vasto seio escuro trespassando&lt;br /&gt;Como se fora um pequenino verme,&lt;br /&gt;O audaz mergulhador&lt;br /&gt;Que lhe devassa o undoso coração,&lt;br /&gt;Subindo após, vitorioso, à flor,&lt;br /&gt;Com uma concha ou um coral na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele desce às solidões marinhas,&lt;br /&gt;As sereias às portas das cavernas&lt;br /&gt;– Tristes paços de prófugas rainhas –&lt;br /&gt;Cantam-lhe doces melodias ternas,&lt;br /&gt;Suaves e sentidas;&lt;br /&gt;E os monstros do oceano apavorados&lt;br /&gt;Fogem, batendo as caudas bipartidas,&lt;br /&gt;Dos pavorosos antros devassados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Homem, no entanto, tateando o limo,&lt;br /&gt;A base dos rochedos rebuscando,&lt;br /&gt;Procura a concha do precioso mimo&lt;br /&gt;A pérola – entre as fezes tateando,&lt;br /&gt;No coração do oceano,&lt;br /&gt;Longo o fôlego exausto e entorpecido&lt;br /&gt;O corpo, frio do labor insano,&lt;br /&gt;Nas salsas solidões quase perdido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o espírito age. Em brandas cores&lt;br /&gt;Pinta-lhe a suavíssima alegria&lt;br /&gt;Da volta, enfim liberto, dos pavores,&lt;br /&gt;À luz do sol, às árvores, ao dia...&lt;br /&gt;E ei-lo que desce mais&lt;br /&gt;Para logo subir trazendo aos dedos&lt;br /&gt;As pérolas mimosas e os corais&lt;br /&gt;Das cavernas do mar e dos rochedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa criança que, comigo, sonhas&lt;br /&gt;Num longínquo futuro de alegrias,&lt;br /&gt;Inda entre as desoladas e tristonhas,&lt;br /&gt;Murchas flores das nossas utopias;&lt;br /&gt;Que me trouxeste a rir&lt;br /&gt;O arrimo protetor de teu olhar&lt;br /&gt;Quando, exausto, me senti cair&lt;br /&gt;Farto da vida e farto de chorar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também, mergulhador, desci ousado,&lt;br /&gt;Rasgando as ondas, contornando as fráguas&lt;br /&gt;Da vida, mar indômito, assanhado,&lt;br /&gt;Com o peito cheio de canções e mágoas.&lt;br /&gt;De mágoas e de horrores!&lt;br /&gt;Mas ao voltar à flor da vaga cérula,&lt;br /&gt;Bani do coração mágoas e dores&lt;br /&gt;Para guardar-te no meu seio, ó pérola!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PELO PAÍS DO SONHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando há de o dia esplêndido chegar&lt;br /&gt;Dos nossos sonhos vermos realizados?&lt;br /&gt;Se bem que sempre unidos a esperar&lt;br /&gt;Já há tanto tempo andamos separados!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelas noites de luar, religiosas,&lt;br /&gt;Visionário louco, eu devaneio:&lt;br /&gt;Em minhas mãos as tuas mãos formosas,&lt;br /&gt;Pendida a minha fronte no teu seio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu olhar mergulha em teu olhar,&lt;br /&gt;Teu meigo olhar de rola amante e casta,&lt;br /&gt;Que as minhas dores para longe afasta&lt;br /&gt;E mais me eleva para mais te amar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moves os lábios púrpuros, medrosos&lt;br /&gt;Da cálida saraiva de meus beijos,&lt;br /&gt;– Rosas abertas, cheias de desejos,&lt;br /&gt;E de promessas de esquisitos gozos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sacode a aragem teu cabelo aos ombros,&lt;br /&gt;Espalha-o, beija-o, leva-lhe os aromas,&lt;br /&gt;E deles faz um círculo de assombros&lt;br /&gt;Para guardar as tuas níveas pomas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o luar no céu, a contemplar ciumento&lt;br /&gt;Do nosso idílio as alegrias mansas,&lt;br /&gt;Diz que somos, expostos ao relento,&lt;br /&gt;Duas traquinas, cândidas crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um convite em meu lábio se insinua:&lt;br /&gt;– É tarde, vamos, meu amor... e ouvindo&lt;br /&gt;Olhas-me e coras... No entretanto a Lua&lt;br /&gt;Vai pelo azul, maliciosa! rindo...&lt;br /&gt;....................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É este o sonho que perfuma e aquece&lt;br /&gt;Meu coração pelas noitadas frias,&lt;br /&gt;Quando do leito virginal envias&lt;br /&gt;Para Nossa Senhora a tua prece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NO CAMPO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Cai o vento da tarde.&lt;br /&gt;Folhas secas no espaço remoinhando&lt;br /&gt;Lembram bandos de pombas levantando&lt;br /&gt;O vôo, de assustadas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passam rindo e cantando&lt;br /&gt;Comboieiros além pelas estradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na calma do sol poente&lt;br /&gt;Vem sobre os campos uma paz austera.&lt;br /&gt;Balam saudosamente&lt;br /&gt;Os rebanhos que descem dos oiteiros;&lt;br /&gt;Correm, saltando, os trêfegos cordeiros&lt;br /&gt;Ao curral que os espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois pombos num telhado,&lt;br /&gt;Alvinhos como a pluma de algodão,&lt;br /&gt;Num idílio sagrado&lt;br /&gt;Noivam sob as cortinas da amplidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É quase noite. O poente&lt;br /&gt;Inda apresenta um luzimento de oiro...&lt;br /&gt;Urra furiosamente&lt;br /&gt;No fim da várzea um corpulento toiro,&lt;br /&gt;Moitas torcendo e levantando poeira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No alpendre onde me acho&lt;br /&gt;Passa um morcego e agita, voando baixo,&lt;br /&gt;As duas asas moles como cera...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doiram-se ao longe os cimos dos oiteiros&lt;br /&gt;Aos moribundos raios do sol-poente;&lt;br /&gt;Recolhe o gado ao canto dos vaqueiros,&lt;br /&gt;E os bezerrinhos berram longamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite desce religiosamente,&lt;br /&gt;Recebem-na as boninas nos canteiros.&lt;br /&gt;E as corujas nas cercas, nos aceiros,&lt;br /&gt;Soltam seus pios, lúgubres, plangentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos brejos, nos açudes, nas vazantes&lt;br /&gt;Cantam sapos; e, trêmulos, errantes,&lt;br /&gt;Os pirilampos surgem nas encostas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E entre listrões de púrpura, vermelhos,&lt;br /&gt;A serra é como um homem de joelhos&lt;br /&gt;Tendo um globo de fogo – a luz, às costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LÁGRIMAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lágrimas tristes, lágrimas doridas,&lt;br /&gt;Podeis rolar desconsoladamente!&lt;br /&gt;Vindes da ruína dolorosa e ardente&lt;br /&gt;Das minhas torres de luar vestidas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Órfãs trementes, órfãs desvalidas,&lt;br /&gt;Não tenho um seio carinhoso e quente,&lt;br /&gt;Frouxel de ninho, cálix recendente,&lt;br /&gt;Onde abrigar-vos, pérolas sentidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vindes da noite, vindes da amargura,&lt;br /&gt;Desabrochastes sobre a dura frágua&lt;br /&gt;Do coração ao sol da desventura!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Vindes de um seio, vindes de uma mágoa&lt;br /&gt;E não achastes uma urna pura&lt;br /&gt;Para abrigar-vos, frias gotas d’água!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;SÓ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que luta atroz a que eu sustento, quando&lt;br /&gt;À noite velo no meu quarto, e escuto&lt;br /&gt;O coração gemendo e blasfemando,&lt;br /&gt;Órfão de tudo, sob os véus do luto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora o vento passa esfuziando;&lt;br /&gt;Cai o orvalho da noite; aqui, enxuto,&lt;br /&gt;Lento, o silêncio desce, amortalhando&lt;br /&gt;O meu tormento atroz e absoluto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abro um livro, passeio, fumo, escrevo,&lt;br /&gt;Medito e sonho; e a minha noite levo&lt;br /&gt;Insone, e deito-me ao romper da aurora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ergo-me pálido e desesperado&lt;br /&gt;Do sono cataléptico, acordado,&lt;br /&gt;E vou, maldito, pela vida afora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POBRE!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz essa gente que te vê curvada&lt;br /&gt;Continuamente, ó meiga criatura,&lt;br /&gt;Para o cesto da alvíssima costura,&lt;br /&gt;Que és pobre, e que por isso és desprezada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso mesmo eu vejo-te acanhada&lt;br /&gt;Entre as outras buscando a mais escura&lt;br /&gt;Penumbra, inútil para tanta alvura,&lt;br /&gt;E pra tanta beleza ignorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignorada, sim, minha açucena;&lt;br /&gt;Ignorância que me causa pena&lt;br /&gt;E me faz rir ao mesmo tempo, louca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois eu bem sei o quanto és rica, eu sei-o:&lt;br /&gt;Se tens só duas pérolas no seio,&lt;br /&gt;Tens um milhão de pérolas na boca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O SEGREDO DO VENCIDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Solidão! solidão! Mortalha enorme,&lt;br /&gt;Noite maior em mim que na amplidão,&lt;br /&gt;Que me estrangula o amor no coração,&lt;br /&gt;Que tenta erguer-se e fatalmente dorme!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Polvo negro e brutal que me constringe&lt;br /&gt;A alma em seus tentáculos viris,&lt;br /&gt;Só me deixando ver os alcantis&lt;br /&gt;Como através do olhar frio da Esfinge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;És, coração, cheio de amor e mágoas,&lt;br /&gt;Eterno oceano a combater as frágoas&lt;br /&gt;Da dúvida cruel, do tédio amargo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fere-te a entranha a tromba do penedo,&lt;br /&gt;Mas da ferida guardas o segredo&lt;br /&gt;E, blasfemando, vais chorar ao largo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DESLUMBRAMENTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por sobre nós o azul silenciosamente&lt;br /&gt;Se arqueia, ébrio de luz, de paz, de sons, de amor,&lt;br /&gt;E apenas da águia errante a asa viril e ardente&lt;br /&gt;Põe naquela cor casta a nódoa de outra cor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê-se ao longe esverdear melancolicamente&lt;br /&gt;Das montanhas senis os flancos onde o ardor&lt;br /&gt;Do sol retine e bate irresistivelmente,&lt;br /&gt;Penetrando-lhe a entranha e haurindo-lhe o frescor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto a águia possante, as asas espalmadas,&lt;br /&gt;Sobe, até que sentindo as penas abrasadas&lt;br /&gt;Volta e procura a serra, exausta de vigor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também minh'alma um dia ao azul puro e radioso&lt;br /&gt;Abriu o cálix branco ébrio de amor e gozo,&lt;br /&gt;Para depois fechá-lo ermo de gozo e amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MEU CACHIMBO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Companheiro das noites desoladas,&lt;br /&gt;Das desoladas noites que se escoam&lt;br /&gt;Lentas como aves que no azul revoam&lt;br /&gt;À languidez das tardes acolchoadas;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando em meu peito as dores abotoam&lt;br /&gt;– Larvas famintas e desesperadas –&lt;br /&gt;E as ilusões, fugindo apavoradas,&lt;br /&gt;Nênias e nênias lúgubres entoam;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, meu amigo, como eu te amo, quando&lt;br /&gt;Distrais-me a minha dor, a acalentando,&lt;br /&gt;E acalentando as minhas rudes mágoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao menos tu me sabes enganar&lt;br /&gt;Na vida, o bravo e tumultuoso mar&lt;br /&gt;Onde rasguei o coração nas fráguas.&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Teu fumo branco, vaporoso e ondeado&lt;br /&gt;Em frias espirais subindo, passa&lt;br /&gt;Como o nectáreo líquido da taça&lt;br /&gt;Desenervando o espírito alquebrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perfuma o ambiente e, trêmulo, esvoaça&lt;br /&gt;Como um sonho de amor nobre e elevado&lt;br /&gt;Purificando um coração magoado&lt;br /&gt;Das dolorosas fezes da desgraça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando sombrio e triste, o desalento&lt;br /&gt;Prostra-me, inerte, pálido e doente&lt;br /&gt;Da solidão na dolorosa via,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse deserto e lúgubre Sahara&lt;br /&gt;Tens o poder, tens a virtude rara&lt;br /&gt;De adormecer a minha nostalgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ÚNICO OLHAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O único olhar que iluminou meu sonho,&lt;br /&gt;Sonho de amor que me aclarou a vida;&lt;br /&gt;Luar de crença do meu céu tristonho,&lt;br /&gt;Rápida luz de estrela foragida,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quanto tempo, há quanto! no medonho&lt;br /&gt;Subterrâneo da Ilusão perdida,&lt;br /&gt;Não vem trazer-me, cândido e risonho,&lt;br /&gt;A luz guiadora a esta alma combalida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros olhares vejo noutro rosto:&lt;br /&gt;Fluxuosos como o brando mar de Agosto,&lt;br /&gt;E às vezes puros como um céu risonho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas na minh'alma abandonada, pia&lt;br /&gt;A estrige augura da melancolia&lt;br /&gt;Chorando o olhar do meu primeiro sonho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OH, DEIXA-ME CHORAR!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! deixa-me chorar! não me despertes&lt;br /&gt;Da letargia atroz do desalento!&lt;br /&gt;Procuro ansioso a paz, o esquecimento;&lt;br /&gt;Dormem meus sonhos pálidos e inertes;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embalde d'alma carinhosa vertes&lt;br /&gt;Consolações; nas roscas do tormento&lt;br /&gt;Duvida e zomba o coração friorento&lt;br /&gt;E à confiança antiga o não convertes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi-se-lhe o dia; vem a noite agora,&lt;br /&gt;Noite infinita sem rubor de aurora&lt;br /&gt;Jamais na torva e fria imensidade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que amarga e trágica irrisão, querida!&lt;br /&gt;Tu que já foste o sol de minha vida&lt;br /&gt;És o morto luar desta saudade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARA ESCREVER&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mergulho a pena no tinteiro... cismo...&lt;br /&gt;Em quê? e a pena entre os meus dedos presa,&lt;br /&gt;Como uma alma suspensa sobre o abismo&lt;br /&gt;Da Dor, treme de frio e de surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caos de pensar! Nevoeiros da incerteza!&lt;br /&gt;Silêncio! Calmaria!... atroz mutismo!...&lt;br /&gt;E o coração é uma fornalha acesa,&lt;br /&gt;Uma cratera a vomitar no abismo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E neste vácuo, neste desespero,&lt;br /&gt;Quero debalde, inutilmente quero&lt;br /&gt;Dizer... nem sei o que dizer, Jesus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho o mar sob o peito e a tempestade&lt;br /&gt;N’alma, e sou mudo! Ó santa, tem piedade!&lt;br /&gt;Surge, beija-me e diz: - faça-se a luz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MANHÃS DE OUTUBRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frias manhãs de Outubro, neblinosas,&lt;br /&gt;Cheias de aroma, cheias de tristeza&lt;br /&gt;Para minh'alma que se estorce presa&lt;br /&gt;Nas roscas das saudades angustiosas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sois para mim como esfolhadas rosas&lt;br /&gt;Cobrindo o altar onde minh'alma reza,&lt;br /&gt;E onde arde noite e dia sempre acesa&lt;br /&gt;A lâmpada das dores tormentosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frias manhãs de Outubro, eu vos adoro&lt;br /&gt;Mesmo cheias do pranto das neblinas&lt;br /&gt;Que é como o pranto que eu de noite choro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As vossas névoas trêmulas e finas&lt;br /&gt;São como contas pálidas; e eu oro&lt;br /&gt;Vendo-as descer, as pálidas neblinas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOITE AFORA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há pouco na matriz deram dez horas.&lt;br /&gt;Calma aparente fora; aqui, soturna,&lt;br /&gt;Triste vigília; a pavidez noturna&lt;br /&gt;Das longas noites lentas, sonhadoras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só no meu quarto, a luz da lamparina&lt;br /&gt;Trêmula doira a minha solidão.&lt;br /&gt;Silêncio triste. As dores em surdina&lt;br /&gt;Vão dar meia-noite no meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ventos da noite frios, ventos frios&lt;br /&gt;Passam bulhando fora aos assobios,&lt;br /&gt;Zunindo pelas frinchas da parede...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormem sorrindo as brancas inocências,&lt;br /&gt;E anda o remorso pelas consciências&lt;br /&gt;Como um lobo perdido, que tem sede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PEREGRINA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem de longe talvez, talvez de perto,&lt;br /&gt;Não sei donde ela vem. Por entre a bruma&lt;br /&gt;Do seu mistério íntimo, ressuma&lt;br /&gt;Um poema de dores, encoberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz-se em torno de si como um deserto&lt;br /&gt;D’onde fugiu toda a alegria em suma,&lt;br /&gt;E uma saudade imensa se avoluma&lt;br /&gt;No seu olhar de um brilho vago, incerto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canta ao piano, à noite, umas baladas&lt;br /&gt;De umas doces tristezas perfumadas,&lt;br /&gt;De uns versos melancólicos, tristonhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vêm-lhe d’alma no tropel das notas,&lt;br /&gt;Pedaços, restos de utopias rotas,&lt;br /&gt;Tristes fragmentos de um colar de sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTURNO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos altos céus a lua corre douda,&lt;br /&gt;Quase morta, de susto estarrecida,&lt;br /&gt;Com uns ares de loba perseguida.&lt;br /&gt;A treva espreita. Uiva a tristeza em roda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conspira o vento pelos arvoredos&lt;br /&gt;Passando a senha aos tristes conjurados.&lt;br /&gt;Rosna a traição. É a noite dos segredos...&lt;br /&gt;Cochicham para a lua os namorados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pia ao longe a coruja: é a sentinela,&lt;br /&gt;Alerta! Pronto! (Como a noite é bela!)&lt;br /&gt;Morre, vil! Por Jesus! Perdão, perdão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vibram ainda os merencórios ecos...&lt;br /&gt;Sobre um leito de sonhos secos, secos,&lt;br /&gt;Geme alguém no meu peito: – é o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOLTANDO DO BANHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltas do banho. O sol no Oriente te alumia.&lt;br /&gt;E como vens radiosa e meiga o sol gozando,&lt;br /&gt;Com o teu sorriso doce o lábio arregaçando;&lt;br /&gt;Úmido o lábio,e o olhar mais claro do que o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos ombros a toalha alvíssima aparando&lt;br /&gt;Os dois rolos da trança umedecida e fria,&lt;br /&gt;Da opulência real das tranças da judia,&lt;br /&gt;Uma fronte de jaspe, ebúrnea, encaixilhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem não te desejara um beijo dessa boca&lt;br /&gt;Fresca como um pomar rociado, que se touca&lt;br /&gt;De flores ao sair do frio dos invernos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crê-me, apenas te guarda a castidade branca&lt;br /&gt;Essa risada honesta, ingênua, boa e franca,&lt;br /&gt;E esses olhos de criança, azuis, grandes e ternos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FEZES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rindo e gozando amarrotaram, vis!&lt;br /&gt;A virgem flor da tua mocidade;&lt;br /&gt;E de tua alma as ilusões gentis&lt;br /&gt;Voaram para o outono da saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruel, trágica e fria ansiedade!&lt;br /&gt;Quando nas tascas fumarentas, ris,&lt;br /&gt;Te insulta o bocejar da saciedade&lt;br /&gt;Das tuas graças gastas e senis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tragas, serena, o fel heroicamente,&lt;br /&gt;Sentindo embora o murmurar latente&lt;br /&gt;De íntima voz que o teu futuro aponta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrependidos cospem-te os bordéis...&lt;br /&gt;E alucinada, furiosa, tonta,&lt;br /&gt;Cospes na lama que te cobre os pés!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESTRELA DO MAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À minha Mãe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Sobre o abismo sem luz de minha vida atroz&lt;br /&gt;Fulges tu, silenciosa Estrela vigilante;&lt;br /&gt;E me falas na doce e gemedora voz&lt;br /&gt;Do vento, e à noite vejo o teu olhar amante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do alto, o teu olhar, firme ao náufrago errante&lt;br /&gt;Sobre a onda da vida enraivada e feroz,&lt;br /&gt;Mandas corno um perdão vindo de alma distante&lt;br /&gt;Para outra que jaz numa masmorra a sós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó pálio azul das minhas crenças, dos meus sonhos!&lt;br /&gt;Ó diamante a fulgir no lacrimal das noites&lt;br /&gt;Minhas de viuvez e temporais medonhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando sofro e o silêncio escuta-me os pesares&lt;br /&gt;Eu rezo a ti e a dor abranda os seus açoites,&lt;br /&gt;Ó Estrela do mar a fulgir sobre os mares!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Farol das noites más dos que vogam perdidos&lt;br /&gt;Sobre o cairel traiçoeiro, inclemente e brutal&lt;br /&gt;Da vida; a soluçar com os corações partidos,&lt;br /&gt;–Velas rotas à noite, às rajadas do mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sorrir e a cantar na abóbada; claustral&lt;br /&gt;Dos corações suspensa, às pragas e aos gemidos,&lt;br /&gt;Faz dia a tua luz muita treva fatal,&lt;br /&gt;Ó virgem de perdão! Estrela dos vencidos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;És tu quem desce e faz na charneca do crime&lt;br /&gt;Nascer a flor do Bem inefável sublime,&lt;br /&gt;Entre os cardos da Dor hostis como punhais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãe dos tristes! Ó Mãe dos humildes, dos fracos!&lt;br /&gt;Ó luar do perdão a alumiar os vácuos;&lt;br /&gt;Alvorada do Bem! Eco piedoso de ais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INVERNO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega o inverno ríspido;&lt;br /&gt;O inverno chega, frio:&lt;br /&gt;Já pelo ambiente gélido&lt;br /&gt;A névoa fio a fio&lt;br /&gt;Desce.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rio, cavo,&lt;br /&gt;Murmura, ameaça,&lt;br /&gt;Cresce&lt;br /&gt;Cresce, transborda e passa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aves com frio,&lt;br /&gt;Ninhos molhados...&lt;br /&gt;Do rio&lt;br /&gt;As lavandeiras brados&lt;br /&gt;Soltam com frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o inverno: chega,&lt;br /&gt;Das nuvens desce;&lt;br /&gt;Ruge, estortega,&lt;br /&gt;E o rio cresce,&lt;br /&gt;E as aves choram...&lt;br /&gt;De luto as pedras&lt;br /&gt;Vestem-se, e oram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As rolas fogem:&lt;br /&gt;Quem sabe aonde&lt;br /&gt;Elas irão?&lt;br /&gt;Se a névoa esconde&lt;br /&gt;Os horizontes&lt;br /&gt;Prados e montes&lt;br /&gt;Acharão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelas campinas,&lt;br /&gt;Pelos oiteiros,&lt;br /&gt;Só nevoeiros,&lt;br /&gt;Frio e neblinas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela cidade&lt;br /&gt;Tristeza só!&lt;br /&gt;Vestem-se os muros&lt;br /&gt;Pardos, escuros,&lt;br /&gt;De limo e pó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do campanário&lt;br /&gt;Na flecha esguia,&lt;br /&gt;As andorinhas&lt;br /&gt;À luz do dia&lt;br /&gt;Não pousam mais.&lt;br /&gt;E o grito terno&lt;br /&gt;Delas no inverno&lt;br /&gt;Não se ouve mais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu? Olha, pensa,&lt;br /&gt;Ó meu amor!&lt;br /&gt;Sem fé, sem crença,&lt;br /&gt;Na noite imensa,&lt;br /&gt;Fria, que horror!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que não voltas&lt;br /&gt;Ao coração...&lt;br /&gt;Não voltas, não!&lt;br /&gt;E as ondas frias&lt;br /&gt;Do bravo mar&lt;br /&gt;Da minha vida,&lt;br /&gt;Com o teu olhar&lt;br /&gt;Só tu podias&lt;br /&gt;Fazer parar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noites, que noites!&lt;br /&gt;Estas que passo&lt;br /&gt;Chorando, a orar!&lt;br /&gt;Sem um afago,&lt;br /&gt;Pois na minh'alma&lt;br /&gt;É vago, vago&lt;br /&gt;O teu lugar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O SONO DO OLAVO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao Luís&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Olavo dorme, Luís;&lt;br /&gt;Semelha o seu berço um ninho;&lt;br /&gt;Olha que sono feliz&lt;br /&gt;O Olavo dorme, Luís;&lt;br /&gt;É o sono de um passarinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem na boquita infantil&lt;br /&gt;Um sorrisinho brejeiro.&lt;br /&gt;As rosas tenras de Abril&lt;br /&gt;Tem na boquita infantil;&lt;br /&gt;As rosas de um ano inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Olavo a mim me parece&lt;br /&gt;Todo vestido de rendas&lt;br /&gt;Uma quimera, uma prece...&lt;br /&gt;Até o Olavo parece&lt;br /&gt;Um altar cheio de oferendas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ei-lo que agora desperta,&lt;br /&gt;Com que furor despedindo&lt;br /&gt;A pontapés a coberta!&lt;br /&gt;Não parece o que desperta&lt;br /&gt;Com o que estava dormindo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como se ele esfregasse&lt;br /&gt;Cem um lírio, a mãozinha agora&lt;br /&gt;Esfrega os olhos, tenace.&lt;br /&gt;Tal como se ele esfregasse&lt;br /&gt;Os céus pra nascer a aurora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis tudo feliz, enfim!&lt;br /&gt;Ei-lo desperto, feliz,&lt;br /&gt;A rir como um querubim.&lt;br /&gt;Eis tudo feliz, enfim,&lt;br /&gt;E eis-te pateta, Luís!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POEMAS ÍNTIMOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muita vez a cismar me fico horas perdido&lt;br /&gt;Em teus olhos leais, meu único tesoiro!&lt;br /&gt;E o meu ser se embriaga e tomba adormecido&lt;br /&gt;Nas ondas triunfais do teu cabelo loiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E da cisma por sobre o lúgubre cairel&lt;br /&gt;Tua imagem bendigo, e adoro-te, criança,&lt;br /&gt;A ti que me orvalhaste a murcha flor da esp'rança&lt;br /&gt;E me saraste d'alma a ferida cruel!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na abóbada sem luz da minha mocidade&lt;br /&gt;Quando assomaste a rir, ó sol de minha crença!&lt;br /&gt;Minh'alma ajoelhou e a noite da saudade&lt;br /&gt;Mudou-se para mim numa alegria imensa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E hoje, quando cismo, o coração ferido&lt;br /&gt;Procura o teu olhar, meu único tesoiro!&lt;br /&gt;E meu ser se embriaga e tomba adormecido&lt;br /&gt;Nas ondas triunfais do teu cabelo loiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CANÇÕES DE MAIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brandos eflúvios suaves&lt;br /&gt;Trouxe Maio, ó meus amores!&lt;br /&gt;São rosas, dizem as aves;&lt;br /&gt;Esses aromas suaves...&lt;br /&gt;São anjos, dizem as flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São anjos no céu decerto,&lt;br /&gt;Que espalham tamanha luz!&lt;br /&gt;Disse-me um lírio entreaberto;&lt;br /&gt;São anjos no céu, decerto...&lt;br /&gt;Nossa Senhora ou Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sol&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tesoiros em cada raio&lt;br /&gt;De rubis e diamantes&lt;br /&gt;Trouxe pra dá-los a Maio;&lt;br /&gt;Tesoiros em cada raio&lt;br /&gt;Pra Maio dar aos amantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As Flores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trouxe-nos novos aromas&lt;br /&gt;Pela manhã a alvorada;&lt;br /&gt;Perfumes puros de pomas,&lt;br /&gt;Desconhecidos aromas&lt;br /&gt;De uma urna ignorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Lago&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem à noite o luar&lt;br /&gt;Era uma rosa no céu:&lt;br /&gt;Era uma hóstia no altar;&lt;br /&gt;Ontem à noite o luar&lt;br /&gt;Era uma noiva de véu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma Rola&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu ninho fi-l o das penas&lt;br /&gt;Do meu colo; é tão macio...&lt;br /&gt;Tem o frouxel de açucenas,&lt;br /&gt;Meu ninho que eu fiz de penas&lt;br /&gt;E de carinhos teci-o.&lt;br /&gt;Sob uma moita de rosas&lt;br /&gt;Eu comecei-o em Abril,&lt;br /&gt;E nestas manhãs radiosas.&lt;br /&gt;Sob uma moita de rosas&lt;br /&gt;Semelha um berço infantil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma Borboleta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maio, bom dia; obrigada&lt;br /&gt;Vim-me à procura de amores.&lt;br /&gt;Acordei-me alvoroçada&lt;br /&gt;Para dizer-te, – obrigada!&lt;br /&gt;E vou-me a rir com as flores.&lt;br /&gt;Deixei um cravo sonhando&lt;br /&gt;Com as minhas asas e vim&lt;br /&gt;De seio em seio pousando.&lt;br /&gt;E o pobre cravo sonhando&lt;br /&gt;Definha a esperar por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Vento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje levantei-me cedo&lt;br /&gt;E vim pelos campos fora&lt;br /&gt;A desgrenhar o arvoredo.&lt;br /&gt;Hoje vim cedo, mais cedo,&lt;br /&gt;Muito mais cedo que a aurora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um Canário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz o leito à minha amada&lt;br /&gt;Do pólen casto das flores;&lt;br /&gt;Numa pétala nevada&lt;br /&gt;Fiz o leito à minha amada,&lt;br /&gt;O leito dos meus amores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantando a minha ventura&lt;br /&gt;Fui pelas sebes cheirosas&lt;br /&gt;Varei o azul desta altura&lt;br /&gt;Cantando a minha ventura&lt;br /&gt;Em canções deliciosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As Flores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ventos de longes paragens&lt;br /&gt;Cheios de sons matinais;&lt;br /&gt;Que viste em tuas viagens&lt;br /&gt;Por essas longes paragens?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Vento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Idílios e madrigais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AMOR! AMOR!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá vem o dia&lt;br /&gt;Abrindo os olhos;&lt;br /&gt;Olha e só vê flores aos molhos&lt;br /&gt;E alegria!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canções maviosas&lt;br /&gt;Em cada galho,&lt;br /&gt;Pérolas as per'las do orvalho,&lt;br /&gt;Tremem nas rosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ressoa um canto;&lt;br /&gt;Ressoam trinos:&lt;br /&gt;São as aves: estão como meninos&lt;br /&gt;Em dia santo.&lt;br /&gt;O campo inteiro,&lt;br /&gt;A relva toda;&lt;br /&gt;Até o vento anda de roda,&lt;br /&gt;Que brejeiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O riacho, o rio,&lt;br /&gt;O próprio mar&lt;br /&gt;Se aqui estivesse ia cantar&lt;br /&gt;Como um vadio,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora nós;&lt;br /&gt;Olha este céu:&lt;br /&gt;Azul como um olhar: é o teu&lt;br /&gt;Se ele tem voz!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, o céu fala&lt;br /&gt;Com a voz de Deus...&lt;br /&gt;Que cheiro é este que se exala&lt;br /&gt;Dos seios teus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguma flor?&lt;br /&gt;Vê bem, procura...&lt;br /&gt;Não, é tua alma que murmura.&lt;br /&gt;Amor! Amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARA ALGUÉM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da tua boca, encarnação do Belo,&lt;br /&gt;Suspensa está minh'alma ansiosa e louca:&lt;br /&gt;Suspenso está tudo que almejo e anelo&lt;br /&gt;Da tua boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do teu sorriso cândido e suave&lt;br /&gt;Pende meu ser em ânsias, indeciso,&lt;br /&gt;Sempre que escuto o doce canto da ave&lt;br /&gt;Do teu sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do teu olhar leal um raio implora&lt;br /&gt;Minh'alma e canta quando o vê baixar,&lt;br /&gt;Pois ela vive dessa luz, Senhora,&lt;br /&gt;Do teu olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do teu amor a pérola mimosa&lt;br /&gt;Meu coração inunda de fulgor;&lt;br /&gt;Ah! dá-lhe um pouco, ó pálida formosa,&lt;br /&gt;Do teu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Ao amigo José Raulino)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Não digas que eu faço versos,&lt;br /&gt;Pois não são versos que eu faço;&lt;br /&gt;A Poesia é que eu desfaço&lt;br /&gt;Em mil bocados diversos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazer versos! Pra fazê-los&lt;br /&gt;É necessário ao artista&lt;br /&gt;Ter o sonho de conquista&lt;br /&gt;No sono dos pesadelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter por entre as urzes mestas,&lt;br /&gt;Da vida ao brutal atrito,&lt;br /&gt;A alma a olhar o infinito&lt;br /&gt;E o coração sempre em festas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter a sangüínea alegria&lt;br /&gt;Bebida no leite quente&lt;br /&gt;Que esguicha continuamente&lt;br /&gt;Das pomas da Fantasia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter, para prender a rima,&lt;br /&gt;Loira fagulha travessa,&lt;br /&gt;Que endoida, a passar por cima,&lt;br /&gt;A mais tranqüila cabeça,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O riso franco e heróico&lt;br /&gt;Que põe no lábio a esperança,&lt;br /&gt;O riso guerreiro, estóico,&lt;br /&gt;Ingênuo de uma criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter n'alma o perfume grato,&lt;br /&gt;Religioso da crença,&lt;br /&gt;Molhado como um regato&lt;br /&gt;A dúvida – seara imensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter, pelas noites formosas,&lt;br /&gt;Grandes urnas de esplendor,&lt;br /&gt;No peito abertas as rosas&lt;br /&gt;Lacrimejantes do amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter aspirações, delírios,&lt;br /&gt;Frêmitos de águas possantes,&lt;br /&gt;E o casto sono dos lírios,&lt;br /&gt;E a rigidez dos diamantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem não tem, porém, como eu,&lt;br /&gt;Para tecer coisas belas&lt;br /&gt;Nem o filó das estrelas&lt;br /&gt;Nem a luz e o oiro do céu;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem nem o cofre que encerra&lt;br /&gt;Recordações do Passado&lt;br /&gt;– Longínquo sonho esfumado&lt;br /&gt;Sonhado por sobre a terra –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode abrir, sem que nos ares&lt;br /&gt;Se empalhem como visões&lt;br /&gt;O fumo das ilusões&lt;br /&gt;E o veneno dos pesares:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como há de enfeitar a frase&lt;br /&gt;E o verso bordar de luz&lt;br /&gt;Cobrindo-o com a fina gaze&lt;br /&gt;Dos doces sonhos azuis?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como há de tecer, amigo,&lt;br /&gt;Coisas sutis, transparentes,&lt;br /&gt;Quem traz os olhos doentes&lt;br /&gt;De tanto chorar consigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como há de escrever, como há de&lt;br /&gt;Quem passa as noites sombrias&lt;br /&gt;No horto das agonias&lt;br /&gt;Sob o luar da saudade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso a musa dorida,&lt;br /&gt;Cheia de tédio e cansaço,&lt;br /&gt;Caiu como a águia ferida&lt;br /&gt;Revoluteando no espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sinto, mau lutador!&lt;br /&gt;Que meu ser, triste, se abisma&lt;br /&gt;Rolando de dor em dor&lt;br /&gt;No pego amargo da cisma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Meu coração, que loucura!&lt;br /&gt;Que incompreensível mistério!&lt;br /&gt;Tem mudez de cemitério&lt;br /&gt;E frio de sepultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo me sai ante os olhos&lt;br /&gt;Roxo da cor do martírio!&lt;br /&gt;Ando a passear em delírio&lt;br /&gt;Por sobre cardos e abrolhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz que em ondas espalha&lt;br /&gt;A lua – Oceano de luz –&lt;br /&gt;É grave como uma cruz,&lt;br /&gt;Branca como uma mortalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As sombras, se a noite cai,&lt;br /&gt;São mais longas e sombrias&lt;br /&gt;Que os salmos das agonias&lt;br /&gt;Ou o som pungente de um ai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendo os flocos opalinos&lt;br /&gt;Do luar, pela amplidão,&lt;br /&gt;Julgo ouvir minh'alma em hinos&lt;br /&gt;E em gritos meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próprio sol que enaltece&lt;br /&gt;A fronte azul do infinito&lt;br /&gt;Semelha um olho, parece&lt;br /&gt;Porém um olho esquisito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um olho que em si resume&lt;br /&gt;Um brilho tão coruscante&lt;br /&gt;Como o cáustico do ciúme&lt;br /&gt;No coração de um amante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Auras, aromas amenos,&lt;br /&gt;Que vêm dos campos sem fim,&lt;br /&gt;São outros tantos venenos&lt;br /&gt;Pra me envenenar a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As flores brancas e puras&lt;br /&gt;Do campo, humildes e belas,&lt;br /&gt;Eu comparo-as com donzelas&lt;br /&gt;Porém... donzelas perjuras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, quanta ave sequiosa,&lt;br /&gt;Em sequioso desvario,&lt;br /&gt;Procura o cálix da rosa&lt;br /&gt;Para encontrá-lo vazio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com que sereno vigor&lt;br /&gt;As pombas tecem os ninhos,&lt;br /&gt;Doces alcovas do amor&lt;br /&gt;Saturadas de carinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom! podeis viver e amar&lt;br /&gt;Ó pombas arrulhadoras,&lt;br /&gt;Pois não sabeis odiar,&lt;br /&gt;Nem sabeis ser traidoras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos, inverno, despeja&lt;br /&gt;A cornucópia do frio,&lt;br /&gt;Ruge, blasfema, pragueja&lt;br /&gt;Trôpego velho sombrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Molha, molha, não descansa&lt;br /&gt;Pra ver se quando te fores&lt;br /&gt;Vêm para os campos as flores&lt;br /&gt;E para mim a esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;....................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom amigo, edifiquemos&lt;br /&gt;Castelos de oiro e de luz.&lt;br /&gt;Mas, para vê-los, voemos&lt;br /&gt;Para os espaços azuis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para só de longe vê-los,&lt;br /&gt;Longe, onde não chegue a voz...&lt;br /&gt;Para evitar que os castelos&lt;br /&gt;Desabem por sobre nós...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FLOR DE CARNE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na alva epiderme de teu corpo gira&lt;br /&gt;O sangue quente de bacante impura,&lt;br /&gt;E nessa noite horrendamente escura&lt;br /&gt;Do vício, o coração te arde e delira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora! amo-te assim, fatal criatura,&lt;br /&gt;Lasciva e bela, estéril Hetaíra;&lt;br /&gt;Em ti o gozo lúbrico suspira&lt;br /&gt;E a volúpia frenética murmura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há nos teus olhos um luar de estio...&lt;br /&gt;Quando tu passas, meu amor sombrio&lt;br /&gt;Te segue, cheio de áspero desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonho-me então vitorioso e bruto,&lt;br /&gt;Como um sátiro alegre e dissoluto&lt;br /&gt;Amarrotando a rosa de teu beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTRADIÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem vale a pena contar&lt;br /&gt;O meu profundo penar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viver de ave que doideja&lt;br /&gt;Presa dentro de uma igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois imagina, senhora,&lt;br /&gt;Que eu prefiro a noite à aurora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais: – prefiro às noites belas&lt;br /&gt;Com seu rosário de estrelas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As longas noites trevosas,&lt;br /&gt;Profundas, silenciosas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nem te cause piedade&lt;br /&gt;A minha agreste verdade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se és tu minha alegria&lt;br /&gt;E eu não te vejo de dia;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pelas noites de luar&lt;br /&gt;Nunca te posso falar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prefiro a treva sem fim&lt;br /&gt;Pois tenho-te junto a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se mais cedo me deito&lt;br /&gt;Mais te tenho junto ao peito,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para isso basta-me então&lt;br /&gt;Abrir o meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se da desgraça o açoite&lt;br /&gt;Leva a luz que me alumia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por ti, eu morro de dia&lt;br /&gt;E ressuscito de noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INQUISIÇAO MATERNA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sai jamais de ao pé da mãe.&lt;br /&gt;A passear não sai também,&lt;br /&gt;Não pode rir!&lt;br /&gt;Pobre criança, pobre menina!&lt;br /&gt;Seu coração, como a bonina,&lt;br /&gt;Procura a noite para se abrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus grandes olhos tristes e vagos,&lt;br /&gt;Como dois sóis sobre dois lagos,&lt;br /&gt;Cheios de pranto...&lt;br /&gt;Triste, serena e resignada,&lt;br /&gt;Ó pobre freira enclausurada&lt;br /&gt;Por que razão padeces tanto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amas e sofres silenciosa&lt;br /&gt;A dor ingrata e tenebrosa&lt;br /&gt;Que te lancina.&lt;br /&gt;Ó desventura inda não vista!&lt;br /&gt;– De uma alma a flor pisada a vista!&lt;br /&gt;Pobre menina, pobre menina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como de um ramo tombam as flores&lt;br /&gt;Despetaladas pelos ardores&lt;br /&gt;Do sol vibrante,&lt;br /&gt;Essa grinalda de fantasias,&lt;br /&gt;Feita de sonhos e de utopias,&lt;br /&gt;Vês-la murchar de instante a instante!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do teu amor espezinhado,&lt;br /&gt;Sonho sereno e malfadado,&lt;br /&gt;A chama existe&lt;br /&gt;Sob teu peito puro e leal&lt;br /&gt;Unida às rosas do ideal,&lt;br /&gt;Ideal de amor profundo e triste!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se à tarde chegas à janela&lt;br /&gt;Pálida e triste, pálida e bela,&lt;br /&gt;Meiga senhora,&lt;br /&gt;Trazes-me e à idéia – cativa rola,&lt;br /&gt;Presa num ramo, flor que se estiola,&lt;br /&gt;Anjo doente, anjo que chora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se nesse olhar que o teu procura&lt;br /&gt;Tua alma vais, serena e pura,&lt;br /&gt;Deixa pousar,&lt;br /&gt;Toda suspensa, trêmula toda,&lt;br /&gt;Nessa ventura que te põe douda&lt;br /&gt;Que te faz quase delirar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, como pagas essa ventura&lt;br /&gt;Por longos tragos de amargura,&lt;br /&gt;Noites de dor!&lt;br /&gt;O olhar materno – frio e profundo,&lt;br /&gt;Mostra-te a "Vida", mostra-te o "Mundo"&lt;br /&gt;E amaldiçoa o teu amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu muita vez penso que Deus&lt;br /&gt;A casta auréola dos anjos seus&lt;br /&gt;Fez desse pranto,&lt;br /&gt;Fez dessa mágoa, fez dessa Dor,&lt;br /&gt;Do sofrimento pelo amor&lt;br /&gt;Que é dentre todos o mais santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por cada lágrima que desce&lt;br /&gt;Dos olhos teus, sobe uma prece&lt;br /&gt;Para Jesus,&lt;br /&gt;Prece sentida, prece magoada,&lt;br /&gt;Que a Virgem toma ajoelhada&lt;br /&gt;Para depô-la aos pés da Cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A UMA NOIVA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Magoada flor que vais ao ergástulo frio&lt;br /&gt;De um leito sem amor o coração levar!&lt;br /&gt;– Folha, quem te atirou à corrente do rio?&lt;br /&gt;– Concha, quem te prendeu ao rochedo do mar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tua grinalda tem laivos de pranto ardente,&lt;br /&gt;Na gaze de teu véu ondula a ânsia queixosa,&lt;br /&gt;E tu vais para o altar desesperadamente&lt;br /&gt;– Fantasma de mulher, pálida, silenciosa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atraiçoas o amor – lírio magoado e débil –&lt;br /&gt;E a harpa eólia do peito as cordas arrancando,&lt;br /&gt;Quem lhe ouvirá, morrendo, o angil murmúrio flébil,&lt;br /&gt;Que de alma em alma vai como um sino dobrando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em teu olhar pervaga a sombra do Passado,&lt;br /&gt;E o teu lábio sorri triste, saudosamente!&lt;br /&gt;Diamante sem fulgor! Bogari desfolhado!&lt;br /&gt;Nuvem que se inflamou ao roçar no poente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha em redor de ti, perscruta, inquire, chama&lt;br /&gt;O sonho que nimbou tua fronte de criança;&lt;br /&gt;Essa ilusão azul, essa doirada trama&lt;br /&gt;Onde dentro vogava o batel da Esperança!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não mais! poreje embora a tua azul pupila&lt;br /&gt;O pranto – a diluição de teu martírio atroz –&lt;br /&gt;Tira o teu coração do sepulcro que o asila&lt;br /&gt;Que ele só te ouvirá a endolorida voz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Converteste o rosal de tua mocidade&lt;br /&gt;Num campo-santo aonde, ansiosa e dolente,&lt;br /&gt;Na árvore tranqüila e mesta da saudade&lt;br /&gt;Pia a estrige da Dor, triste, agoirentamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos teus anos a flor mudas em goivo amargo,&lt;br /&gt;Num adeus sepulcral foges da Primavera;&lt;br /&gt;Nem um sonho a enfeitar o paul do letargo!&lt;br /&gt;– Deserto sem a sombra amiga da Quimera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que deixaste assim acorrentado e exangue&lt;br /&gt;Teu coração subir à forca do Egoísmo?&lt;br /&gt;Que é de tua vontade? O que fizeste ao sangue&lt;br /&gt;E às tuas asas d'anjo em frente deste abismo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha, apesar do gelo amargo da Descrença&lt;br /&gt;Meu coração é bom e compassivo quando&lt;br /&gt;Vejo a noite da Dor tragando a alva da Crença&lt;br /&gt;E o golfão da Desgraça um coração tragando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó moribunda flor! martirizado lírio&lt;br /&gt;Que a tristeza fatal funebremente engoiva,&lt;br /&gt;A flor da laranjeira é o teu maior martírio&lt;br /&gt;E a Lágrima há de ser o teu sendal de noiva!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DOLOROSA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu perpassaste dentro do meu sonho&lt;br /&gt;Branca e sentida como o luar de Agosto;&lt;br /&gt;Tinhas na voz um cântico tristonho&lt;br /&gt;E uma tristeza de Ângelus no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que essa sombra eterna de desgosto&lt;br /&gt;Te agasalhando o amor que, alto e risonho,&lt;br /&gt;Devera voar, bem longe do medonho&lt;br /&gt;Cairel da dor, ó rosa do sol-posto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em teus olhos dolentes e magoados&lt;br /&gt;Havia a dor dos sonhos lacerados&lt;br /&gt;E um ar profundo de desolação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que teu coração ia morrendo&lt;br /&gt;Como uma margarida emurchecendo&lt;br /&gt;Num crepúsculo triste de verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SIMPLES DESEJO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu, morto, um dia, quando&lt;br /&gt;Tu fores ao meu jazigo,&lt;br /&gt;Tu que amei, passa cantando&lt;br /&gt;Sobre quem sonhou contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pise a terra do sepulcro&lt;br /&gt;Onde eu repouse, teu pé;&lt;br /&gt;E ria teu lábio pulcro&lt;br /&gt;Como quem sente e não vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não magoes as mãos de neve&lt;br /&gt;Plantando lírios e rosas:&lt;br /&gt;Passam as flores em breve&lt;br /&gt;Como as inscrições das lousas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canta e ri. Bênçãos, piedades&lt;br /&gt;Tenham teu riso e teu canto:&lt;br /&gt;Riso – piedade do Pranto,&lt;br /&gt;Canto – choro das saudades!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROMÂNTICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu conheci em tempos idos&lt;br /&gt;Um bom rapaz, modesto e nobre,&lt;br /&gt;D'olhos leais e refletidos,&lt;br /&gt;Um nada ingênuo e um nada pobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amigo certo: na hora extrema&lt;br /&gt;Entre as procelas do perigo,&lt;br /&gt;Ele mostrava o oiro, a gema&lt;br /&gt;Do coração de um bom amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sóbrio e robusto como um cedro,&lt;br /&gt;Tinha a altivez de uma alma honesta,&lt;br /&gt;Nunca negou como S. Pedro&lt;br /&gt;Na hora trágica e funesta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo naquela construção&lt;br /&gt;Era de boa qualidade:&lt;br /&gt;O verbo, o pulso, o coração,&lt;br /&gt;Até a própria ingenuidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre pacífico e tranqüilo&lt;br /&gt;Nunca passou além da meta;&lt;br /&gt;E até possuía um bom estilo&lt;br /&gt;E inspirações de um bom poeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis se não quando o ambiente cálido&lt;br /&gt;Tolda-se a esse independente,&lt;br /&gt;À cor fatal de um rosto pálido&lt;br /&gt;E ao fogo de um olhar ardente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dera-se o caso que eu lastimo&lt;br /&gt;Um caso ser dos mais triviais:&lt;br /&gt;Vira uma moça, um beijo, um mimo,&lt;br /&gt;E apaixonou-se, nada mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente o bom e heróico moço&lt;br /&gt;Pôs-se a construir casas no ar;&lt;br /&gt;Cada castelo era um colosso&lt;br /&gt;Que ninguém pode imaginar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Balcões abertos ao luar&lt;br /&gt;Com madressilvas e jasmins,&lt;br /&gt;Até escadas para trepar&lt;br /&gt;Feitas de seda... e bandolins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantos projetos ideais&lt;br /&gt;Como de vagas tem o Atlântico,&lt;br /&gt;Pois o infeliz, além do mais,&lt;br /&gt;Trágico fim! Fez-se romântico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passava as noites ao relento&lt;br /&gt;Com os olhos fitos na janela&lt;br /&gt;Aonde apenas um momento&lt;br /&gt;Tomava o fresco a sua bela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto os outros mais felizes&lt;br /&gt;Tinham palestras animadas&lt;br /&gt;Com ela, o rei dos infelizes&lt;br /&gt;Cantava ao luar canções magoadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julgou-se nobre e grande e belo&lt;br /&gt;(O que fazia a tal escola!)&lt;br /&gt;Que aparelhou-se de um cutelo&lt;br /&gt;E usava capa à espanhola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim o grande desgraçado&lt;br /&gt;Tantas asneiras praticou,&lt;br /&gt;Até que enfim viu-se arruinado&lt;br /&gt;Como um navio que encalhou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando a moça, há muito farta&lt;br /&gt;Já de aturá-lo, foi casar-se,&lt;br /&gt;Ele enviou-lhe numa carta:&lt;br /&gt;A maldição pra suicidar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém num ímpeto leonino,&lt;br /&gt;Resto de orgulho, inda arrancou-se&lt;br /&gt;À garra adunca do destino&lt;br /&gt;Que tanto tempo atado o trouxe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! quis viver para ser homem!&lt;br /&gt;Mas, tanto olhava e suspirava&lt;br /&gt;Que novas mágoas o consomem&lt;br /&gt;Vendo-se vivo com tal cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois o infeliz que se viu salvo&lt;br /&gt;Do romantismo ao vírus rábico&lt;br /&gt;Viu que ficou, além de calvo,&lt;br /&gt;Com a boca torta e o olhar estrábico...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BOA VIAGEM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Eduardo Sabóia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alonga a tua vista, olha, perscruta&lt;br /&gt;A aquosa solidão que se distende,&lt;br /&gt;Sagrada, misteriosa, álgida e bruta,&lt;br /&gt;E, pensativo, atende.&lt;br /&gt;Afla ao vento marinho a vela túmida,&lt;br /&gt;Sobre o dorso da vaga o barco voa,&lt;br /&gt;Sacode o oceano a cabeleira úmida&lt;br /&gt;Sob a cortante proa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das desoladas, pensativas plagas&lt;br /&gt;Do ar se eleva um coro d'ais, errante!&lt;br /&gt;É a dolorosa súplica das vagas&lt;br /&gt;À luz agonizante.&lt;br /&gt;Morre na umbela extrema do Ocidente&lt;br /&gt;O sol – rosa de fogo em campo raso –&lt;br /&gt;Vaga a saudade no ar fluidicamente...&lt;br /&gt;É o ocaso! o ocaso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o barco foge e a noite se aproxima,&lt;br /&gt;Sinistra o envolve, ó noite atra dos mares!&lt;br /&gt;Como que se une o pesar de cima&lt;br /&gt;Com os nossos pesares.&lt;br /&gt;E quem te embalará, viajante pálido,&lt;br /&gt;O sonho tardo que a saudade instila,&lt;br /&gt;Quando o sono fechar-te ao sopro cálido&lt;br /&gt;A lânguida pupila?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando o luar na espuma lactescente&lt;br /&gt;Seus reflexos lançar, trêmulos, baços,&lt;br /&gt;E a tua alma chorar, quem, docemente,&lt;br /&gt;Há de estender-te os braços?&lt;br /&gt;Ninguém! Família, amor deixaste e vais,&lt;br /&gt;O rosário desfiando das saudades,&lt;br /&gt;Em busca de remotos ideais,&lt;br /&gt;Longínquas claridades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que de teu lar a imagem te proteja,&lt;br /&gt;Cantando o poema das recordações,&lt;br /&gt;Nessa cruenta, intérmina peleja&lt;br /&gt;Das nobres ambições;&lt;br /&gt;Que te perfume a adolescência forte&lt;br /&gt;A saudade santíssima dos teus:&lt;br /&gt;No frio sul lembra o calor do Norte...&lt;br /&gt;Boa viagem, meu amigo, adeus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VERSOS A ESTELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tua voz revela&lt;br /&gt;Tanta doçura e amor&lt;br /&gt;No carinhoso acento!...&lt;br /&gt;Ouvindo-a eu sinto, Estela,&lt;br /&gt;Tornar-se gozo a dor&lt;br /&gt;E em gozo o sofrimento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o teu sorriso honesto&lt;br /&gt;E luminoso e branco,&lt;br /&gt;De uma doçura ideal,&lt;br /&gt;Ouvindo-o esqueço e arranco&lt;br /&gt;O meu pesar funesto&lt;br /&gt;E a minha dor fatal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a tua mão, Estela,&lt;br /&gt;Em minhas mãos se esquece&lt;br /&gt;Em doce devaneio;&lt;br /&gt;Sendo eu possuidor dela&lt;br /&gt;Sinto um dulçor de prece&lt;br /&gt;A me invadir o seio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que essa mão pequena,&lt;br /&gt;–A mão de uma criança,&lt;br /&gt;–A mão de uma donzela,&lt;br /&gt;Parece uma açucena&lt;br /&gt;Trazendo uma esperança&lt;br /&gt;Mandada de uma estrela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha vida louca&lt;br /&gt;Eis, se resume nisto,&lt;br /&gt;Meu doce paraíso!&lt;br /&gt;Meu livro é tua boca,&lt;br /&gt;E tu és o meu Cristo,&lt;br /&gt;E a hóstia um teu sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na pira imaculada&lt;br /&gt;Do teu olhar de luz,&lt;br /&gt;Feito de amor e paz;&lt;br /&gt;Uma alma mergulhada&lt;br /&gt;Tornara-se Jesus&lt;br /&gt;Depois de ser Caifás!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o teu olhar de calma&lt;br /&gt;E luz pura e suave&lt;br /&gt;Me envolve num clarão:&lt;br /&gt;Eu sinto que em minh'alma&lt;br /&gt;Se estende, etéreo e grave,&lt;br /&gt;Um pálio de perdão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que essa luz bendita&lt;br /&gt;– A luz aveludada&lt;br /&gt;De teu celeste olhar,&lt;br /&gt;Me deixa n'alma aflita&lt;br /&gt;Um raio de alvorada&lt;br /&gt;E um raio de luar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que teu casto olhar&lt;br /&gt;É tão suave e são,&lt;br /&gt;Feito de amor e calma,&lt;br /&gt;Que até faz rebentar&lt;br /&gt;Rosais no coração&lt;br /&gt;E lírios dentro d'alma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OLHA-ME&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa meiguice imaculada&lt;br /&gt;De teu olhar, pomba adorada,&lt;br /&gt;Há a luz virgínea da alvorada&lt;br /&gt;E o arminho tenro do luar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cálix de flor, frouxel de ninho,&lt;br /&gt;A maciez casta do linho,&lt;br /&gt;Toda a ambrosia do carinho&lt;br /&gt;Destila a luz do teu olhar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha ideal aspiração!&lt;br /&gt;Meu sonho azul, minha ilusão,&lt;br /&gt;Onde eu descanso o coração&lt;br /&gt;Como uma hóstia num altar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casta, gentil, piedosa e mansa&lt;br /&gt;Tua alma de anjo ri d'esp'rança,&lt;br /&gt;Ó virginal, meiga criança,&lt;br /&gt;Olha-me e deixa-me sonhar!&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;EXTRAVIADO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Vens pálido, vens triste, vens cansado,&lt;br /&gt;Podes entrar, assenta-te, descansa!&lt;br /&gt;Que noite! Tanto frio! Vens molhado?&lt;br /&gt;Aquece-te ao meu lar, pobre criança!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por onde andaste? – Longe. – Extraviado&lt;br /&gt;Vim de um país remoto na esperança&lt;br /&gt;De encontrar da ventura (desgraçado!)&lt;br /&gt;A ilha loira, transparente e mansa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi da desgraça o lúgubre cairel;&lt;br /&gt;Fui náufrago no oceano das paixões&lt;br /&gt;E o que existe sofri de mais cruel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui pó na asa veloz dos turbilhões...&lt;br /&gt;E...? Trago o coração cheio de fel&lt;br /&gt;E a cabeça vazia de ilusões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Pois eu jamais saí do meu país;&lt;br /&gt;Foi remansosa a minha mocidade,&lt;br /&gt;Inda hoje o mundo diz que sou feliz,&lt;br /&gt;Que outro não há como eu na minha idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive pendências, inimigos vis,&lt;br /&gt;Gostei do céu, da luz, da liberdade,&lt;br /&gt;Tive auroras de sonhos juvenis,&lt;br /&gt;E crepúsculos tristes de saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca choraste? Quando amei. - E agora?&lt;br /&gt;Choro porque a perdi!... – E és venturoso,&lt;br /&gt;Quando o pesar e a raiva te devora!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais do que tu, misérrimo inditoso,&lt;br /&gt;Pois molha o pranto que minh'alma chora&lt;br /&gt;As cinzas quentes dó passado gozo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LITANIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Que vida esta amarga e treda,&lt;br /&gt;Que desabar! que terremoto!&lt;br /&gt;Que fim brutal! que horrível queda!&lt;br /&gt;Que vida esta amarga e treda!&lt;br /&gt;Missal do sonho aos ventos roto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Neves do inverno da agonia!&lt;br /&gt;Folhas do outono da amargura!...&lt;br /&gt;Em noite fria, em noite fria, –&lt;br /&gt;Neves do inverno da agonia,&lt;br /&gt;Caí na minha sepultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;Imensas órbitas sequiosas&lt;br /&gt;Do coração, ensangüentadas,&lt;br /&gt;Vazios cálices de rosas,&lt;br /&gt;Imensas órbitas sequiosas&lt;br /&gt;Famintas sempre, insaciadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;Fauces de abismo, amplas crateras&lt;br /&gt;Escancaradas a esperar&lt;br /&gt;A lava rubra das quimeras...&lt;br /&gt;Fauces de abismo, amplas crateras,&lt;br /&gt;Não vos enchera o próprio mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;Lírios magoados da saudade,&lt;br /&gt;Violetas roxas da tristeza,&lt;br /&gt;Crescei sem luz, sem claridade,&lt;br /&gt;Lírios magoados da saudade,&lt;br /&gt;Sob as lufadas da Incerteza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;Ânsias de amor, adejos místicos&lt;br /&gt;Ó veleidades de ideal!&lt;br /&gt;Na treva um dedo traça dísticos...&lt;br /&gt;Ânsias de amor, adejos místicos,&lt;br /&gt;Parai, sofreai a ânsia fatal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;Ó meus castelos senhoris&lt;br /&gt;Ao luar do amor edificados!&lt;br /&gt;Tanto vos quis! Tanto vos quis!&lt;br /&gt;E os meus castelos senhoris&lt;br /&gt;Ei-los por terra, ei-los tombados!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;REFÚGIO ETERNO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois que a vida é um sonho à-toa&lt;br /&gt;Pelo deserto do mundo,&lt;br /&gt;Árido, triste, infecundo,&lt;br /&gt;Onde a alma cansada voa;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois que da alegria imensa&lt;br /&gt;– Herança do nosso berço –&lt;br /&gt;Fica o amargor da descrença,&lt;br /&gt;Sombra do nosso Universo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois que o lábio que Deus fez&lt;br /&gt;Para a alvorada do beijo&lt;br /&gt;Tisna a mentira, e a tez&lt;br /&gt;Exibe o impudor e o pejo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se a mão que nos afaga&lt;br /&gt;Hoje, amanhã nos açouta,&lt;br /&gt;E a idéia é como uma vaga,&lt;br /&gt;E o crânio uma vela rota;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se a noite da traição&lt;br /&gt;De trevas horrendas, mudas,&lt;br /&gt;Ri-se de Cristo e Catão&lt;br /&gt;E elege um tirano: Judas;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se Deus, o eterno sábio,&lt;br /&gt;Permite (que enigma atroz!)&lt;br /&gt;Que a idéia morra no lábio&lt;br /&gt;Como a verdade na voz;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tudo tomba, naufraga,&lt;br /&gt;Da vida nos vagalhões;&lt;br /&gt;E a espuma desfaz a vaga,&lt;br /&gt;E as dores as ilusões,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se nesta maré maldita,&lt;br /&gt;A alma – concha de luz –&lt;br /&gt;Mal pode pálida e aflita&lt;br /&gt;Buscar o farol da Cruz;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tudo mente, atraiçoa&lt;br /&gt;Aqui, se tudo é mentira,&lt;br /&gt;Poeta! abraça-te à lira,&lt;br /&gt;Alma – abre as asas e voa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rasgas das nuvens o véu&lt;br /&gt;Corta o Oceano do azul,&lt;br /&gt;E vai, andorinha exul,&lt;br /&gt;Fazer teu ninho no céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PERDÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdão! alma de flor mimosa e pura,&lt;br /&gt;Dilacerada pelo sofrimento!&lt;br /&gt;Perdão, meiga e radiosa criatura,&lt;br /&gt;Por tua mágoa, pelo meu tormento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdão! e a minha voz endolorida&lt;br /&gt;Suba como uma prece a ti, perdão!&lt;br /&gt;Num lamento de alcíone perdida&lt;br /&gt;De longes mares pela solidão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meiga senhora pálida e mimosa,&lt;br /&gt;Meu verso chora dolorosamente,&lt;br /&gt;Como a queixa sentida de uma rosa&lt;br /&gt;Ao sol que a queima rúbido e fremente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amor que soluça ajoelha e eleva&lt;br /&gt;Para ti esta súplica: Perdão!&lt;br /&gt;Treno que passa e vai de treva em treva&lt;br /&gt;Rolar de coração em coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COM AS ANDORINHAS&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Adeus! dizem-te adeus minha tristeza&lt;br /&gt;E a minha mágoa, o meu isolamento;&lt;br /&gt;Porém minh'alma não; meu pensamento&lt;br /&gt;Não e não! minha cândida princesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mundo cruzo a túrbida devesa&lt;br /&gt;Cheia de cardos, cheia de tormento,&lt;br /&gt;Resignado? Eu sei? no esquecimento&lt;br /&gt;Talvez, talvez lutando na incerteza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vão-se no outono as andorinhas pretas,&lt;br /&gt;Canta a saudade mística dos Poetas&lt;br /&gt;Eternas loas, doloridos poemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nestas notas a esperança ecoa...&lt;br /&gt;Adeus? Pois bem: adeus! porém perdoa&lt;br /&gt;Se eu te não choro as lágrimas extremas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Hás de vir, hás de vir, bem sei que há de&lt;br /&gt;Tua presença minha dor calmar;&lt;br /&gt;E hás de minh'alma aflita ver flutuar&lt;br /&gt;Por entre as sombras que a tua alma invade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Asa ao meu verso dando a ansiedade,&lt;br /&gt;E o amor a força indômita do mar,&lt;br /&gt;Continuamente ela há de te encontrar&lt;br /&gt;Sob a alameda umbrosa da saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Velhos castelos ficam no abandono,&lt;br /&gt;Como às rajadas ásperas do outono&lt;br /&gt;Viúvo jardim de folhas amarelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas volta a primavera, a vida, o amor...&lt;br /&gt;Voltam as andorinhas: vem com elas!&lt;br /&gt;Mata a tua saudade e a minha dor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTURNO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por estas horas da noite,&lt;br /&gt;Lentas e misteriosas,&lt;br /&gt;Quando dos ventos o açoite&lt;br /&gt;Arranca um frêmito às rosas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E. pensativas, as almas&lt;br /&gt;Se elevam, calmas, piedosas,&lt;br /&gt;Ao sonho, piedosas, calmas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do crisol das fantasias&lt;br /&gt;Sobem átomos risonhos:&lt;br /&gt;As pombas das utopias,&lt;br /&gt;As andorinhas dos sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amor! amor! Se despertas&lt;br /&gt;Doiram-se os cimos medonhos&lt;br /&gt;Das penedias desertas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Velhos amores murmuram&lt;br /&gt;Dentro do meu coração;&lt;br /&gt;São almas presas, procuram&lt;br /&gt;Ao luar a redenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vão (constância que admiro!)&lt;br /&gt;Do sonho à recordação&lt;br /&gt;E da saudade ao suspiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus a suprema coragem&lt;br /&gt;Uniu à suprema dor:&lt;br /&gt;Dá-me heroísmo a sua imagem:&lt;br /&gt;Mas, mata-me o seu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a alma de luta em luta&lt;br /&gt;Morre de horror em horror&lt;br /&gt;E de cicuta em cicuta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Velhos amores! Estrela&lt;br /&gt;Das brumas do meu passado!&lt;br /&gt;Brilha na sombra o olhar dela&lt;br /&gt;Tão nobre... mas tão magoado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cobrem nuvens a amplidão,&lt;br /&gt;Chora o mar desesperado...&lt;br /&gt;Silêncio, meu coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS CAJUEIROS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A longos haustos sorvo o aroma dos cajueiros.&lt;br /&gt;Quando menino aí passei dias inteiros&lt;br /&gt;Nessa quinta a brincar. Que júbilo! Que gosto!&lt;br /&gt;Começam a florir mal vem chegando agosto,&lt;br /&gt;De Setembro a Outubro então chegam os frutos&lt;br /&gt;Que loirejam ao sol pelos dias enxutos,&lt;br /&gt;Como pingentes d’oiro aos ramos pendurados,&lt;br /&gt;Pois são de oiro na cor e pelo sol doirados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantava-me cedo, ia ao banho e ao passar&lt;br /&gt;Levava-os para o rio onde ia me banhar.&lt;br /&gt;Manhãzinha. Passava um vento fresco e brando&lt;br /&gt;De leve, a água parada aos poucos arrepiando&lt;br /&gt;Numa carícia terna, um murmurinho vago.&lt;br /&gt;Sacudia os cajus para o meio do lago,&lt;br /&gt;E atirava-me após, nadador vigoroso,&lt;br /&gt;Mergulhando e saindo além vitorioso,&lt;br /&gt;Todo impando de orgulho e de satisfação&lt;br /&gt;Com três frutos ou mais, talvez, em cada mão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos domingos então depois do meio-dia&lt;br /&gt;Era melhor o bródio e maior a folia:&lt;br /&gt;Largava-me de casa e mais dois companheiros&lt;br /&gt;E íamos a rir à sombra dos cajueiros,&lt;br /&gt;Com muitíssima dor dos verdes periquitos&lt;br /&gt;Que fugiam gritando, ouvindo os nossos gritos.&lt;br /&gt;Tinia o sol varando a ramaria densa;&lt;br /&gt;E na calma viril daquela paz imensa&lt;br /&gt;Nos ninhos entre a cerca as pardas rolas bravas&lt;br /&gt;Cantavam docemente as canções sem palavras.&lt;br /&gt;Tranqüilo àquela hora, entre altas ribanceiras&lt;br /&gt;Dormia o rio à sesta, e as velhas lavadeiras&lt;br /&gt;Com seus chapéus de palha a resguardar-lhe o ardor&lt;br /&gt;Do sol, iam botando a roupa ao corador.&lt;br /&gt;Atravessando o rio a ponte negra estava,&lt;br /&gt;E, de longe observada, às vezes, semelhava&lt;br /&gt;Com seus varões de ferro esguios, o esqueleto&lt;br /&gt;De algum animal antigo, estranho, absoleto,&lt;br /&gt;Onde o vento encanando às vezes, arrancava&lt;br /&gt;Sons de ferro, cruéis, de uma plangência brava.&lt;br /&gt;E entre os pios de rola e o soluçar das fontes&lt;br /&gt;Encobrindo a nudez dos calvos horizontes,&lt;br /&gt;O cajueiral ondeava as comas triunfais,&lt;br /&gt;Transudando do seio aromas virginais.&lt;br /&gt;Às vezes a rajada áspera vinha, e então&lt;br /&gt;De frutos de oiro ao sol se estrelejava o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas árvores são minhas velhas amigas;&lt;br /&gt;Têm já fora do solo as raízes antigas,&lt;br /&gt;E dos troncos senis corre a resina, qual&lt;br /&gt;Pranto eterno a correr de eterno lacrimal.&lt;br /&gt;Algumas sem vigor, sem seiva, os galhos nus,&lt;br /&gt;Elevam, espectrais, a fronte para a luz&lt;br /&gt;Inclemente do sol. D’outras só resta o tronco&lt;br /&gt;Lascado pelo raio, estéril, seco, bronco;&lt;br /&gt;Àquela falta um galho e pende para a terra&lt;br /&gt;Como um velho soldado inválido da guerra.&lt;br /&gt;Algumas são assim como avezinhas trêmulas,&lt;br /&gt;Deixando-se passar pelas mais novas, êmulas&lt;br /&gt;Já de sua passada opulência fecunda.&lt;br /&gt;E o sol que a viu nascer, frutificar, inunda&lt;br /&gt;De luz a árvore nova e a árvore velha deixa&lt;br /&gt;E ela morre a sorrir, como os avós: sem queixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje quando visito a velha quinta, lembro&lt;br /&gt;O que gozava aí pelo mês de setembro,&lt;br /&gt;Das manhãs joviais desse passado caro&lt;br /&gt;E contemplo-as com dor e pensativo paro&lt;br /&gt;Sob essa ramaria, eternamente verde,&lt;br /&gt;Onde a vista saciada, indecisa, se perde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto ouvindo do rio o murmurio brando&lt;br /&gt;Das margens pela sombra idílios murmurando&lt;br /&gt;As endechas do vento, o rumor da folhagem.&lt;br /&gt;Das rolas as canções na cerca junto à margem,&lt;br /&gt;E no fundo esfumado e triste do horizonte&lt;br /&gt;O perfil esquisito e válido da ponte:&lt;br /&gt;A longos haustos sorvo o aroma dos cajueiros&lt;br /&gt;E sinto a nostalgia atroz dos forasteiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;ALFREDO PEIXOTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela escada de sonhos da Poesia&lt;br /&gt;Tu te elevaste ao paraíso da Arte;&lt;br /&gt;E a asa serena e branca da alegria&lt;br /&gt;Suavizou-te a dor por toda a parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Águia do verso! pelo espaço afora&lt;br /&gt;Ias, serena e boa e gloriosa,&lt;br /&gt;E a alma de Poeta cândida e sonora&lt;br /&gt;Diluías na Rima vitoriosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foste ao seio profundo do oceano&lt;br /&gt;Coroar-te de algas, de corais,&lt;br /&gt;Não sucumbiste, artista soberano,&lt;br /&gt;Não morreste, descansas, nada mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas teu descanso, que é o descanso eterno,&lt;br /&gt;Causa-nos mágoa e causa-nos pesar,&lt;br /&gt;Pois nunca mais na lira há de vibrar&lt;br /&gt;Teu coração melodioso e terno...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os que te vêem a lira emudecida,&lt;br /&gt;Os que sabem sentir como sentiste,&lt;br /&gt;Para os quais tua súbita partida&lt;br /&gt;Foi um adeus imensamente triste,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vão a chorar em bando e em romaria&lt;br /&gt;Pela triste Avenida da Saudade,&lt;br /&gt;De tua mente o lírio da Poesia&lt;br /&gt;E de tua alma a rosa da Bondade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O VELHO DO MAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o negro rochedo escalvado e medonho,&lt;br /&gt;Pendente sobre o mar,&lt;br /&gt;A alma toda no olhar e todo o olhar em sonho,&lt;br /&gt;Longinquamente a olhar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um braço escarnado, ameaçador, menaz,&lt;br /&gt;A praia triste e baça,&lt;br /&gt;Ele o filho do mar, o pescador audaz,&lt;br /&gt;Alonga a vista escassa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agitam do úmido vento as marinhas arfagens&lt;br /&gt;Os cabelos do velho:&lt;br /&gt;Neves que o tempo pôs, em contínuas romagens,&lt;br /&gt;Num poente vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como frechas de dor a trespassar em cheio&lt;br /&gt;Piedosos corações,&lt;br /&gt;A tristeza da tarde aninha-se no seio&lt;br /&gt;Das glaucas solidões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espalmadas ao vento humilde as brancas asas,&lt;br /&gt;As gaivotas esguias&lt;br /&gt;Peneiram sobre o mar; e no Ocidente em brasas&lt;br /&gt;Há rubras agonias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morre o sol, rola o sol vertiginosamente,&lt;br /&gt;Navio que se perde&lt;br /&gt;E mergulha do mar, às sombras do poente,&lt;br /&gt;No imenso lençol verde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o barrete frígio a calva austera, aguarda&lt;br /&gt;O velho pescador&lt;br /&gt;Debruçado na rocha a noite que não tarda&lt;br /&gt;Cheia de paz e amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enche a maré, vaza a maré, e mudo, fica&lt;br /&gt;Ansioso, o vácuo a olhar&lt;br /&gt;O velho, e o que ele quer seu lábio não explica,&lt;br /&gt;Ninguém o ouve falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase coberta peja rocha onde ele espera&lt;br /&gt;Abriga-se uma casa,&lt;br /&gt;Porta fechada e o ar mudo de uma tapera,&lt;br /&gt;Ninho sem ter uma asa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As paredes senis o limo verde cobre,&lt;br /&gt;E a salsugem do mar&lt;br /&gt;Esfria-a e beija-a como os ombros vis de um pobre&lt;br /&gt;A neblina do ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o velho alonga a vista; espraia-a pela triste&lt;br /&gt;Solidão do oceano;&lt;br /&gt;Nem um bote que oponha ao vento a vela em riste&lt;br /&gt;Sobre o profundo arcano!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes sobre aquele agitado lençol&lt;br /&gt;Resvala uma asa ansiosa,&lt;br /&gt;Se avermelha no ar pelo sangue do sol&lt;br /&gt;E foge vertiginosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele espera, ele espera a filha que não volta&lt;br /&gt;Na imensidão deserta&lt;br /&gt;Cravada a vista, e a alma em desespero envolta&lt;br /&gt;Alucinada, incerta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D'antes era feliz; dessa paixão primeira,&lt;br /&gt;Único amor que teve,&lt;br /&gt;Ficou-lhe a filha, e a vida exausta de canseira&lt;br /&gt;Era-lhe quase leve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De altos mastros e aberta ao vento a grande vela,&lt;br /&gt;Na tranqüila enseada&lt;br /&gt;Entra um navio estranho: era uma caravela&lt;br /&gt;Que ali veio arribada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E um dia, ao levantar o ferro, do estrangeiro&lt;br /&gt;O destino seguindo&lt;br /&gt;Foi-se-lhe a filha, o beijo ansioso e derradeiro&lt;br /&gt;Da que morreu sorrindo.&lt;br /&gt;..................................................................................&lt;br /&gt;Morre o sol. Chega a noite. A água dorme tranqüila.&lt;br /&gt;Ele acordado espera,&lt;br /&gt;Se olha o céu julga ver o azul de uma pupila&lt;br /&gt;E ao longe uma galera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESCRAVO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canta, escravo! murmure a tua guzla escrava&lt;br /&gt;Em plangências sutis, risos, consolações;&lt;br /&gt;Canta qual no espinheiro à tarde a rola brava;&lt;br /&gt;Unja o teu lábio o mel de ignotas canções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Homem se ajoelhou; nas cordas de oiro os dedos&lt;br /&gt;Roça de manso, a medo e a harmonia golfou,&lt;br /&gt;Golpeada de martírio e cheia de segredos:&lt;br /&gt;Dúlia estranha de amor a que o escravo tocou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu canto faz-me mal. Pára, escravo, começa&lt;br /&gt;Outro canto de glória à minha formosura;&lt;br /&gt;Como espirais de incenso ao éter arremessa&lt;br /&gt;Os frêmitos do Gozo e o êxtase da Ternura,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele cantou então um canto desvairado&lt;br /&gt;Com gemidos cruéis de lascívia selvagem!&lt;br /&gt;Era o beijo profano, o soluço angustiado&lt;br /&gt;Da Carne, num estertor profundo de voragem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Basta! Canta o amor inefável, sublime,&lt;br /&gt;Puro... Não cantarei! volve-lhe o escravo austero,&lt;br /&gt;E, para resguardar minha lira do crime...&lt;br /&gt;Quebrou-a num supremo e heróico desespero!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colérica, num gesto ameaçador e bravo,&lt;br /&gt;Com o olhar incendido, ela o Homem devora:&lt;br /&gt;Covarde! deste amor nem sabes ser escravo!...&lt;br /&gt;E deste escravo vós não sabeis ser senhora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SPLEEN&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galé da vida, vou passando os dias,&lt;br /&gt;Dias cruéis de desespero e tédio!&lt;br /&gt;E da tristeza o rancoroso assédio&lt;br /&gt;Mata-me n'alma a flor das alegrias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Spleen constante, negras vagas frias&lt;br /&gt;Da dúvida! onde um bálsamo, um remédio?&lt;br /&gt;Coração que naufraga, quem impede-o&lt;br /&gt;De se afundar no mar das agonias?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fantástico mineiro, eu desço, à noite,&lt;br /&gt;Ao fundo do meu ser, ao triste açoite&lt;br /&gt;Do vento acerbo da Desolação!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Profunda queda! perdição sombria!&lt;br /&gt;Subo chorando ao monte da Utopia&lt;br /&gt;Morta entre as ruínas do meu coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A UMAS MÃOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãos de crianças, mãos pequenas,&lt;br /&gt;Mãos que, ao pousar no teclado,&lt;br /&gt;Lembram um par d'asas nevado,&lt;br /&gt;Mais leve que as próprias penas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasce o ritmo, a harmonia&lt;br /&gt;Golfa maviosa e dolente,&lt;br /&gt;Como um chorar de anjo doente&lt;br /&gt;Aos pés da Virgem Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se as tuas mãos de alabastro,&lt;br /&gt;De arminho de neve, pousas&lt;br /&gt;No teclado, choram astros&lt;br /&gt;No céu, animam-se as cousas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corre um frêmito nas rosas,&lt;br /&gt;Acende-se o céu; soluçam&lt;br /&gt;As virações; e, curiosas,&lt;br /&gt;As estrelas se debruçam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há murmurios, dolências&lt;br /&gt;Tênues suaves devaneios;&lt;br /&gt;Brancas, doces inocências,&lt;br /&gt;Fluidos, aromas de seios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como silfos, passa no ar&lt;br /&gt;O bando das ilusões;&lt;br /&gt;E andam anjos a afinar&lt;br /&gt;As harpas dos corações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãos divinais que a miragem&lt;br /&gt;Dais-nos da luz dos caminhos:&lt;br /&gt;Rugitando com a folhagem&lt;br /&gt;E pipilando com os ninhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó dedos de arminho, quando&lt;br /&gt;Correr no teclado vejo-os,&lt;br /&gt;Que sede de ir-lhes sustando&lt;br /&gt;Os movimentos aos beijos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESTÓICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amo-te mais que a própria vida; escuta:&lt;br /&gt;Para possuir-te, para desfrutar-te&lt;br /&gt;Ó amor, teu corpo – esse delírio d'arte,&lt;br /&gt;Minh'alma ansiosa, intemerata, luta.&lt;br /&gt;O mar, o inferno, as atrações do abismo,&lt;br /&gt;A loucura do crime afrontarei!&lt;br /&gt;Mesmo o teu ódio, mesmo o teu mutismo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se eu fosse perdida?!...&lt;br /&gt;Eu matarei!&lt;br /&gt;A quem? - A ti!&lt;br /&gt;E é este o teu amor!&lt;br /&gt;Quero-te pura, poluída nunca!&lt;br /&gt;Pois bem! fiz em pedaços o pudor&lt;br /&gt;Para salvar da fome à garra adunca&lt;br /&gt;Minha mãe, minha irmã!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, nesse caso&lt;br /&gt;Eu sou o infame; insulto teu martírio!&lt;br /&gt;Morta estrela entre as nébulas do ocaso,&lt;br /&gt;Ó roxo, triste, envenenado lírio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que vais tu fazer, meu pobre amigo,&lt;br /&gt;Quando o meu crime mata a tua esperança!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu...&lt;br /&gt;– Misérrima criança!&lt;br /&gt;Meu grande amor se extinguirá comigo!&lt;br /&gt;Perdoas-me?&lt;br /&gt;Perdôo-te!&lt;br /&gt;A moça, em pranto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estende a boca súplice, sequiosa...&lt;br /&gt;Último beijo! E, lívida de espanto,&lt;br /&gt;Vê-lhe nas mãos a arma criminosa.&lt;br /&gt;Volve-lhe o moço: (a voz maviosa e doce&lt;br /&gt;Não lhe traía o imenso desespero)&lt;br /&gt;– Amei-te pura! é pura que eu te quero!&lt;br /&gt;Pura não és! adeus!...&lt;br /&gt;E apunhalou-se!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEMPOS DEPOIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, distraída, os olhos alongavas&lt;br /&gt;Sobre a Paisagem morta e áspera do outono,&lt;br /&gt;Nos longes do poente imersa, e desfolhavas&lt;br /&gt;Nos dedos uma rosa em mórbido abandono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No lábio arqueado e nobre um sorriso gelado,&lt;br /&gt;No olhar profundo e sério uma tristeza doce:&lt;br /&gt;Nesse sorriso a dor de um coração magoado&lt;br /&gt;Eu vi, e nesse olhar um sol que eclipsou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem feriu, impiedoso, a tua adolescência,&lt;br /&gt;Que mágoa borrifou os teus dezoito anos?&lt;br /&gt;Foi um espinho, flor? Foi um olfato, essência?&lt;br /&gt;– Covardia brutal dos corações humanos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempos depois lembrou-me a tarde em que te vira&lt;br /&gt;A desfolhar absorta, uma rosa, fitando&lt;br /&gt;A paisagem do outono; o outono já fugira&lt;br /&gt;E a primavera vinha os campos aloirando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando, bela e fria, o teu olhar gelado&lt;br /&gt;Deixou-me a sensação cruenta do abandono...&lt;br /&gt;A flor dos sonhos meus havias desfolhado&lt;br /&gt;Tal como a rosa outrora, a rir, ao sol do outono!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ELEGIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dorme feliz à sombra do teu nada&lt;br /&gt;.........................................................&lt;br /&gt;Cabeça heróica, ó alma desgraçada!&lt;br /&gt;JOÃO DE DEUS DO REGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de tantas, de tão cruas lutas,&lt;br /&gt;E quando as asas da felicidade&lt;br /&gt;Sobre tua alma abriam-se impolutas;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, já gasta a tua mocidade,&lt;br /&gt;Ias, enfim, gozar dessa tranqüila&lt;br /&gt;Vida de amores, de suavidade;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal entreabriste a cândida pupila&lt;br /&gt;Para esse céu! mal viste a áurea coroa&lt;br /&gt;Que te esperava ao fim dessa intranqüila&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existência de dores onde, à toa&lt;br /&gt;Tua alma ansiosa no cairel sorria&lt;br /&gt;Mártir, serena, intransigente e boa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal aspiraste a rosa da alegria!&lt;br /&gt;Viste tombar a última esperança&lt;br /&gt;Quando a barreira última caía!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tua alma triste, carinhosa e mansa,&lt;br /&gt;Cheia do fel das lágrimas supremas,&lt;br /&gt;Tinha o fulgor que a desventura alcança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coroavam-te a fronte dois diademas:&lt;br /&gt;A desgraça e o amor! e deles dois&lt;br /&gt;Fez a noite, ferindo-te, dois poemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao luar da saudade dormes pois:&lt;br /&gt;Ama-te o luar que em vida tanto amaste...&lt;br /&gt;Ó lua! Ó poeta! tão amigos sois!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tuas canções ao vento derramaste&lt;br /&gt;E agora o vento entoa-t’as, passando&lt;br /&gt;Sobre a morada eterna a que baixaste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém por ti o coração sangrando&lt;br /&gt;Sente! Descansa, desgraçado amigo,&lt;br /&gt;Que eternamente sobre o teu jazigo&lt;br /&gt;Vão esse coração e o luar chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAR DE SARGAÇOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha o Mar de sargaços. Na extensão&lt;br /&gt;Que o raio visual abarca e alcança&lt;br /&gt;Somente a fria e pálida amplidão&lt;br /&gt;Do céu destaca-se, e uma cor mais viva&lt;br /&gt;Mais colorida lança&lt;br /&gt;Naquela triste paz imota e hedionda!&lt;br /&gt;Mar sem o indício de uma vida ativa&lt;br /&gt;Sem o rumor da onda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A água embaixo das plantas não murmura,&lt;br /&gt;Não mostra a face adormecida e fria,&lt;br /&gt;Coberta toda a líquida planura&lt;br /&gt;De detritos, estende-se sombria.&lt;br /&gt;É triste o aspecto desse mar estígio:&lt;br /&gt;Acres destroços, algas, negro limo&lt;br /&gt;Podre e perpétuo sobrenada ao cimo...&lt;br /&gt;Mar sem vagas altivas, e da espuma&lt;br /&gt;Nem o menor vestígio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas sobre aquela estagnação&lt;br /&gt;As gaivotas marinhas sacudindo&lt;br /&gt;As amplas asas brancas, a soidão&lt;br /&gt;Povoam desse mar, ou construindo&lt;br /&gt;Os ninhos sobre as algas, ou fendendo&lt;br /&gt;Em longo bando os desolados ares...&lt;br /&gt;Ali não viça a flor dos nenufares&lt;br /&gt;O orvalho recebendo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tempestade bruta,&lt;br /&gt;Que as brutas asas sobre os flancos bate&lt;br /&gt;Do Oceano e o faz arfar, rugir na luta&lt;br /&gt;No tenebroso, colossal combate;&lt;br /&gt;Deste outro mar a superfície morta&lt;br /&gt;Não agita, não faz nascer-lhe a espuma,&lt;br /&gt;Que, nesse estado comatoso absorta,&lt;br /&gt;Ele assemelha-se a um lençol de bruma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta os teus olhos e olha&lt;br /&gt;Querida, para mim: lê no meu rosto&lt;br /&gt;E nos meus olhos lê, e folha a folha&lt;br /&gt;Lerás minh'alma. A foice do desgosto&lt;br /&gt;Segou cruelmente a messe dos meus sonhos!&lt;br /&gt;Lá dentro o coração&lt;br /&gt;Só tem soluços fúnebres, tristonhos!...&lt;br /&gt;Nem mais um sonho! nem uma ilusão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Umas mortas em flor, outras inertes,&lt;br /&gt;Nostálgicas estrelas dos espaços&lt;br /&gt;Caídas! Olha-as, mas não n'as despertes!&lt;br /&gt;Paz dorida e cruel de Campo-santo!&lt;br /&gt;Lacrimoso crepúsculo sagrado!&lt;br /&gt;Nem a lava do pranto&lt;br /&gt;Pode agitar este vulcão parado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhos esparsos,&lt;br /&gt;Grinaldas murchas de esperanças: mortas,&lt;br /&gt;Melancólicas, frias, absortas&lt;br /&gt;Utopias altivas! Ah, querida!&lt;br /&gt;Sem teu amor, escuta, é minha vida&lt;br /&gt;Como um mar de sargaços!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SAUDADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Ontem foi e já parece&lt;br /&gt;Que foi há tanto tempo, pobre criança!&lt;br /&gt;Que em nossos lábios se esfolhou a prece&lt;br /&gt;Tão cheia de esperança!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doira o luar as escarpas.&lt;br /&gt;Trazia o vento passando&lt;br /&gt;Sons remotíssimos d'harpas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha a brancura o luar&lt;br /&gt;De uma toalha de altar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caía o sereno frio&lt;br /&gt;No cálix roxo do lírio;&lt;br /&gt;E do relento ao martírio&lt;br /&gt;Sonhavam as açucenas&lt;br /&gt;Alvas, da alvura das penas&lt;br /&gt;Da garça triste do rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me de ti, pudera&lt;br /&gt;Meu coração desgraçado&lt;br /&gt;Dar vulto à minha quimera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha-te, santa, a meu lado.&lt;br /&gt;Ora hoje estes versos lendo&lt;br /&gt;Podes sorrir, não me importa.&lt;br /&gt;Trago minh'alma contendo&lt;br /&gt;Somente a esperança morta&lt;br /&gt;E sonhos que vão morrendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mágoas que canto ao luar,&lt;br /&gt;Queixas que desfolho ao vento&lt;br /&gt;Lá quando apraz-me cantar&lt;br /&gt;Ao relento.&lt;br /&gt;Que te dizem? Que te importa?!&lt;br /&gt;Trago minh'alma contendo&lt;br /&gt;Somente a esperança morta&lt;br /&gt;E sonhos que vão morrendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;A neve do esquecimento&lt;br /&gt;Que cai dia a dia some&lt;br /&gt;Do meu carinho a esperança,&lt;br /&gt;Como de tua lembrança&lt;br /&gt;O meu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almejo em dias remotos&lt;br /&gt;Ver-te, já quando não for&lt;br /&gt;Mais que impalpável visão&lt;br /&gt;Longínqua recordação&lt;br /&gt;Nosso amor,&lt;br /&gt;Para ver se impunemente&lt;br /&gt;Posso fitar os teus olhos,&lt;br /&gt;Como planta dolorida&lt;br /&gt;Que já de tanto ferida&lt;br /&gt;Não sente pisando abrolhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esse desejo que eu&lt;br /&gt;Guardo e o tempo não consome&lt;br /&gt;Só quando eu sentir do meu&lt;br /&gt;Peito voar a esperança&lt;br /&gt;Como de tua lembrança&lt;br /&gt;O meu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;Coração de mágoas cheio&lt;br /&gt;Por que volves ao passado?&lt;br /&gt;Guarda as saudades no seio&lt;br /&gt;O triste e nobre legado&lt;br /&gt;De teu amor, teu enleio...&lt;br /&gt;Malfadado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E acaso podem lembranças&lt;br /&gt;Amarguradas, pungentes&lt;br /&gt;Dar vida a mortas esp'ranças?&lt;br /&gt;Ah! coração! coração!&lt;br /&gt;Guarda os teus sonhos dementes!&lt;br /&gt;Evita a recordação,&lt;br /&gt;Coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saudades! roxos 1ilases&lt;br /&gt;Que ficam da primavera&lt;br /&gt;Da mocidade,&lt;br /&gt;Doce perfume esvaído&lt;br /&gt;No ambiente cálido e mudo&lt;br /&gt;Que em tudo vive e de tudo&lt;br /&gt;Faz saudade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folha no outono arrancada&lt;br /&gt;Pelo vento ao galho amigo,&lt;br /&gt;Acha na poeira da estrada&lt;br /&gt;Seu jazigo.&lt;br /&gt;Nestes versos doloridos&lt;br /&gt;Anda ninh'alma dispersa;&lt;br /&gt;Prantos, saudades, gemidos,&lt;br /&gt;(Estranha sorte adversa!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem o teu carinho amigo&lt;br /&gt;Hão de morrer no abandono,&lt;br /&gt;Dormindo ao frio relento&lt;br /&gt;Na poeira do esquecimento&lt;br /&gt;O eterno sono!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folhas caídas no outono...&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CANTARES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Foi Deus quem o azul manchando&lt;br /&gt;De lágrimas d'oiro fez&lt;br /&gt;O pranto que deslizando&lt;br /&gt;Lava e entristece-te a tez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Pois se o céu chora, tu choras&lt;br /&gt;Filha amorosa e sensível...&lt;br /&gt;Estrela! à luz das auroras&lt;br /&gt;És um soluço inaudível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;Hão de passar muitas eras&lt;br /&gt;Antes que tu, mocidade,&lt;br /&gt;O vago dessas quimeras&lt;br /&gt;Vejas tornar-se em verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;Do colar de oiro dos sonhos&lt;br /&gt;Tombam os risos e as pérolas,&lt;br /&gt;Nos sorvedoiros risonhos,&lt;br /&gt;No abismo das canções quérulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;A noite dessa incerteza&lt;br /&gt;Deploras amargamente;&lt;br /&gt;Só, no entretanto, a tristeza&lt;br /&gt;Sustenta tua alma doente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;Tu no outro tempo vivias&lt;br /&gt;Alegremente a cantar:&lt;br /&gt;É que amar tu não sabias...&lt;br /&gt;Hoje é que sabes amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;Deixa investigarem sábios&lt;br /&gt;A causa, o mal que te aflige,&lt;br /&gt;Tranca o segredo nos lábios,&lt;br /&gt;Ó pomba, e foge da estrige.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIII&lt;br /&gt;Que importa, aos doutores, males&lt;br /&gt;Que eles não podem curar?&lt;br /&gt;Querem fazer que tu fales...&lt;br /&gt;Cuidado! não vás falar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IX&lt;br /&gt;Virações das tardes mestas,&lt;br /&gt;Vagos suspiros de aragens,&lt;br /&gt;Coração, que é de tuas festas?&lt;br /&gt;Desertos, que é das miragens?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;X&lt;br /&gt;Já lá passaram os tempos!&lt;br /&gt;Hoje somente desejas&lt;br /&gt;A paz austera dos templos&lt;br /&gt;Onde esquecido tu sejas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ATRAVÉS DO SONHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cerro os olhos de noite, enquanto o sono&lt;br /&gt;Não chega, e deixo-me ficar sonhando&lt;br /&gt;Neste abstrato e lânguido abandono&lt;br /&gt;De quem com o coração vai conversando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como um triste e luminoso bando&lt;br /&gt;De garças, sob o azul de um céu de outono,&lt;br /&gt;Vão minhas utopias emigrando&lt;br /&gt;Do altar aonde o teu amor entrono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trono de flores que a ilusão colora&lt;br /&gt;Minuto por minuto, enquanto chora&lt;br /&gt;O Coração no íntimo, sentido,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aonde o teu amor mal pousa e aonde&lt;br /&gt;Minha esperança última se esconde&lt;br /&gt;Como um pássaro triste e malferido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FASES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Quando o crepúsculo invade,&lt;br /&gt;Triste e grave, os horizontes,&lt;br /&gt;Como uma mesma saudade&lt;br /&gt;Que faz vergar muitas frontes,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também, triste e grave, o horror&lt;br /&gt;Sondando do meu martírio,&lt;br /&gt;Sinto que o amor – este lírio –&lt;br /&gt;Traz este pólen – a Dor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Quando a lua desgarrada.&lt;br /&gt;– Errante floco de neve,&lt;br /&gt;Pela abóbada azulada&lt;br /&gt;Rola de leve, de leve...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, lembrando o nosso idílio,&lt;br /&gt;Tão cedo morto, querida,&lt;br /&gt;Sinto rolar minha vida&lt;br /&gt;Como a lágrima de um cílio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;Rompe a manhã: é alvorada.&lt;br /&gt;A aragem beija os rosais&lt;br /&gt;E pelo ar a revoada&lt;br /&gt;Vai das aves matinais,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim minh'alma se enflora&lt;br /&gt;E, louca, canta e sorri&lt;br /&gt;Quando os meus olhos em ti&lt;br /&gt;Se fitam, meiga senhora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONDENADO&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Sobre o estrado infamante o condenado...&lt;br /&gt;Em volta o Povo, e a soldadesca em guarda&lt;br /&gt;O cutelo a descer muito não tarda,&lt;br /&gt;Não tarda muito o instante desejado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entanto o réu, ao murmurar ansiado&lt;br /&gt;Da multidão, tirita e se acovarda&lt;br /&gt;E à turva sombra misteriosa e parda&lt;br /&gt;Da Morte se aproxima, desgraçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, quem sabe? o perdão talvez, ainda&lt;br /&gt;Chegue a tempo. Um instante mais!... infinda&lt;br /&gt;Tortura! e chora, e reza e desespera!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim meu coração por entre a bruma&lt;br /&gt;Da Dúvida vê morrer uma por uma&lt;br /&gt;As ilusões e no entretanto espera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Esperar! esperar! quando a alma chora&lt;br /&gt;E sangra o coração que se enoitece,&lt;br /&gt;E a esperança a tremer desaparece&lt;br /&gt;E não mais volta quando volta a aurora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O árabe a seguir deserto em fora&lt;br /&gt;Vendo o simoun que aos poucos aparece&lt;br /&gt;Já não pode esperar! reza uma prece&lt;br /&gt;E cai sequioso à sede que o devora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ruge em meu peito o coração ferido,&lt;br /&gt;Bate convulsa às grades da prisão&lt;br /&gt;Como um leão em malhas envolvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto espectro da desilusão&lt;br /&gt;Gargalha e ri, feroz como um bandido&lt;br /&gt;Apunhalando em fúria um coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TORTURADO...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que hás de vir assim com teu sorriso calmo&lt;br /&gt;E a tua voz maviosa, e o teu olhar radiante,&lt;br /&gt;De minh'alma sondar o fundo abismo hiante,&lt;br /&gt;Como quem sonda um mau terreno palmo a palmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há clangor de blasfêmia e doçuras de salmo,&lt;br /&gt;Em torno; e em cima o vento histérico e possante&lt;br /&gt;Da Dúvida cruel com seu sopro gigante,&lt;br /&gt;Ruge, quando em teu rosto o meu olhar espalmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se sorris, eu recuo; se choras, me aproximo&lt;br /&gt;E, como um rio, então abro o meu seio, o limo&lt;br /&gt;Dorme quieto ao fundo: é o repouso da Dor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sufoca o teu querer; preme ao seio a paixão...&lt;br /&gt;Não chega a saciar meu doido coração&lt;br /&gt;A mágoa deste afeto, a angústia deste amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O JORNAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trabalha o Homem, pensa:&lt;br /&gt;Alarga a idéia os grandes horizontes,&lt;br /&gt;Chocam-se os raios de diversas frontes...&lt;br /&gt;Para uma Lei formar – rui uma Crença.&lt;br /&gt;O Mar, para minar a rocha bruta,&lt;br /&gt;Séculos bate impávido, terrível,&lt;br /&gt;Luta da Força, atroz, contra Impassível&lt;br /&gt;Que... não fala nem luta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guarda o solo nas áridas entranhas&lt;br /&gt;Rico tesoiro, aurífero veeiro,&lt;br /&gt;Mas, não resiste às vibrações estranhas&lt;br /&gt;Da curva picareta do mineiro,&lt;br /&gt;Que desce ao fundo das soturnas minas&lt;br /&gt;Onde não vê do sol um raio loiro&lt;br /&gt;E, ou fica sepultado nessas ruínas,&lt;br /&gt;Ou traz ao sol o oiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em tudo a força impera,&lt;br /&gt;Bruta e terrível, válida e cruel!&lt;br /&gt;Entanto há alguém que à Força diz: espera!&lt;br /&gt;E ela curva a cerviz alta e revel!&lt;br /&gt;Pois tem a calma intemerata e brava&lt;br /&gt;Com que nos erros a verdade crava&lt;br /&gt;A augusta autoridade da Palavra&lt;br /&gt;Impressa no papel!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÍNTIMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei que calma flutua&lt;br /&gt;Em teu olhar,&lt;br /&gt;Tão pura e tão poderosa,&lt;br /&gt;Sagrada, misteriosa,&lt;br /&gt;Tal como a calma da luz,&lt;br /&gt;Ou como a calma do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muita vez minh'alma em pranto,&lt;br /&gt;Amargurada,&lt;br /&gt;Como uma corça ferida,&lt;br /&gt;Procura a fonte da vida&lt;br /&gt;Na harmonia do teu canto,&lt;br /&gt;Na unção da tua risada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pareces-me um ser aéreo,&lt;br /&gt;Silfo ou anjo,&lt;br /&gt;Que avistando a tua imagem&lt;br /&gt;Pára o vento na ramagem...&lt;br /&gt;Cerca-te um fluido, um mistério.&lt;br /&gt;E é sagrado quanto abranjo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E este amor ardente e puro&lt;br /&gt;Que me inspiras&lt;br /&gt;Tem tal força, tal encanto.&lt;br /&gt;Tem tal poder, é tão santo,&lt;br /&gt;Que em seu segredo, obscuro,&lt;br /&gt;Tem o clarão de mil piras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Basta ver-te, e o meu olhar,&lt;br /&gt;Morto e vago.&lt;br /&gt;Brilha, lampeja, se inflama,&lt;br /&gt;Tem fulgor de viva chama&lt;br /&gt;Como um sol a incendiar&lt;br /&gt;A quietude de um lago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! como eu te adoro! santa!&lt;br /&gt;Meu clarão!&lt;br /&gt;É tão profundo este amor&lt;br /&gt;Como a Saudade e a Dor!&lt;br /&gt;És a flor que se levanta&lt;br /&gt;Das ruínas de um Coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IDEAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menina e moça, a primavera em flor,&lt;br /&gt;Um jardim de esperanças e de sonhos:&lt;br /&gt;Dois olhos como o céu puros: dois sonhos&lt;br /&gt;Polvilhados de risos e de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem a meiguice da ave mansa; doce&lt;br /&gt;É sua fala: o olhar uma açucena;&lt;br /&gt;Alma de flor: de lírio, de açucena&lt;br /&gt;Qual se de lírio ou de açucena fosse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menina e moça, o riso perfumado&lt;br /&gt;Casto e lirial da primavera em flor,&lt;br /&gt;Riso de anjo; olhar de anjo, alma de flor...&lt;br /&gt;E, um sonho em riso entreaberto, iriado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brotam-lhe os seios, cria formas, nasce,&lt;br /&gt;Vai para a vida, tão mimosa e meiga.&lt;br /&gt;Franzina e airosa, é tão mimosa e meiga&lt;br /&gt;Inda com as cores virginais na face!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amo-a! Sonho de artista, eu a procuro&lt;br /&gt;Extasiado em muda adoração!&lt;br /&gt;Em minha muda e longa adoração&lt;br /&gt;Adoro-a como o ideal de meu futuro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÚBIL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais do que tudo eu amo o teu olhar&lt;br /&gt;Tão doce e meigo; ó débil sensitiva,&lt;br /&gt;Que traz minh'alma trêmula, cativa,&lt;br /&gt;Absorta e muda à luz desse luar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos teus anos o cândido alvorar&lt;br /&gt;Tua alma de anjo faz modesta e esquiva;&lt;br /&gt;Cerca-te um nimbo de perfume e aviva&lt;br /&gt;O meu amor profundo como o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao céu azul das minhas esperanças,&lt;br /&gt;Como orações de mães ou de crianças,&lt;br /&gt;Sobem cantando as aves do meu sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o coração, por entre a sombra e o pranto,&lt;br /&gt;Diz-me que te amo ardentemente, entanto&lt;br /&gt;Que tu não me amas, com pesar, suponho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alta, franzina, erecta, o porte nobre e fino&lt;br /&gt;De uma graça ideal e planta delicada...&lt;br /&gt;Através do esplendor da renda perfumada&lt;br /&gt;Emerge o seio firme, estonteador, divino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De uma graça felina e de risadas francas,&lt;br /&gt;Ao olhar-nos o fulgor de seus olhos serenos&lt;br /&gt;Faz lembrar em jardins de seiva e viço plenos&lt;br /&gt;Dois miosótis azuis entre açucenas brancas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SILHUETA MÍSTICA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos lilases da tarde&lt;br /&gt;Tristonho, o dia pávido esmorece,&lt;br /&gt;Como o som de uma prece&lt;br /&gt;O sol descamba num poente que arde...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o dorso da serra a luz serena,&lt;br /&gt;Tranqüila e meiga, lentamente cai;&lt;br /&gt;Plena de luto, de saudades plena...&lt;br /&gt;A voz de um sino trêmula se esvai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ave-Maria! Para o céu se eleva&lt;br /&gt;A alma dos crentes re1igiosa e mansa,&lt;br /&gt;Nos santos-óleos místicos da Esp'rança&lt;br /&gt;Ungida e resignada...&lt;br /&gt;Cai a treva.&lt;br /&gt;Mãos postas, fixo e dolorido o olhar&lt;br /&gt;A criança reza junto à mãe que a ensina;&lt;br /&gt;Reza o anjinho para se ir deitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao portal apoiado&lt;br /&gt;O pai os braços cruza e a fronte inclina...&lt;br /&gt;.................................................................&lt;br /&gt;Geme o vento nas frinchas do telhado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levanta-se a criança,&lt;br /&gt;Beija a calosa mão do homem que a olha&lt;br /&gt;Com a sua ternura rude e mansa.&lt;br /&gt;Ninando o infante, a mãe meiga desfolha&lt;br /&gt;Notas de uma cantiga.&lt;br /&gt;Versos e sons que outrora ela aprendera&lt;br /&gt;Da vida na rosada primavera,&lt;br /&gt;Saudosa quadra relembrada e antiga.&lt;br /&gt;.............................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dorme a criança, e a mãe inda a canção&lt;br /&gt;Continua a cantar...&lt;br /&gt;Clareia o canto o luar do coração...&lt;br /&gt;..............................................................&lt;br /&gt;Fora não há luar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÚLTIMO DESEJO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vier a Morte, ouve-me, escuta&lt;br /&gt;A minha triste e última vontade:&lt;br /&gt;Ela resume a minha mocidade&lt;br /&gt;Que crepuscula e pálida se enluta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trago no seio muita dor oculta,&lt;br /&gt;Muita tortura, muita ansiedade:&lt;br /&gt;Esta – filha do amor e da Saudade,&lt;br /&gt;– Nascida aquela da passada luta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero, porém, a Deus, livre de penas,&lt;br /&gt;Subir, alar-me às regiões serenas.&lt;br /&gt;Ouve-me pois: não tremas nem descores...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respeita a minha campa úmida e fria,&lt;br /&gt;Não n’a ultraje tua hipocrisia:&lt;br /&gt;– Sim! Em nome das Lágrimas, não chores!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS CRAVOS BRANCOS&lt;br /&gt;A Waldemiro Cavalcânti&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEDICATÓRIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela a quem meu ser, ajoelhado, rende&lt;br /&gt;O culto mais profundo, o amor mais ideal,&lt;br /&gt;Essa estrela que na alma a inspiração me acende&lt;br /&gt;Como o sol faz florir as violetas do val,&lt;br /&gt;Estes versos dedico, este sonho ofereço,&lt;br /&gt;Onde canta a esperança o seu canto risonho...&lt;br /&gt;Em seus olhos de criança eu o pesar esqueço!&lt;br /&gt;Foi Ela quem me deu o meu primeiro verso,&lt;br /&gt;O meu primeiro amor, o meu primeiro sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;OS CRAVOS BRANCOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cravos brancos, cravos brancos como o leite,&lt;br /&gt;Que as noivas levam para a Igreja ao ir casar,&lt;br /&gt;Cravos da cor das escumilhas do corpete,&lt;br /&gt;Brancos de espumas atiradas pelo mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cravos brancos invejados pelos goivos,&lt;br /&gt;Cravos brancos que de brancos dão vertigens;&lt;br /&gt;Cravos que são como hálitos de noivos,&lt;br /&gt;Beijos de noivos embaciando mãos de virgens!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cravos brancos, cravos brancos, lágrimas d’anjo,&lt;br /&gt;Cravos de Maio cor de leito de noivado;&lt;br /&gt;Cravos do luar que sorri como um arcanjo&lt;br /&gt;A meditar no seu castelo enamorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó cravos brancos! Brancas flores misteriosas,&lt;br /&gt;Seios ireis agasalhar com vossas neves,&lt;br /&gt;Seios macios como pétalas de rosas,&lt;br /&gt;De carne rija, sangue quente e curvas breves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flores dormentes de volúpia e de desejos,&lt;br /&gt;Sempre a sonhar presas aos seios das donzelas,&lt;br /&gt;Amarrotadas pelo fogo de seus beijos&lt;br /&gt;E sempre brancas, sempre puras, sempre belas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flores que noivas levam presas na caçoula&lt;br /&gt;Das mãos de arminho, cravos brancos, para o altar,&lt;br /&gt;Para, ao voltar com as faces da papoula,&lt;br /&gt;Dá-los às virgens para logo irem casar.&lt;br /&gt;Cravos brancos como as mãos da minha amada,&lt;br /&gt;Quando eu descer à terra fria, num caixão,&lt;br /&gt;Desabrochai, brancos soluços d’alvorada,&lt;br /&gt;Ó cravos brancos que plantei no coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DESABROCHANDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cravos brancos vão abrir agora.&lt;br /&gt;Ronda o luar no céu e há silêncio na terra.&lt;br /&gt;Dorme ao longe, ao luar sonhando, a serra...&lt;br /&gt;Os cravos brancos vão abrir agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Múrmuros ventos pelo ar soluçam,&lt;br /&gt;Cessa o rumor na terra e anda o luar no céu;&lt;br /&gt;As nebulosas pálidas se embuçam&lt;br /&gt;Da via-láctea no cerúleo véu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cravos brancos vão abrir agora:&lt;br /&gt;Há silêncio na terra.e anda no céu o luar&lt;br /&gt;Erram estrelas pálidas a orar,&lt;br /&gt;E o azul se arqueia sobre a terra e ora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A madrugada cândida desponta:&lt;br /&gt;Enrubesce o Levante anunciando o dia.&lt;br /&gt;Canta aleluia o vento que esfuzia...&lt;br /&gt;A madrugada pálida desponta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos rosais anseia a viração.&lt;br /&gt;Pensativo no céu anda o luar agora...&lt;br /&gt;Cai mais frio o sereno e aponta a aurora,&lt;br /&gt;Como um amor dentro de um coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das longínquas paragens levantinas&lt;br /&gt;Desce o carro da aurora altivo aos solavancos;&lt;br /&gt;E à manhã abotoam-se as bobinas&lt;br /&gt;E abrem-se os cravos brancos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;AO LUAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abro a janela. O luar canta no espaço e alaga&lt;br /&gt;Tudo, possante assim como uma inundação.&lt;br /&gt;Subjugando a noite o escuro tredo esmaga,&lt;br /&gt;É um combate fatal, uma revolução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por toda a parte a rir sua luz se propaga.&lt;br /&gt;Acorda o lírio e doira a grama pelo chão,&lt;br /&gt;Vai ao mar e incendeia a espuma sobre a vaga,&lt;br /&gt;Branqueia a rocha e faz a nuvem de algodão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fura a tapeçaria espessa da folhagem,&lt;br /&gt;Dilui-se, corre, vaza, inunda, e, na viagem,&lt;br /&gt;Desce como um rastilho às fragas, aos barrancos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai aos rosais em flor, bole nos jasmineiros,&lt;br /&gt;Aromatiza o ar, murmura. E nos canteiros&lt;br /&gt;Para ver o luar abrem os cravos brancos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NUPCIAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó cravos virginais! sereis um dia&lt;br /&gt;Minha auréola de glória e o meu perdão,&lt;br /&gt;Quando eu entrar na vida pela mão&lt;br /&gt;Dessa que existe no meu coração,&lt;br /&gt;Cheio de mágoa e de melancolia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o incenso deixando os incensários&lt;br /&gt;Subir aos santos, aromatizando&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo os santos e os sacrários,&lt;br /&gt;E a Igreja cheia e o padre abençoando&lt;br /&gt;Entre o flébil rumor de cantos vários;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela casta, meiga e enrubescida&lt;br /&gt;Pousar na minha a sua nívea mão:&lt;br /&gt;A alma em sonhos de amor embevecida&lt;br /&gt;Tendo, e tendo ansiosa e comovida&lt;br /&gt;O amor nos olhos e no coração;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há de o ramilhete ser que ela segure&lt;br /&gt;Unido aos seios cândidos, trementes,&lt;br /&gt;De cravos brancos, úmidos, florentes,&lt;br /&gt;Flores nascidas ao luar, e albentes&lt;br /&gt;Como uma vida onde a ilusão perdure.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando em nossa alcova o luar errante&lt;br /&gt;Entrando for beijar o nosso leito,&lt;br /&gt;Do seu bouquet o aroma inebriante,&lt;br /&gt;E a brancura dos cravos palejante&lt;br /&gt;Fá-lo-ão chorar de mágoa e de despeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As virações irão silenciosas,&lt;br /&gt;Entristecidas, melancolizadas,&lt;br /&gt;Em silêncio passando junto às rosas,&lt;br /&gt;Pois levarão as asas preguiçosas,&lt;br /&gt;De tanto serem aromatizadas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tu, anjo, e tu, pura, e tu, criança,&lt;br /&gt;Ó meu amor! minha religião!&lt;br /&gt;Sol longínquo da última esperança&lt;br /&gt;Que me alumia quando a noite avança,&lt;br /&gt;Que me encaminha pela escuridão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulher que entre as mulheres procurei,&lt;br /&gt;Com teus sorrisos cândidos e francos,&lt;br /&gt;Com teu amor – oásis que aspirei –&lt;br /&gt;Cobre minh'alma como eu juncarei&lt;br /&gt;Essa alcova nupcial de cravos brancos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * * *&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4078143963300151569-8015362780483689600?l=deliviobarreto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/feeds/8015362780483689600/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/2009/08/dolentes-poemas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default/8015362780483689600'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default/8015362780483689600'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/2009/08/dolentes-poemas.html' title='DOLENTES (POEMAS)'/><author><name>Pedro Magalhães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07006829704200621386</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_DbQXEgQpD3s/SXz-0dQJo1I/AAAAAAAAAFY/v4YJyPKhH0o/S220/Fotos+28-06-08+(1)_carv%C3%A3o.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4078143963300151569.post-9171550456274588218</id><published>2009-08-29T16:05:00.000-03:00</published><updated>2009-08-29T23:15:37.550-03:00</updated><title type='text'>LÍVIO BARRETO - POR WALDEMIRO CAVALCÂNTI</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEDOS DIAS de descuidosa infância, passados à sombra de cajueiros floridos nas verdes quintas, à margem do Coreaú, em cujas águas atiravamo-nos afoutos; como desses saudosos tempos, vivas, guardo na imaginação as impressões!!&lt;br /&gt;Éramos um forte grupo de meninos, formando uma família unida e disciplinada nos estudos e nos brinquedos, dela fazendo parte uma criança franzina, de olhos vivos, nervosa e contemplativa, revelando sempre aproveitamento nas aulas que acompanhava na Escola de nosso querido mestre Francisco Garcez e no Gabinete de Leitura Granjense, dirigido pelo ilustre Dr. Antônio Augusto de Vasconcelos.&lt;br /&gt;De pouca duração, porém, foi essa convivência cheia de estímulos, de amor e de invejável fraternidade.&lt;br /&gt;A luta pela vida determinara a dispersão desse formoso grupo que deu homens às letras, ao comércio, à burocracia e às indústrias.&lt;br /&gt;Os que melhores recursos possuíam seguiram rumo das academias e muitos deles laurearam-se.&lt;br /&gt;A criança franzina, cuja inteligência precoce, notada e admirada pelos seus condiscípulos, era filho de José Soares Barreto – um homem de honra e probidade imaculada, mas a quem infelizmente faltavam recursos para educar convenientemente os filhos, todos muito hábeis e esperançosos:&lt;br /&gt;José Barreto, amigo que eu prezo como irmão, e que é hoje guarda-livros em Sobral, Ordônio Barreto, outro amigo precioso, guarda-livros em Granja, duas filhas e a criança que, apenas com o exame primário, tivera necessidade de abandonar os estudos e trocar os livros pelo metro, a escola pelo balcão.&lt;br /&gt;Caixeiro de um seu tio negociante em Granja, Lívio Barreto não podia conter os ímpetos de sua alma em anseios de ideal superior e com José Barreto, Luís Felipe, Belfort e outros funda um jornal literário – O Iracema – onde apareceram seus primeiros versos, defeituosos ainda, mas já reveladores da inspiração e da originalidade de seu autor.&lt;br /&gt;Pequeno e acanhado era o meio intelectual da terra e o poeta, cujos versos começavam a ser admirados e transcritos pela imprensa dos Estados, resolveu seguir para Belém do Pará, onde esperava encontrar colocação mais condigna a seus talentos.&lt;br /&gt;Não lhe sorrira porém a fortuna na Amazônia e teve de regressar doente à terra de seu nascimento, trazendo a alma mordida pela serpente do ceticismo e o coração vazio de esperanças.&lt;br /&gt;No regaço da família conseguiu restabelecer-se, volvendo então suas vistas para a Capital do Estado, a bela Fortaleza, onde ia surgir inteligente e sadia a plêiade de Padeiros tendo à frente a simpática figura do talentoso poeta Antônio Sales.&lt;br /&gt;Em breve espaço aprestou bagagem e partiu, sendo bem acolhido e saudado como um talento promissor entre os novos que, como ele, ensaiavam vôos.&lt;br /&gt;Mas, além disso, que aliás satisfazia muito a parte moral de seu ser, era preciso o pão da vida material sem o qual não há milagre de equilíbrio que faça sustentar no espaço um corpo vivo. Dificuldades surgiram e Lívio teve que voltar às pesadas labutações do comércio, com as quais o seu espírito delicado e sensível não se coadunava.&lt;br /&gt;As letras o atraíam e fascinavam irresistivelmente, mas delas era impossível tirar os meios de subsistência, numa terra onde a burguesia olha com sarcasmo e desprezo os que têm por valimento a inteligência.&lt;br /&gt;Ser poeta e ter amor às letras e, sobretudo, ter talento é grave delito que duras penas acarreta.&lt;br /&gt;Lívio Barreto expiou amargamente o horroroso crime de perpetrar bonitos versos.&lt;br /&gt;Altivo como os elevados granitos que põem sentinela à nossa cidade natal, o poeta preferia pendurar a lira nas jeremataias que enverdecem as margens do Coreaú a descantar submisso nas arcadas das habitações dos poderosos.&lt;br /&gt;Por isso, quando a ascensão foi fácil aos medíocres, áspera e insuportável foi sua existência, tecida de decepções, tristezas e amargos dissabores.&lt;br /&gt;Desiludido das carícias da fortuna, fora do lar, a ele regressa como o filho pródigo, acontecendo naufragar nos baixos da Periquara em viagem que fazia o vapor "Alcântara".&lt;br /&gt;Aqui permita-nos Artur Teófilo a transcrição de seu formoso e completo artigo publicado no Pão de 15 de outubro de 1895.&lt;br /&gt;______________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na liça de combate dos que, aqui no Ceará, moirejam na afanosa labuta do escrever, acaba de se abrir um claro de todo o ponto impreenchível com o falecimento do malogrado poeta do Dalentes, tão prematuramente roubado às Letras brasileiras e a nós, da Padaria Espiritual, de que era ele um justificado motivo de orgulho.&lt;br /&gt;Lívio Barreto foi poeta por uma violenta impulsão do seu organismo, a que não pôde fugir nunca, mesmo quando o fel dos desalentos o punha temporariamente fora das lides da inteligência.&lt;br /&gt;Ele foi, quanto a mim, nestes últimos anos, a mais completa envergadura de poeta que floresceu no Norte, pois ninguém como ele possuía essa delicada sensibilidade artística que o fazia versejar às soltas, descompassadamente, numa alucinação incoercível de vidente.&lt;br /&gt;Aos que hão de vir, aos que fizerem no futuro a história literária da minha terra eu deixo a tarefa de, detalhadamente, estudarem a vibrante e original individualidade artística do infeliz amigo; a mim só me compete deixar aqui gravada a sinceridade da minha pena e a admiração incondicional e justa que consagrava menos ao artista que ao belo e rigidíssimo caráter do Livinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lívio Barreto nasceu na fazenda dos Angicos, distrito do Iboaçu, da comarca de Granja, neste Estado, a 18 de fevereiro de 1870.&lt;br /&gt;Foram seus pais José Soares Barreto, já falecido, e da Mariana da Rocha Barreto.&lt;br /&gt;Juntos vivemos,– o Livinho e eu,– na formosa aldeia que a nós ambos serviu de berço, e de onde saímos muito cedo, acompanhando a nossos pais, que lutas partidárias expatriaram então.&lt;br /&gt;Lívio foi morar na cidade de Granja, onde chegou em 1878 e aí aprendeu com o professor Francisco Garcez dos Santos as primeira letras.&lt;br /&gt;Exigências de fortuna obrigaram-no a ir, muito criança ainda e muito a contragosto seu, servir como caixeiro de um parente e, nesse ofício embrutecedor do mercantilismo aldeão, gastou ele a melhor parte de sua infância, incompreendido e anônimo.&lt;br /&gt;Por esse tempo exercia um ofício na magistratura da terra o Dr. Antônio Augusto de Vasconcelos, que soube aproveitar as suas excelentes qualidades de educador, ensinando a um punhado de rapazes esperançosos de Granja ligeiros conhecimentos de português, geografia e francês.&lt;br /&gt;O tempo que lhe sobrava da sua tarefa diária empregava o Lívio ouvindo as lições do desinteressado mestre, lições que, por serem acomodadas às regras do convencionalismo, pouco aproveitaram à sua audaciosa imaginação de poeta, que então já se revelava energicamente.&lt;br /&gt;Desse grupo de rapazes, dos quais o mais novo era o Lívio, saiu a futura redação do Iracema, periódico literário redigido por Belfort Teixeira, Luis Felipe e José Barreto, e no qual revelou o Lívio a sua decidida vocação para as letras, publicando versos e escrevendo crônicas humorísticas.&lt;br /&gt;Desaparecendo o Iracema e com ele aquele fugaz florescimento literário, foi-lhe pesando insistentemente o aborrecimento daquele atrasado meio de civilização, e ao seu espírito sonhador e idealista se apresentou, numa clarividência de contraste, um mundo outro, onde as suas grandes faculdades imaginativas pudessem, livres de peias, se desdobrar livremente.&lt;br /&gt;Foi o Pará a terra escolhida e para onde seguiu ele a 10 de junho de 1888, empregando-se logo em seguida como caixeiro na loja Maripôsa.&lt;br /&gt;Parece que o perseguia em toda parte o maldito balcão que odiava tanto e do qual tentava fugir esforçadamente, em convulsivos ímpetos de ave presa.&lt;br /&gt;Foi ali, entretanto, que conseguiu conhecer a maior parte dos poetas portugueses e onde travou conhecimento com João de Deus do Rêgo, que muito contribuiu para a formação da sua orientação literária, nova, equilibrada e bem entendida.&lt;br /&gt;À impiedade da nostalgia e às saudades que o torturavam não pôde resistir a triste e lacrimosa sentimentalidade do meu amigo, e a 7 de agosto de 1891, muito doente de beribéri, regressou ele à terra natal, com a bagagem de alguns livros, um poema inédito e um fígado irritado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que muito intensamente avigorou-se-lhe na alma uma paixão antiga a que ele muita vezes tentou embalde fugir, e que o acompanhou, cada vez mais insistente, até à morte.&lt;br /&gt;E, a propósito, é bom que eu, – seu amigo e confidente, – o afirme aqui:– toda a obra literária do Lívio Barreto não é mais que o diário escrito dessa infeliz paixão, que tão implacavelmente o torturou, impressionando-o muito, roubando-lhe a energia e desenhando-lhe sobre o rosto a nódoa de duas olheiras.&lt;br /&gt;Por esse tempo, aparecia em Granja um outro jornal literário, – A Luz, dirigido por Antônio Raulino e ao qual veio de novo prestar Lívio Barreto a valia do seu concurso, publicando os "Versos a Estela", muitos sonetos e escrevendo ligeiras crônicas humorísticas.&lt;br /&gt;Por pouco tempo se demorou ele em Granja, de onde saiu a 14 de fevereiro de 1892, para fugir à impetuosidade brutal da sua infeliz paixão que, dia a dia, mais se agravava, chegando à Fortaleza na noite de 16 de fevereiro, quando esta capital era um campo de batalha e as bombardas estoiravam incessantemente, vomitadas pelos Krupps da Escola Militar.&lt;br /&gt;Ainda desta vez teve de se submeter à sua má estrela, indo servir como caixeiro do Sr, Adolfo Barroso.&lt;br /&gt;E, como um protesto vivo contra a selvageria da sorte, começou a publicar no Libertador formosíssimos versos de uma suave melancolia, a que decerto não era estranha essa por quem, longe da pátria, ele ansiava ardentemente.&lt;br /&gt;Por esta ocasião aqui se criava a Padaria Espiritual, de que foi Lívio Barreto um dos fundadores.&lt;br /&gt;Desgostoso do ofício de caixeiro, resolveu voltar para Granja, tomando no dia 27 de junho de 1892 passagem no vapor "Alcântara", que nessa noite, desastradamente, naufragou na altura de Periquara.&lt;br /&gt;Livio Barreto era um excelente nadador, e a esta vantagem, deve não ter morrido, com aquele mar furioso de Periquara, cheio de abrolhos e furiosamente irritado.&lt;br /&gt;Na praia, nu, sem dinheiro, à brutalidade daquela desgraça, na desolação daquela catástrofe, o meu pobre amigo sentiu-se infeliz e nessa formosíssima poesia – "Náufrago", que ele escreveu deitado sobre a areia da praia, soube cristalizar todas as lágrimas, todas as amarguras daquela terrível noite.&lt;br /&gt;Do naufrágio não pôde salvar nem um só livro, – sua única fortuna,– e lá no fundo do mar se ficou o original inédito do poema que ele havia escrito no Pará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em julho, de novo voltou à Granja, como guarda-livros da casa Beviláqua &amp;amp; Cia., onde esteve até 6 de fevereiro de 1893, quando mudou-se para Camocim, indo empregar-se na agência da Companhia Maranhense de Navegação a Vapor.&lt;br /&gt;Foi de lá que ele, a instância do Dr. Waldemiro Cavalcânti, mandou para o prelo o seu livro – Dolentes – que um dia depois de sua morte foi entregue ao editor.&lt;br /&gt;Do Camocim me escreveu ele a sua última carta, que recebi três dias depois de sua morte, e da qual transparecia a imensa desolação que: o acabrunhava, o tédio atroz que consumia a sua última energia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;No ar – dizia-me ele nessa carta, – passa uma tristeza mole de indolência. Dir-se-ia que as coisas bocejam. O teu amigo, entre tudo isto, parece uma indecisão.&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Foi na sua banca de trabalho, pelas 3 horas da tarde do dia 29 de setembro, que caiu morto, fulminado por uma congestão cerebral, o meu querido e pobre amigo, esse excelente rapaz, que era não somente um poeta novo, original e um artista emérito do verso, mas também um dos maiores talentos que tenho conhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;O Lívio era magro, pequeno, altivamente petulante. Tinha o olhar penetrante, sem vacilações, a fronte alta e abaulada e uma palidez baça de hepático.&lt;br /&gt;Ria pouco e só entre amigos deixava por vezes&lt;br /&gt;transparecer a sua fina verve elegante, um bocado pessimista e epigramática.&lt;br /&gt;Com o vulgo era sisudo, um tanto frio mesmo, com uns longes de bem entendido orgulho.&lt;br /&gt;Usava caxemiras claras, chapéu de feltro alto, e fumava cachimbo, à noite, embalando-se rapidamente na rede, com um livro de versos nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não conheci ninguém que tivesse como Lívio, em tão elevado grau, o talento de assimilação e da Forma; uma noite estivemos lendo o Só do Antônio Nobre e no dia seguinte mandou-me ele um soneto, de uma concepção estranha e de uma forma torturada e vesga, moldado pelo escopro do decadismo e perfeitamente semelhante aos versos do poeta português. Essas produções, porém, ele não as considerava suas e rasgava-as.&lt;br /&gt;Ele era, por índole, extremamente panteísta; falava do Sol de Setembro dos Cravos brancos, dos Cajueiros, da Canícula, do Amor; e a Dor, a Melancolia e o Tédio eram divindades vingadoras, contra as quais rugia sempre na impotência de não poder vencê-las.&lt;br /&gt;Tinha pela sua velha mãe, pelas irmãs, o fetichismo idólatra de um crente e era amigo como bem poucos sabem sê-lo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da leitura do artigo de Artur Teófilo, apenas ligeiras considerações poderei acrescentar sobre o livro Dolentes, de que este prólogo é escuro peristilo.&lt;br /&gt;São impressões pessoais de quem a imprensa diária, a advocacia e a política não roubaram de todo o amor pelas boas letras e que tem o culto da Arte, como uma Religião, exercido, embora, em oratório privado e em curtos lazeres.&lt;br /&gt;Da geração cearense que procura dar impulso às letras com sadia e vigorosa orientação, Lívio destacou-se pela originalidade do talento, pela rara maneira de dizer e pela intuição elevada que possuía das cousas da Arte.&lt;br /&gt;A sensibilidade artística de Lívio Barreto era como a da sensitiva selvagem, confrangia-se à menor vibração ou contacto.&lt;br /&gt;No poeta, as decepções deixaram funda impressão, que deu a seus versos a feição dolente e nostálgica de um Ossian; ferindo aqui e acolá a corda simbólica, no desleixo nefelibata, mostra-se, ainda assim, superior aos que entre nós têm procurado acompanhar a nova tendência literária sem a compreenderem. E é por isso talvez que José Veríssimo diz que o novo simbolismo se não liga a causa alguma, sem ter por isso o mérito da originalidade, se a originalidade fosse possível – pois copia e imita desajeitadamente os franceses e portugueses.&lt;br /&gt;O soneto "Torturado" é belo exemplo da facilidade de idealização artística, que José Veríssimo encontra nos versos de Verlaine:&lt;br /&gt;....................................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se sorris eu recuo, se choras, me aproximo&lt;br /&gt;E, como um rio, então, abro meu seio, o limo&lt;br /&gt;Dorme quieto ao fundo: é o repouso da Dor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sufoca o teu querer; freme ao seio a paixão...&lt;br /&gt;Não chega a saciar meu doido coração&lt;br /&gt;A mágoa deste afeto, a angústia deste amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia "Litanias" é outra prova da riqueza de idealização do meu jovem conterrâneo e amigo, cujo talento não chegou a lapidar-se na leitura dos mestres, mas deixou espólio suficiente para julgarmos do muito com que poderia enriquecer a nossa literatura, se a morte não o arrebata aos 24 anos de idade, quando procurava aprumar a sua educação literária dando a seus versos um cunho de ideal superior.&lt;br /&gt;Insubordinado por temperamento, Lívio não sujeitaria jamais seu espírito a uma ordem de idéias que para manifestar-se tivesse de seguir processos quase mecânicos de uma escola consagrada.&lt;br /&gt;Como artista não queria moldes: exercia em plena liberdade as funções criadoras de seu poderoso intelecto e, para notar, poucos possuirão o talento de assimilação como ele. Mas fugia sempre que era possível de copiar impressões alheias, e daí lhe advém essa originalidade que há de notar o leitor dos Dolentes.&lt;br /&gt;E por isso mesmo na Biblioteca da Padaria Espiritual irá ter lugar especial o livro do desventurado confrade que procurou dar à sua obra toda sua alma, que transparece irrequieta, ansiosa, triste e torturada em quase todas as instâncias.&lt;br /&gt;Para justificar a audácia do incompetente que fala, fazendo sombra à luz que do livro se espaneja, devo confessar ao público que não tomaria sobre mim o encargo de prefaciar este livro se não tivesse de obedecer à imposição da amizade.&lt;br /&gt;Em carta de 2 de outubro de 1894 me dizia o autor:&lt;br /&gt;.....................................................................................................&lt;br /&gt;“O meu livro não tem prólogo e não tenho bem a quem me dirigir pedindo-o, senão a V., que pode com franqueza dizer o que ele vale; assim peço-lhe que continue a sua penitência apresentando esse pobre defeituoso à vida que o espera. A mim e a ele honrarão sobremaneira quaisquer palavras que haja de escrever em suas primeiras páginas. Creia que tenho andado bastante impressionado depois que V. tomou a peito a ímproba tarefa de fazer comparecer perante o tribunal do Público o pobre rimador granjense!&lt;br /&gt;A minha ambição de autor satisfaz-se de antemão com qualquer juízo que lhe dispensem, mas a minha amizade ressente-se, meu caro doutor, de que o seu generoso intuito não seja coroado como V. em sua confiança o deseja.&lt;br /&gt;Adeus. Abraça-o o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;amigo e admirador&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lívio Barreto”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi cedendo a essa modesta solicitação de amizade fraternal, que me prendia a Lívio, que resolvi publicar o seu livro, precedendo-o das pálidas palavras que aí ficam sombreando a tela brilhante de seus versos inspirados, quase todos repassados da doce melancolia que o ceticismo, originado das decepções que se acumulam, instila na alma generosa dos artistas.&lt;br /&gt;Em minhas palavras não divulgue a crítica outra cousa, além da sincera homenagem que anseio prestar à memória do desventurado conterrâneo que foi em vida a afirmação de uma possantíssima intelectualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fortaleza, julho - 1897.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;W. Cavalcânti&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4078143963300151569-9171550456274588218?l=deliviobarreto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/feeds/9171550456274588218/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/2009/08/livio-barreto-ledos-dias-de-descuidosa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default/9171550456274588218'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default/9171550456274588218'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/2009/08/livio-barreto-ledos-dias-de-descuidosa.html' title='LÍVIO BARRETO - POR WALDEMIRO CAVALCÂNTI'/><author><name>Pedro Magalhães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07006829704200621386</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_DbQXEgQpD3s/SXz-0dQJo1I/AAAAAAAAAFY/v4YJyPKhH0o/S220/Fotos+28-06-08+(1)_carv%C3%A3o.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4078143963300151569.post-1851907807013724640</id><published>2009-08-29T15:49:00.002-03:00</published><updated>2009-08-31T21:20:25.980-03:00</updated><title type='text'>SOBRE LÍVIO BARRETO, DA ORELHA DO LIVRO</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Lívio foi poeta por uma violenta impulsão de seu organismo, a que não pôde fugir nunca, mesmo quando o fel dos desalentos o punha temporàriamente fora das lides da inteligência. Ele foi, quanto a mim, nestes últimos anos, a mais completa envergadura de poeta que floresceu no Norte, pois ninguém como ele possuía essa delicada sensibilidade artística que o fazia versejar às soltas, descompassadamente, numa alucinação incoercível de vidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Artur Teófilo&lt;br /&gt;-------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Da geração de cearenses que procura dar impulso às letras com sadia e vigorosa orientação, Lívio destacou-se pela originalidade do talento, pela rara maneira de dizer e pela intuição elevada que possuía das cousas da Arte.”&lt;br /&gt;“...meu jovem conterrâneo e amigo, cujo talento não chegou a lapidar-se na leitura dos mestres, mas deixou espólio suficiente para julgarmos do muito com que poderia enriquecer a nossa literatura, se a morte não o arrebata aos 25 anos de idade, quando procurava aprumar a sua educação literária dando a seus versos um cunho de ideal superior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemiro Cavalcânti&lt;br /&gt;-------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Foi um gênio como poeta! Empregado do comércio, moirejando sempre contra a sua íntima vocação de fadado das musas, Lívio Barreto foi um vencido do destino."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigues de Carvalho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lívio, dotado de um gênio taciturno e índole impressionável, imprimiu, pelo sofrer da sua infância e da sua mocidade, um cunho característico na sua enfermiça psicologia. Daí a mania do desgosto, com toda a exacerbação da alma enfurecida a cometer incessantemente a sua idéia. Magnan dar-lhe-ia o diagnóstico de: anxiomania e Max Nordau colocá-lo-ia ao lado de Maurice Rollinat, a rememorar na impertinente sensação da histeria os fluidos místicos do seu Les Névroses. Contudo o poeta sabia gemer e chorar com arte; saía-lhe de mistura com o pranto o estilo icástico e terso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liberato Nogueira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------------------------------------------&lt;br /&gt;Hoje, relendo a obra dos nossos versejadores de 25 anos para cá, vemos que raros deles conseguiram firmar uma reputação sustentável perante a crítica mais benévola. Entre os melhores avulta Lívio Barreto, morto aos 24 anos e cujo livro, Dolentes, tem páginas que prenunciam um grande e original poeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antônio Sales&lt;br /&gt;-------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem sonetos florentinamente burilados, de uma doçura petrarquiana de Campoamor, de uma melancolia terna, meiga e suave de Lamartine. Em muitas de suas páginas pompeia o lirismo peregrino e feiticeiro numa insuperabilidade de Gonzaga; em outras, ressuma, muita vez, a desolação ossiânica de um Laurindo Rabelo, e. algo desse spleen letárgico e doentio de Junqueira Freire. Vivesse em outro meio mais adiantado e não fosse tão curta a sua existência, poderia garbosamente colocar-se ao lado dos nossos mais perfeitos artistas de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário Linhares&lt;br /&gt;-------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nota predominante na lírica de Lívio Barreto é o desalento. Mas a fonte da sua inspiração portentosa nem sempre lhe brotou do amor impossível. A sua musa, suave e terna, se inspirou também na paisagem dos campos, nos aspectos da vida sertaneja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gastão Justa&lt;br /&gt;-------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Mesmo não sendo um simbolista ortodoxo, como o foram, por exemplo, Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, no plano nacional, Lívio Barreto pode ser apontado como o maior simbolista cearense. (...) É uma grande figura da nossa Poesia. Um poeta maior, de mensagem rica e cheia de substância lírica. Um poeta de quem pode e deve orgulhar-se a inteligência cearense."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Artur Eduardo Benevides&lt;br /&gt;-------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Lívio fez poesia como quem constrói uma balsa para escapar de uma ilha deserta. Essencialmente individualista, sua temática espelha um mundo interior assombrado por desenganos, aflições e ceticismo. Não se procure nela uma Arca de Noé para solucionar os problemas da humanidade nem um dreno para esvaziar o homem do sofrimento universal que os alemães chamam de Weltschmertz. Ela deve antes ser vista como um piedoso "miserere" do homem que dignifica a dor, como se ela fosse a única sugestão válida para a comunhão com o universal."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Victor Hugo Motta&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4078143963300151569-1851907807013724640?l=deliviobarreto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/feeds/1851907807013724640/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/2009/08/sobre-livio-barreto-da-orelha-do-livro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default/1851907807013724640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4078143963300151569/posts/default/1851907807013724640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deliviobarreto.blogspot.com/2009/08/sobre-livio-barreto-da-orelha-do-livro.html' title='SOBRE LÍVIO BARRETO, DA ORELHA DO LIVRO'/><author><name>Pedro Magalhães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07006829704200621386</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_DbQXEgQpD3s/SXz-0dQJo1I/AAAAAAAAAFY/v4YJyPKhH0o/S220/Fotos+28-06-08+(1)_carv%C3%A3o.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
